s.e. XXXVII

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.......... A mentira da arte verdadeifica.
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4mar12
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leitor só

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Disse-me um dia um leitor aficionado e muito solitário: “Pensam que sou fechado, não falo com ninguém, mas eu me comunico com muitas pessoas do mundo inteiro, através do que elas escrevem...” Pensei no momento, mas nunca lhe disse, que o mundo se comunicava com ele mas como ele se comunicava com o mundo já que só o mundo era lido por ele e não ele pelo mundo? Depois me achei injusto, quem sabe no fundo se comunicasse, mais do que os outros que falam. Resolvi não dizer nada, mesmo porque o pensamento que pensara, ao que parece, mudara. Passou o tempo, reencontro-me com o pensamento, afinal não mudara só se embutira dando vazão a uma máscara; mas continuo me calando ao leitor, e ele aficionado ainda e muito solitário, e eu despeço isso a ele... solitariamente e mudo no meu embate?
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(e ao fundo no momento "Cheek to Cheek" com Fred Astaire... tão poderosamente ameno e triste e irônico)
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jun.98
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para amadurecer, em direção à origem

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alguns aspectos de Tropismes
de Nathalie Sarraute
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originalmente para "Roman Français II",
disciplina da profa. Verónica Galíndez-Jorge,
curso de Letras, USP, segundo semestre 2010
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. ponto de partida baudelairiano
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C'était une femme grande, majestueuse, et si noble dans tout son air, que je n'ai pas souvenir d'avoir vu sa pareille dans les collections des aristocratiques beautés du passé. Un parfum de hautaine vertu émanait de toute sa personne. Son visage, triste et amaigri, était en parfaite accordance avec le grand deuil dont elle était revêtue. Elle aussi, comme la plèbe à laquelle elle s'était mêlée et qu'elle ne voyait pas, elle regardait le monde lumineux avec un œil profond, et elle écoutait en hochant doucement la tête.
....... Singulière vision! « A coup sûr, me dis-je, cette pauvreté-là, si pauvreté il y a, ne doit pas admettre l'économie sordide; un si noble visage m'en répond. Pourquoi donc reste-t-elle volontairement dans un milieu où elle fait une tache si éclatante? »
....... Mais en passant curieusement auprès d'elle, je crus en deviner la raison. La grande veuve tenait par la main un enfant comme elle vêtu de noir; si modique que fût le prix d'entrée, ce prix suffisait peut-être pour payer un des besoins du petit être, mieux encore, une superfluité, un jouet. (1)
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1. Era uma mulher alta, majestosa, e tão nobre em todo o seu porte que não lembro ter visto alguma que a igualasse no elenco das aristocráticas beldades do passado. Um perfume de altiva virtude emanava de toda a sua pessoa. Seu rosto, triste e emagrecido, estava em plena concordância com o luto cerrado que a revestia. Também ela, como a plebe à qual se misturava e que não via, fitava o mundo luminoso com um olhar profundo e escutava meneando suavemente a cabeça. / Visão singular! "Seguramente," pensei, "essa pobreza, se pobreza houver, não deve tolerar a economia sórdida; um rosto tão nobre o garante. Por que será que fica voluntariamente num ambiente em que destoa tão visivelmente?" / Mas passando, curioso, perto dela, julguei adivinhar o motivo. A alta viúva segurava pela mão uma criança, vestida de preto como ela; por módico que fosse o preço da entrada, este preço talvez bastasse para pagar uma necessidade da criaturinha, ou melhor ainda, uma superfluidade, um brinquedo. Tradução de Dorothée de Bruchard, Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris], Charles Baudelaire, São Paulo: Hedra, 2009.
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..... Tropismes (2) de Nathalie Sarraute, ainda que romance "pequeno", parece ter características dessa femme grande, a segunda viúva da qual nos fala o narrador de Baudelaire em "Les Veuves", de Le Spleen de Paris. Por entre as linhas do texto de Sarraute é possível achar indicativos de uma espécie de "necessiadade de infância". A viúva de Baudelaire quer aplicar sua vontade e a aplica em proveito da alegria da criança; como essa senhora, si noble dans tout son air, o(s) narrador(es) de Tropismes não quer(em) admettre l'économie sordide. A infância seria uma das aberturas possíveis para romper essa sordidez. E cette pauvetré-là da viúva seria comparável à extensão do texto de Sarraute – embora neste (si pauvreté il y a!) não se trate de economia sórdida, mas de precisão e justa medida de recursos.
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2. Citações a partir de Tropismes, Nathalie Sarraute, Paris: Les Editions de Minuit, 2009.
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. o intransponível
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Se a infância e a presença de crianças apontam a uma abertura compensatória, há obstáculos a esse caminho. No caso do livro de Sarraute, eles podem ser manifestados pela ocorrência de várias "intransponibilidades". As narrativas parecem chocar ou revelar uma espécie de choque, seja mais ou menos evidente. Trata-se de uma ferme contrainte (VIII, p.53). Imposição que impede personagens ou situações a atingir um salto, um movimento novo, o alívio de uma respiração. Dessa maneira, a aparição do léxico ligado ao esforço de liberdade ou à incapacidade de libertação: sans jamais passer sur le plain interdit qui pourrait lui déplaire (IV, p.28); Elle restait là, toujours recroquevillée, sans rien faire (V, p.34); Il n'y avait pas moyen de s'échapper (XV, p.95); l'atmosphère épaisse dans laquelle ils vivaient toujours les entourait ici aussi (XVII, p.104); il se tenait immobile, sans oser respirer (XX, p.116).
..... Essa noção de obstáculo (a économie sordide recusada pela viúva) pode ainda ser expressa por voltas ou oscilações sem saída definida: il sentait filtrer de la cuisine la pensée humble et crasseuse, piétinante, piétinant toujours sur place, toujours sur place, tournant en rond, en rond, comme s'ils avaient le vertige mais ne pouvaient pas s'arrêter (II, p.16); il fallait toujours avancer avec précaution et bien regarder d'abord à droite, puis à gauche, et faire bien attention, très attention, de peur d'un accident, en traversant le passage clouté (VIII, p.53); elles parlaient, parlaient toujours, répétant les mêmes choses, les retournant, puis les retournant encore, d'un côté puis de l'autre, les pétrissant, les pétrissant, roulant sans cesse entre leurs doigts cette matière ingrate et pauvre qu'elles avaient extraite de leur vie (X, p.65) – matéria ingrate et pauvre semelhante à da realidade que envolve a viúva e a impede de atingir a alegria.
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. crianças, infância, o desintransponível
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Desde o começo crianças e infância são visíveis. No primeiro capítulo (quadro, parte, estrofe, canto? (3)) aparecem as criancinhas tranquilas qui leurs donnaient la main, fatigués de regarder, distraits, patiemment, auprès d'eux, attendaient (I, p.12) – e talvez seja a própria infância que espera. No capítulo XVI há uma outra que espera pelos velhos que passeiam sem querer nada da vida, que choisissaient avec beaucoup de précautions un coin e a quem il n'y avait rien de plus, c'était cela, « la vie »; os garotos, ao contrário, circulaient trop vite e há esse, no fim, que espera, posto entre parênteses: (le garçon attendait) (XVI, p.100). No capítulo III (novamente no fim) duas crianças – índice passageiro de um ar renovado ou lembrança bem-vinda? – atravessam o campo visual das personagens que nunca se lembram de seu passado campestre e que ne voyaient jamais se lever dans leurs souvenir un pan de mur inondé de vie (III, pp.22-3). E o que dizer dessa afirmação a revelar uma espécie de primazia existencial, de evolução maior em relação aos adultos?: Ces qui étaient des initiés, les enfants, se précipitaient. Les autres, insouciants et négligents envers ces choses, ignorant leur puissance dans cette maison, répondaient poliment (VI, p.40).
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3. Folha - Existe para a sra. diferença entre a poesia e o romance? / Sarraute - Nenhuma, agora que já não se usa a rima. – “Em busca do movimento interior”, entrevista a Betty Milan, Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 28.07.1996.
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..... Da mesma forma, de maneira menos pontual ou não personificada, existe a infância. No capítulo XIX, o personagem que os outros trituraient, le retournaient en tous les sens, tomara gosto por essa devoração depuis l'enfance. Agora, mais obstáculos: os outros o haviam fechado em um mundo où de toutes parts ils l'encerclaient, était sans issue, sob uma lumière aveuglante qui nivelait tout, supprimait les ombres et les aspérités (XIX, p.112); "na" infância talvez não houvesse esse gosto pela devoração, ele se dá depuis, a partir de um momento quando ils o fecham. De maneira comparável, no capítulo XXII, os objetos desconfiam do personagem depuis que tout petit il les avait sollicités; houve alguma transformação. Agora os objetos se recusam à vontade do personagem, a lhe corresponder e ao que ele queria fazer deles: de poétiques souvenirs d'enfance (XXII, p.128). No XXI, havia esse sentimento insustentável por ce regard appuyé sur son dos, depois o medo é mais forte: à mocinha, crescida, os olhares são diversos e suas suposições sucedem com velocidade no período final. E, se o livro começa com a espera das crianças, no fim – última linha e palavra – é um traço de infância que se faz presente enquanto os personagens entrelaçam as mãos: avec leur sourire légèrement infantile (XXIV, p.140).
..... Se a infância remete a estados de espírito mais compensatórios, que apresentam a possibilidade de um desembaraçamento, outros elementos manifestam uma condição mais terna, de alívio e acolhimento, por exemplo o calor (4). Há o gato assis tout droit, les yeux fermés, sur la pierre chaude – e para isso todo um parágrafo (perfeição autossuficiente?) (XVIII, p.107); alguns capítulos adiante o chaud e o vivant encontram-se lado a lado quando o personagem busca algum tipo de vitalidade ao tocar a madeira: pour essayer de trouver autour de lui quelque chose de chaud, de vivant – e a temperatura do irradiamento das coisas: d'où, chauds, pleins, lourds d'une mystérieuse densité, des objets lui jetaient une parcelle – à lui aussi, bien qu'il fût inconnu et étranger – de leur rayonnement (XXII, pp.127 e 129). A infância e esse "à-vontade" buscado parecem se encontrar nas páginas finais por meio da ronde, situação de calor físico e psicológico, com une faiblesse, une moulesse, em que o poétique souvenir pode, enfim, se pôr em movimento: un besoin de se rapprocher d'eux, d'être approuvée par eux, la faisait entrer avec eux dans la ronde. (...) nous voilà donc enfin tous là, convenables, chantant en chœur comme de braves enfants qu'une grande personne invisible surveille (XXIII, p.135) – ainda que o calor da roda possa ter um traço de tristeza úmida: gentiment en se donnant une menotte triste et moite. (5) Mas, a seguir, no último capítulo e no fim mesmo do livro, a roda retorna sob a forma de un rond bien tendu, talvez mais preciso com seu aspecto de claridade e lembrança agradável, em um só parágrafo como para o calor da pedra sob o gato: Ils se souvenaient de tout, ils veillaient jalousement ; se tenant par les mains en un rond bien tendu, ils l'entouraient (XXIV, p.139).
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4. (...) la chaleur, rendant visibles les parfums (...) – diz-nos Baudelaire em outro texto ("Le Fou et la Vénus", Le Spleen de Paris).
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5. Aliás, uma característica forte de todo o romance parece ser essa: a ambivalência possível nos sentidos das narrativas. É possível serem lidas em tom irônico, positivo, negativo... Todo o valor da infância pode ser considerado sob um olhar "amargo" ou "ilusório"; para mim foi mais notável o aspecto "de esperança", que procuro considerar aqui. E penso que essa ambivalência ou possível ambiguidade tem relação com a poesia – a poesia que Sarraute diz não diferenciar do romance. (v. nota2)
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. o desintransponível do olhar
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A outra "compensação", outra forma de combate aos obstáculos e às atmosferas pesadas, seria a acuidade da visão, a necessidade do olhar. Absolutamente todos os capítulos empregam o verbo "ver", expressões ou ações relativas aos "olhos", sobretudo o verbo e o substantivo "olhar" (6) qu'on voyait l'escalier (...) qu'on regardait les façades des maisons (V, p.35); Elle se tenait aux aguets (...) le regard fuyant, honteux (VII, pp.45 et 47);  comme toujours dès qu'il la voyait (IX, p.58); je suis allé regarder moi-même (XII, p.76) etc. – até no fim, quando antes do "sorriso infantil" ils le fixaient de leur regard vide et obstiné (XXIV, p.140). E, justamente, não se trata de um olhar qualquer; várias vezes esse ato da visão se aproxima do esforço em compreender, esclarecer, escrutar, ver de fato, com atenção, obstinação: Ils regardaient attentivement les piles de linge (I, p.11); le regard perdu et comme suivant intérieurement un sentiment subtil et délicat (...) elles ne cessaient de regarder en lui une baguette qu'il maniait (IV, p.27); il traversait en regardant avec une infinie prudence (...) pour bien voir si une auto ne venait pas (VIII, p.51); seuls ses yeaux étaient protubérants (IX, p.57); son regard s'allumait, elle tendait le cou avidement (...) en ouvrant d'un air pur et inspiré ses yeux où elle allumait une « étincelle de divinité » (XI, pp.70-1); Avec son petit œil perçant et malicieux (XII, p.75); furetaeint d'un œil avide et connaisseur (...) Leurs yeux tendus furetaient à da recherche (XIII, pp.81-2); Toujours fixés sur elle, comme fascinés, ils surveillaient (XIV, p.87).
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6. Só o capítulo XIX não possui "verbos de visão"; assim mesmo contém o trecho já citado: Partout leur atroce clarté, leur lumière aveuglante qui nivelait tout, supprimait les ombres et les aspérités. (XIX, p.112)
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..... É a maneira de "fureter", "happer" (XXIV, p.139); é um aprendizado de faire bien attention, attention, attention (VIII, p.52); é a disposição de regarder calmament, bien en face, saisir son regard, ne pas se détourner de son tortillement (IX, p.57); é o impulso de "allumer la lumière" e sentir as mãos tâtonner dans l'obscurité (XX); de regarder ; et juste au beau millieu de la maladie (XXI, p.123) – ou de criticar a falta dessa disposição: Il ne s'arretait jamais au milieu de la rue pour regarder (XXII, p.128). Talvez como condensação exemplar, a ação em direção aos peurs blotties do segundo parágrafo do capítulo XX: Maintenant qu'il était grand, il les faisait encore venir pour regarder partout, chercher en lui, bien voir et prendre entre leurs mains les peurs blotties en lui dans les recoins et les examiner à la lumière. (p.115)
..... Toda essa postura não é apenas dos personagens ou das narrativas; parece pertencer à própria escritura. Os acontecimentos se dão em pequenas situações e atmosferas: seja uma ambientação condenada da qual as pessoas são incapazes de escapar... sejam os pequenos barulhos no silêncio ouvidos da beira de uma cama... seja uma pesquisa por tailleurs, o passeio de um avô ou de um velho na noite de primavera, o momento entre duas mulheres nos arredores de Londres. Essa atenção ao mínimo, ao detalhe, à "pequenez", parece também se relacionar ao que é próprio da infância, de sua "puerilidade", aspecto mais de uma vez abordado, como no capítulo XV: en agitant en l'air ses petits pieds, d'une manière puérile. (p.94)
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. pequenez do pequeno, grandeza da pequenez
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No livro Enfance, de 1983, Sarraute parece ir diretamente à "puerilité" (7). É como se a escrita fosse (se sentisse no direito de ir) para além das "intransponibilidades" e resgatasse os momentos em que a infância não espera nem apenas testemunha, mas (re)vive, (re)respira. Pode-se mesmo reencontrar o calor na recordação da mãe: avec tout contre mon dos la tiédeur de sa jambe sous la longue jupe (p.20). Na Enfance (o livro) as narrativas talvez atinjam com disponibilidade a liberdade do calor negado nos Tropismes – onde há obstáculos entre os corpos e o desejo de tocar, onde marcam presença vitrines e devantures: Ils regardaient longtemps, sans bouger, ils restaient là, offerts, devant les vitrines, ils reportaient toujours à l'intervalle suivant le moment de s'éloigner (I, pp.11-2); quand ils regardaient les devantures des magasins (III, p.22); On les voyait marcher le long des vitrines (XIII, p.81); il regardait à travers une vitre claire (XXII, p.129).
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7. Li apenas as primeiras páginas desse livro, contudo fica a impressão forte de que se trata de uma direção tenaz e franca à memória e aos sentimentos da infância. Enfance, Nathalie Sarraute, Paris: Galllimard, 2009.
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..... As barreiras de Tropismes podem ser lidas como impossibilidades ao contato do que é mais vivo, mais intenso. Faz pensar no livro de Philippe Delerm, La Première Gorgée de Bière, em que os textos – cujo subtítulo é et autres plaisirs minuscules – tratam justamente de momentos em que o detalhe ou o valor das pequenas coisas se revela. Por sua referência direta à infância, assinala-se esse trecho de "On pourrait presque manger dehors": C'est bon la vie au conditionnel, comme autrefois, dans les jeux enfantins : « On aurait dit que tu serais... » Une vie inventée, qui prend à contre-pied les certitudes. A infância é um lugar onde se pode "inventar", onde se pode ter a liberdade de viver au conditionnel; mas, em Tropismes, as devantures o impedem.
..... Retomar a infância – romper as vidraças – seria uma maneira de, sem temor de mécontenter, s'échapper (XV, p.96), escapar para reencontrar a vida ela mesma, para laisser un coin de fraîcheur (XIX, p.111), para o renascimento de algum aspecto si enfantine, si pure, como aquele da pequena Thérèse de Lisieux (XIV, p.88). Voltar ao passado para se reencontrar, partir em direção ao começo para conquistar uma maturidade, ir ao início para amadurecer. E, a esse respeito, curiosa é a semelhança, a quase igualdade entre mûrir et mourir. Se a superação do intransponível seria a reconquista da vida de parte dos personagens, pode-se considerar que eles vivem na morte ou em uma semimorte. Seria preciso, primeiro, perceber – a seguir aceitar a situação estagnada. Aceitar para s'échapper, para se evadir em direção a si mesmo ou ao que é mais vivo. Novamente a mulher alta de Baudelaire: sabe que é viúva, reconhece a morte e talvez por isso mesmo sinta que é capaz de se sacrificar pela alegria do filho, de se reenviar à fraîcheur da infância.
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. o deslizamento do olhar em direção à melancolia
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Afinal, quais são os tropismos de Tropismes, eles se dão em relação a quê? Quais são, nas narrativas, a croissance orientée dans l'espace (...) sous l'influence d'une excitation extérieure, a affinité d'une substance (...) pour un tissu, un organe donné, a force obscure qui pousse un groupe, un phénomène à prendre une certaine orientation? (Le Petit Larousse) Parece que um dos aspectos possíveis está na tensão entre os personagens, sempre explicitado pelo contato (a fricção) entre ils e elle, elle e il, il e ils... Contudo essa force obscure – às vezes estabelecida em meio a maneiras automáticas de vida – pode ser compreendida por uma tendência íntima dos indivíduos a se resgatarem, a reencontrarem alguma ambiência mais leve (por exemplo a da infância) (8).
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8. As relações entre esses personagens nomeados por pronomes pessoais podem mesmo se revelar pelo aspecto gráfico: a verticalidade da letra L nos il, ils, elle, elles... quem sabe põe em jogo a ânsia – espalhada por todo o livro – por uma horizontalidade de repouso, de tranquilidade, de acolhimento (mais uma vez possivelmente representada pelos signos da infância).
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..... Ao acompanhar o caminho dessas tensões ou dessa infância intangível, sobressai a participação de movimentos que glissent, rampent, écoulent, se deslocam au long dos percursos: silencieusement, glissant vers le fond sombre du couloir (III, p.23), maintenant elle se glissait vers Gide (XI, p.70), ils se sentent glisser (XIV, p.88), qui rampait honteusement pour essayer de se glisser entre eux (XXIV, p.140), des après-midi entières s'écoulaient (X, p.64), se collant au mur, de biais, craignant (XXII, p.129), et avancer modestement le long des trottoirs (V, p.36), elles trottaient le long des boutiques (XIII, p.81), ils marchent de côté docilement, longeant le mur (VII, p.47), pendant qu'ils avançaient lentement le long du trottoir, en se tenant par la main (VIII, p.52), la main le long de la colonne (XXII, p.127). A ponto de remeter a bichos ligados particularmente a esses gêneros de ação: Comme un cloporte, elle avait rampé insidieusement (XI, p.69) e parasites assoiffés et sans merci, sangsues fixées sur les articles qui paraissaient, limaces collées partout et répandant leur suc (XI, p.71).
..... Esses deslocamentos têm algo de furtivo, obscuro e insinuante, quase clandestino certas qualidades que se assemelham a essas pequenas vegetações urbanas encontradiças em qualquer calçada, esquina, poça, boca-de-lobo... Pequenas concentrações de ervas, moitas, gramas que rampent, glissent, s'écoulent pelas rachaduras dos espaços pouco ou nada notados. No entanto podem ser entendidas como concentrações de vida, microflorestas resistentes. A infância, por sua vez, não teria essa qualidade de fragilidade e perseverança, vulnerabilidade e potência? No entanto, em Sarraute, ao se insinuar nas linhas de Tropismes, a infância parece querer viver: sem poder inteiramente – e escorre, rasteja, desliza... como as pequenas vegetações numa fissura de sarjeta.
..... A propósito desses elementos – e ainda sobre o "olhar", tão presente nas páginas do livro –, pode-se pensar em duas referências cinematográficas de dois grandes filmes do século XX. Certamente há vários, centenas de filmes cujo tema é a infância, mas Stalker – de Andrei Tarkovsky – e Fanny e Alexandre – de Ingmar Bergman – contêm cenas em que a infância parece transparecer com essa dose de melancolia, de "intransponivelmente" que podemos encontrar por trás dos vidros e entre as tensões de Tropismes. No filme de Bergman, é no início: nos primeiros minutos testemunhamos o ar abandonado do jovem Alexandre brincando com as marionetes de seu pequeno teatro. A cena de Tarkovsky encontra-se no fim: o olhar obscuro da filha do protagonista diante do deslocamento dos copos sobre a mesa – olhar enigmático mas que de certa forma participa a compreensão do mistério.
..... Sobre le masque des choses, sobre o qual les yeux indifférents glissaient (X, p.64), as palavras de Tropismes parecem buscar uma origem perdida, algum crescimento interdito ou sufocado. Contudo sem indiferença: como a viúva baudelairiana, elas olham le monde lumineux avec un œil profond. Os olhos de suas frases detêm a atenção concentrada para échapper en heurtant les parois déchirées et courir (XXI, p.123), contêm e transmitem a concisão em direção ao mínimo que revela.
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Stalker, Andrei Tarkovsky, 1979
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Fanny et Alexandre, Ingmar Bergman, 1982
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s.e. XXXVI

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.......... Curar uma igara no fogo para pô-la na água com jeito. Pedir uma ubá do tronco para ter com ela do rio o vento.
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1abr02
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agronomia

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Confissões de um agrônomo: eu, quando escrevo a palavra fruta, carrego o F nas costas, sopeso sua fibra, sua espessura porosa, suas retas prazerosamente de escada; levo o R pela curva, lavado, de uma substância extrusiva pelo cultivo contínuo com o U, o qual atrai a natura, pele a pele de opostos como o encaixe de polos norte-e-sul; e o T e o A trago a galope sob os guindastes, os timbres átonos, eles toantes, amantes – então todos os planto no solo como blocos de Stonehange. Do mesmo modo a palavra planta, e folha, ou terra, ou grânulo. Minha confissão cultiva (se dicionariza agrária, ad infinita) quando no raiar do dia minha mão apta e a pequena pá se sujam de lama.
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Nota pequena para o agrônomo: palavra, lavra.
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out.99
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eu

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máscarargumento

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I
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Andar à rua nunca é andar à rua. Vez é você como num exército de um só soldado, desbrava, marca as polegadas, cartografa a (sua própria) cidade a que nunca havia olhado deste modo; vez é você indo entre gente brava, brava gente, corajosa, sem pena de ir vivendo assim a pulmões escancarados, mas meio zonza; vez é ir de terno; vez é ir de chinelos, quando muito não furados, gastos pelo roça-roça, entre o teimoso e a calçada desnivelada, entre o cansaço e a esperta boca-de-lobo, entre a fumaça dos canos e os olhos amorfos em vapor d'água; vez é ser para fora; vez é ser intro indiscutivelmente; vez é tropeçar num lixo ralar o queixo e gritar filho da puta e se ver assustado ao se ver retrospectivo caindo e xingando ralado; vez é ir adiante e sair se perguntando o que xinguei? a quem me dirigi exatamente?; vez é ir adiante e sair se perguntando; vez é sair adiante e não se perguntar nada, dia branco do cérebro, e as calçadas; vez é: a planície dos asfaltos; os telhados sem calha; as antenas parabólicas intumescidas perigando com a chuva; vez é: a árvore que se acha numa dobra de esquina; o cadáver do rato; as pegadas secas no cimento que não são de uma gazela são de um cachorro possivelmente vira-lata; vez é: semáforos; vez é: amarelo (azul, vermelho); vez é: o mapa de dentro; vez, é como eu agora mesmo neste momento andando: como aquele sujeito na sua suspensão de tempo chego a esta porta e subo e desço a aldrava de grifo, ta, q, ta, q, ta, saberei quem mora do outro lado? Saberei quem mora no lado interno?... ressoa conforme eu bato, e o eco dessa pergunta (o eco da resposta?) é o que vai servir de estofo entre o chão e o meu piso quando eu continuar andando.
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20.dezembro.00
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II
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Andar à rua não como eu ando, como eu a vejo daqui sentado vendo o seu movimento caminho aberto a passar: sem medo, não-trancado, sem o espanto eterno (como o de ver um segmento sabendo-lhe longo ou curto acesso a todos-todos), com rancor. Rancor de quê? Um rancor seco, sucinto, minucioso de franco, só com o tempero do seu próprio ser, ran-cor, ran-cor, quilate %, a porcentagem 100. De sentir sair do gesso o gosto incolor que se apega à pele; de se evadir um floco solto e no calor festivo a cair, desgarrada neve; de servir um coquetel fervente, e é verão, verão fora, verão dentro, verão de forma inconteste, geral; de ter que descer do alazão e amainar burro brabo que no fervor se atolou e se atola mais pensando ter razão; de ser sobre o cavalo e reparar no cabresto não lá mas aqui, na fuça humana non sense; de, a todos modos, sentir na vibração – da pele sob peles dos pelos das peristalses do progresso ímpar pulmonar – o “sono rancoroso dos minérios”, que atinge, que visita, que invade por já só ser, jazer imanescente, jazz, jazídico. Isso porque é um dia e tanto, isso porque o verão é bom (apesar dos lagos de suor), e agradabilíssimo, isso porque há um aniversário incrível, de casamento, de quatro décadas e meia na palma de dedos juntos do Dr. Tempo, isso porque a esperança é uma sementinha a quem se dá muito carinho embora não haja terra muita vez (embora não exista terra onde ceie), isso porque o mundo é dos trinques, é onde o possível tem nome, o possivelmente (é o que estava escrito na tábua de dentro do banheiro abandonado da estrada sem complemento), isso porque esta máscara quando a digo no rosto e de gosto branca e apegada à cara a verter lento esse quase amargo a sair do seu corpo que tanto sinto, é um devaneio um mimo de estilo um mote tolo e imaginário, é claro.
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21.fevereiro.01
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deslizamento de máscaras


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alguns aspectos do narrador de Le Rouge et le Noir
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originalmente para "Roman Français I",
disciplina da profa. Verónica Galíndez-Jorge,
curso de Letras, USP, primeiro semestre 2010
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James Ensor, Autorretrato com máscaras, 1899
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Je suis entre moi et moi.
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Paul Valéry
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. abertura, aberturas
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Talvez seja exato, em um texto que se propõe considerações a respeito do narrador stendhaliano de Le Rouge et le Noir, que ele se inicie com uma epígafre. Não apenas por esse ser um traço marcante da composição do romance, mas sobretudo por uma característica que parece notável na "voz" dessa narração: o tom de distanciamento e de distinção que ela evoca. E as epígrafes, que o autor espalhou desde o começo por quase todos os capítulos do livro – antes mesmo de começar a narrativa, com a frase de Danton –, já poderiam ser vistas como um elemento desse distanciamento. Elas põem em cena uma relação de desdobramento de sentidos do texto: denotam a ação do autor a fazer pontos de contato entre a história que narra e outras realidades externas a ela.
.......... Contudo, em Stendhal, essa explicação do narrador-autor é complexa e por vezes dissimulada – a necessidade mesma de designá-lo por narrador-autor assinala essa complexidade, em que o autor pode se demonstrar por meio de um narrador (multidimensional) ou o narrador é aquele que se manifesta diretamente como um autor.
.......... A partir da ideia de que há diversas passagens no Rouge em que a primeira pessoa narrativa parece se revelar mais explicitamente, este texto pretende apontá-las, ao menos algumas. Acredita-se, assim, que esses índices sejam uma espécie de abertura através da qual se percebe um narrador flexível, multiforme, que desliza entre narrativa e leitor, e nos permitem tornar menos intensa a dificuldade de "apanhar" suas máscaras.
.......... Como as epígrafes, há os asteriscos – diante de algumas indicações: le roi de *** , le duc de *** etc. – e as linhas pontilhadas – no meio de alguns capítulos (sobretudo o XXIII, Livre Second). Além de também revelar a presença de um narrador-autor, eles convidam os leitores ao preenchimento dessas indicações.
.......... Uma das faces mais imediatas desse narrador pode se apresentar pelo pronome indenido on. No início do romance, só no primeiro capítulo, ele ocorre dezesseis vezes, mas aparece no decorrer de todo o livro, ora indicando uma coletividade imprecisa, da qual o narrador faz o leitor tomar parte, ora indicando o povo ou os viajantes, entre os quais o narrador se mistura. Deixando à margem essa ocorrência, em parte por sua indefinição inerente, em parte por sua enorme quantidade, é possível detectar outros indícios com que o narrador se desvela afirmativamente ou, em todo caso, de forma menos indefinível.
.......... Dando a impressão de se mostrar sem reservas, há passagens em que o narrador usa o pronome pessoal de primeira pessoa do singular – je, me ou moi. É como se entrevíssemos de repente sua figura por entre a narrativa (1).
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(1) Todas as citações a partir de "Le Rouge et le Noir – Chronique du XIXe siècle, Texte établi avec introduction, bibliographie, chronologie, notes et variantes par Henri Martineau, Garnier Frères : Paris, 1960".
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Je ne trouve quant à moi qu'une chose à reprendre au COURS DE LA FIDELITÉ; (…) – Livre I, chapitre II
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Tel était l'effet de la force, et si j'ose parler ainsi de la grandeur des mouvements de passion qui bouleversaient l'âme de ce jeune ambitieux. – I, XI
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J'avoue que la faiblesse, dont Julien fait preuve dans ce monologue, me donne une pauvre opinion de lui. – I-XXII
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La réflexion du philosophe me fait excuser Mme de Rênal mais on ne l'excusait pas à Verrières, (…). – I-XXIII
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C'est, selon moi, l'un des plus beaux traits de son caractère, (…). – II-XXXI
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Oserai-je dire qu'en rentrant dans sa chambre, Julien se jeta à genoux (…)? – II-XXXI
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Il était encore bien jeune; mais, suivant moi, ce fut une belle plante. – II-XXXVII
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Je ne sais quelle amie intrigante était parvenue à persuader à cette âme naïve (…). – II-XLV
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Ou mesmo, sem a ocorrência do pronome, pode-se constatá-lo, seja sob uma espécie de indicação metonímica:
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Combien de fois, songeant aux bals de Paris abandonnés la veille, et la poitrine appuyée contre ces grands blocs de pierre d'un beau gris tirant sur le bleu, mes regards ont plongé dans la vallée du Doubs! – I-II
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– seja em ocasiões em que, sem se nomear, parece tomar uma posição e emitir opinião:
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Quelle pitié notre provincial ne va-t-il pas inspirer aux jeunes lycéens de Paris qui, à quinze ans savent déjà entrer dans un café d'un air si distingué? – I-XXIV
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Mais à quoi bon nommer ses amis, ses ennemis? Tout cela est laid, et d'autant plus laid que le dessein est plus vrai. Ce sont cependant là les seuls professeurs de morale qu'ait le peuple, et sans eux que deviendrait-il? – I-XXIX
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Ce qui manquait peut-être le plus à ce pauvre comte de Thaler, c'était la faculté de vouloir. Par ce côté de son caractère il eût été digne d'être roi. – II-IV
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Le malheur de la jalousie ne peut aller plus loin.
Soupçonner qu'un rival est aimé est déjà bien cruel mais se voir avouer en détail l'amour qu'il inspire par la femme qu'on adore est sans doute le comble des douleurs. – II-XVIII
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Nesses casos, é notável ainda a aparição do termo tel/telle, como se o narrador apontasse com o dedo alguns acontecimentos.
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Tel est le maire de Verrières, M. de Rênal. – I-I
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Tels sont les faits qui, commentés, exagérés de vingt façons différentes, agitaient depuis deux jours toutes les passions haineuses de la petite ville de Verrières. – I-III
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Tel est l'effet de la grâce parfaite quand elle est naturelle au caractère, et que surtout la personne qu'elle décore ne songe pas à avoir de la grâce; Julien, qui se connaissait fort bien en beauté féminine eût juré dans cet instant qu'elle n'avait que vingt ans. – I-VI
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D'après je ne sais quelle idée prise dans quelque récit de la bonne société, telle que l'avait vue le vieux chirurgien-major, (…). – I-VII
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Ce sont sans doute de tels moments d'humiliation qui ont fait les Robespierre. – I-IX
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Por outro lado, o singular je pode se encontrar implícito sob o tratamento plural do nous.
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Comme notre intention est de ne flatter personne, nous ne nierons point que Mme de Rênal, qui avait une peau superbe, ne se fît arranger des robes qui laissaient les bras et la poitrine fort découverts. – I-VIII
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Une chose singulière qui trouvera peu de croyance, parmi nous, c'était sans intention directe que Mme de Rênal se livrait à tant de soins. – I-VIII-49
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(…) que l'on trouve si fréquemment dans les couvents d'Italie, et dont à nous autres laïcs, le Guerchin a laissé de si parfaits modèles dans ses tableaux d'église. – I-XXVI
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Il se jurait de ne jamais abandonner les enfants de son amie, et de tout quitter pour les protéger, si les impertinences des prêtres nous donnent la république et les persécutions contre les nobles. – II-I
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A esse respeito pode-se destacar o verbo avouer. Se não reforça a exposição dos objetos que o narrador mostra, parece expressar o enunciador mesmo, por conta de sua característica pessoal de declaração íntima.
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Quelque dominé que fût Norbert, les paroles de sa soeur étaient si claires, qu'il prit un air grave qui allait assez mal, il faut l'avouer, à sa physionomie souriante et bonne. – II-XII
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Pourquoi ne pas l'avouer? il avait peur. – II-XV
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Les rêveries de Mathilde n'étaient pas toutes aussi graves, il faut l'avouer, que les pensées que nous venons de transcrire. – II-XIX
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Pendant tout le premier acte de l'opéra, Mathilde rêva à l'homme qu'elle aimait avec les transports de la passion la plus vive; mais au second acte, une maxime d'amour chantée, il faut l'avouer, sur une mélodie digne de Cimarosa, pénétra son coeur. – II-XIX
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Nos trechos a seguir pode-se encontrar a primeira pessoa do narrador e, às vezes, curiosamente, a presenca do autor através de verbos ou ações que designam o trabalho mesmo da escritura. Repentinamente encontramos uma relação metaliterária nas páginas do romance.
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Nous ne répéterons point la description des cérémonies de Bray-le-Haut; pendant quinze jours, elles ont rempli les colonnes de tous les journaux du département. – I-XVIII
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Nous supprimons le reste du système comme cynique. – II-VII
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Mais il est plus sage de supprimer la description d'un tel degré d'égarement et de félicité. – II-XIX
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Le monologue que nous venons d'abréger fut répété pendant quinze jours de suite. – II-XXVII
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No fragmento seguinte, é possível constatar quatro das ocorrências citadas acima – a primeira pessoa do singular implícita no plural; a aplicação do verbo avouer; a primeira do plural e o tema em questão indicando a consciência do criador literário; a frase em que o narrador exprime seu pensamento sob um tom irônico quase proverbial.
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Nous avouerons avec peine, car nous aimons Mathilde, qu'elle avait reçu des lettres de plusieurs d'entre eux et leur avait quelquefois répondu. Nous nous hâtons d'ajouter que ce personnage fait exception aux moeurs du siècle. Ce n'est pas en général le manque de prudence que l'on peut reprocher aux élèves du noble couvent du Sacré-Coeur. – II-XI
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E, à ocorrência do pronome nous, pode-se juntar esta do vocativo lecteur, ele também revelador do narrador de repente explícito, em conversação direta com quem o lê.
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Sans dire un mot, de peur de s'engager, M. de Rênal examinait la seconde lettre anonyme composée, si le lecteur s'en souvient, de mots imprimés collés sur un papier tirant sur le bleu. – I-XXI-128
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Nous craignons de fatiguer le lecteur du récit des mille infortunes de notre héros. – I-XXVII
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Le lecteur est peut-être surpris de ce ton libre et presque amical; nous avons oublié de dire que, depuis six semaines, le marquis était retenu chez lui par une attaque de goutte. – II-VII
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Tout l'ennui de cette vie sans intérêt que menait Julien est sans doute partagé par le lecteur. – II-XVIII
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Le lecteur a sans doute oublié ce petit homme de lettres, nommé Tanbeau, (…). – II-XXVII
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Leitor por vezes transformado em vous, ou monsieur, com voz própria:
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Mais, quoique je veuille vous parler de la province pendant deux cents pages, je n'aurai pas la barbarie de vous faire subir la longueur (…). – I-II-9
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Ce mot vous surprend? – I-V
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Je me garderai de raconter les transports de Julien à la Malmaison. Il pleura. Quoi! malgré les vilains murs blancs construits cette année, et qui coupent ce parc en morceaux? – Oui, monsieur; pour Julien comme pour la postérité, il n'y avait rien entre Arcole, Sainte-Hélène et la Malmaison. – II-I
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Les salons que ces messieurs traversèrent au premier étage, avant d´arriver au cabinet du marquis, vous eussent semblé, ô mon lecteur, aussi tristes que magnifiques. On vous les donnerait tels qu'ils sont, que vous refuseriez de les habiter, c'est la patrie du bâillement et du raisonnement triste. – II-II
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Esse procedimento, em que transparece essa espécie de deslocamento pelo qual se percebe o testemunho e quase, ainda uma vez, a face do narrador – procedimento admirado e desenvolvido por Machado de Assis e seus narradores de "obra difusa e livre" –, atingirá talvez o auge de sua execução em duas passagens. Nos capítulos XIX e XXII, ambos do Livre Second, o narrador chega, entre parênteses, a se referir especificamente como auteur do livro. Assim ele sustenta as "loucuras" do caráter de um dos personagens e estabelece uma conversa com seu "editor" – que não deixa de ser outra representação do leitor – e aí, nas duas passagens, esse narrador-autor expõe o célebre enunciado no qual declara que "un roman est un miroir qui se promène sur une grande route".
.......... Para isso, adota alguns dos procedimentos mencionados: a aplicação da primeira pessoa e a identificação do pronome on – "Je ne pense pas non plus que l'on puisse les accuser ... on lui reprochera ... je crains moins d'irriter..." –, a opinião direta como uma sentença ou máxima – "Ce n'est point la prudence qui manque aux jeunes filles qui ont fait l'ornement des bals de cet hiver." –, a referência aos leitores, diretamente ou pela designação de monsieur, – "Cette politique va offenser mortellement une moitié de lecteurs et ennuyer l'autre... Eh, monsieur, un roman est un miroir..." –, a relação metaliterária – "Cette page nuira de plus ... Ce personnage est tout à fait d'imagination ... Ici l'auteur eût voulu placer une page de points … Si vos personnages ne parlent pas politique ... votre livre n'est plus un miroir".
.......... É curioso que as duas passagens se encontrem entre parênteses. Há também pequenas ocasiões, antes e depois dos trechos em questão, em que os parênteses parecem ressoar a voz direta do narrador. Trata-se de um elemento, inclusive sob valor gráfico, que reforça a relação de destacamento narrativo – com um detalhe: por diversas vezes com o comentário linguístico a respeito dos mots.
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(C'est une façon de parler du pays.) – I-VIII
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En prononçant la parole si bien nés (c'était un de ces mots aristocratiques que Julien avait appris depuis peu), il s'anima d'un profond sentiment d'anti-sympathie. – I-XIII
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(C'était un mauvais mot qu'il tenait du vieux chirurgien.) – I-XXVIII
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(On eût dit que ces mots et ce titre écorchaient la bouche du provincial orgueilleux.) – II-VIII
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Une fille de ma naissance, et avec le caractère chevaleresque que l'on veut bien m'accorder (c'était un mot de son père), ne doit pas se conduire comme une sotte. – II-XI
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(De tels caractères sont heureusement fort rares.) – II-XIV
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Ici elle osait dire qu'elle aimait. Elle écrivait la première (quel mot terrible!) à un homme placé dans les derniers rangs de la société. – II-XIV
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(Ce mot était la grande objection de Julien contre les femmes de ce pays). – II-XVII
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Il fit entendre à Mathilde (sans doute il mentait), (…). – II-XXXVIII
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Não que essa voz não se manifeste sem parênteses – como já assinalado –, mas eles parecem realizar a função de enquadramento, de um traço que sublinha a exposição do narrador na narração.
.......... Por fim, a última ocorrência de distanciamento e que tem relação com a "realidade exterior" na narrativa: as notas de rodapé – a primeira, no capítulo II-XLII, em que acontece o conciso comentário "C'est un jacobin qui parle.", e na página final, em que o autor expõe a ficção do nome da pequena cidade de Verrières.
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. protagonista(s)
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Como as máscaras do quadro de James Ensor, ao redor da autorrepresentação do pintor e talvez à maneira de figuras dele mesmo multiplicado, é possível considerar esses aspectos linguísticos como exposições por meio das quais o narrador se apresenta. Contudo, ao contrário da pintura, em que o protagonista se expõe com claridade – é a única presença por assim dizer "mais humana", desmascarada em meio a outras por vezes sombrias e grotescas –, o narrador do Rouge não se apresenta assim. Sua face não é nítida, ou, de outro modo, estaria diluída nas demonstrações de todas as máscaras que o representam – a máscara do on, das primeiras pessoas, da metaliterariedade etc.
.......... Mas, à parte esses "rostos" específicos, e lembrando que o romance é "un miroir qui se promène", não seria possível considerar ainda uma outra? – a máscara de seu protagonista, Julien Sorel.
.......... O narrador "rougeliano" realizaria nas formas de sua expressão a variação psicológica de Julien. De um lado, as múltiplas faces com as quais o narrador se apresenta corresponderiam à mobilidade de caráter de seu personagem, esse "impatient du mépris" (II-XXXIV), esse jovem hipócrita de 23 anos (II-XLIV) no interior de quem é "presque tous les jours tempête" (I-XI), covarde e cheio de sonhos heróicos, o personagem circular em que se pode encontrar a posição altiva sobre o "roc immense" (I-X) e a auto-análise pela qual declara ser preciso "avouer que je suis né avec un caractère bien plat et bien malheureux" (II-XVII).
.......... No artigo sobre Le Rouge et le Noir, publicado em 1832 por Stendhal, ao expor sua visão a propósito dos leitores franceses do século XIX, o escritor diz (2):
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(2) Diz, mas sob efeito de outro jogo de máscaras: esse texto, originalmente em carta ao conde Salvagnoli, é assinado por Don Gruffo Papera, e o escritor se refere ao autor do romance como "M. de S" ou "l'auteur". Henri Martineau, em nota, nos esclarece: "On sait qu'il [Stendhal] n'écrivait guère de lettres sans les signer d'un nom supposé".
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Les petites bourgeoises de province ne demandent à l'auteur que des scènes extraordinaires qui les mettent toutes en larmes; peu importent les moyens qui les amènent. Les dames de Paris au contraire, qui consomment les romans in-8º, sont sévères en diable pour les événements extraordinaires. Dès qu'un événements a l'air d'être amené à point nommé pour faire briller le héros, elles jettent le livre et l'auteur est ridicule à leurs yeux.
....... C'est à cause de ces deux exigences opposées qu'il est si difficile de faire un roman qui soit lu à la fois dans la chambre des bourgeoises de province et dans les salons de Paris.
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Essas "exigences opposées", essa intenção de estar tanto nos quartos burgueses de província quanto nos salões parisienses, podem tecer a variação dos movimentos existenciais de Julien, esse caráter capaz das maiores altitudes que a ambição e o sonho oferecem e, igualmente, dos silêncios mais profundos e introspectivos – enfim, do vermelho e do negro; entre a vida militar e a eclesiástica, a paixão e a razão, a posição social "para os outros" ou a postura exclusivista "para si mesmo". Ser ambivalente que parece se bater até o fim contra esse "espírito de seriedade" do qual nos fala Sartre em Situations I, essa "imagem ideal" que a posição social dá à consciência e sem a qual a pessoa se sente vazia (3).
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(3) O comentário a respeito da interessante concepção do escritor existencialista é extraído do livro de Luiz Carlos Maciel, Sartre – Vida e obra. De um fragmento acerca de um homem convencido de sua posição social e existencial de médico e major: "Tire o médico, tire o major, resta somente um pouco de água suja que escorre turbilhonando por um esgoto”.
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Aliás, em relação ao "silêncio mais introspectivo", é interessante observar que os últimos quatro capítulos do romance não apresentam epígrafes. Talvez em razão de outro laço entre narrador e protagonista: se, depois do atentado contra Mme de Rênal e da prisão, nós "n'avons plus devant nous le Julien si prolixe qui s'interrogeait autrefois avec d'intarissables subtilités" – como nos diz Henri Martineau no Préface à obra de Stendhal –, pode ser que o narrador represente um sinal de que seus próprios recursos também são "esgotáveis". O "silence d'une hypnose lucide" (Martineau) que engole Julien, toca igualmente a capacidade constitutiva do autor – ou, melhor dizendo, Stendhal nos faz parecer que a toca.
.......... Por outro lado, há essa espécie de deslocamento formal em que reencontramos o narrador. "Il y est toujours plus ou moins en exil", segundo Michel Crouzet em "Révolte et langage", ao se referir à necessidadade de Stendhal de "déployer un surplus de langage" diante da crise da arte. É que "le comédien se déchaîne en lui comme romancier" (Crouzet), ou mesmo, digamos, o metteur en scène narrador-autor/autor-narrador. Poderia – esse destacamento em relação à sua condição de exílio – ser o reflexo dessa posição vívida e vigilante de Julien, jovem homem orgulhoso que não queria "rien laisser au hasard et à l'inspiration du moment" (I-XIV), que "Dans les petites comme dans les grandes choses, il savait nettement ce qu'il devait et voulait faire, et l'exécutait" (II-XX), que, nas palavras de Martineau, tem "cet art de demeurer lucide au sein même de l'action" (4).
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(4) Quanto a essa ligação "teatral" entre autor e personagem, Álvaro Lins chega a afirmar a respeito de Stendhal: “Passou da posição de ator para a de expectador. E não viu mais o mundo senão como um jogo de xadrez.” – e com relação ao protagonista do Rouge: “Julien era um ator, mas que se identificou com o papel a modo de a sua personalidade ficar sendo a da sua existência.” (“Dois Momentos do Romance: o Russo e o Francês”, in O Relógio e o Quadrante, 1964)
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Demeurer lucide: justamente, daí, a necessidade de se espalhar através de máscaras, de diferentes aberturas na relação do que se conta – do ponto de vista do narrador – e do que se vive – do ponto de vista da trajetória do personagem principal. Lucidez/claridade que (traiçoeiramente?) chega a um fim obscuro, a um desmoronamento sem saída, e (obscuramente?) à revelação relativa e dissimulada dessa voz narrativa e autoral que se promène nos territórios do "moi et moi", de vários eus.
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