igrejinhazinha(s)

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elegia

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.............. Morte, vos dedico a vida
.............. À vossa bizarra supremacia
.............. À vossa genealogia imprecisa
.............. Se fordes enigma, descubro
.............. Se fordes mentira
.............. Se fordes o diabo rubro ou o avesso da luz
.............. Sem escuro
.............. Se fordes o esqueleto em capuz ou só o oco do crânio
.............. Vos pego vos pico vos ponho no penico
.............. E não encheis mais o saco
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jul.98
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cheirava a que os heliotrópios da sra. gibbs?

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Era a nossa cidade interiorana, as duas casas calmas, vizinhas uma da outra. Passeávamos e a tarde caía – ou mesmo, quem diria, já poderia ser noite alta.
.......... Apreciando (olor da conversa), você fazia brotar em meio às nossas palavras o comentário acerca dos heliotrópios da senhora Gibbs, “ah, o perfume dos heliotrópios da senhora Gibbs...”, quase isso ou algo assim – o perfume deles persistia, ressaltava, se fazia notar no ar da caminhada.
.......... Ou, pensando melhor, talvez não fosse eu; pode ser que a conversa fosse sua mas com outra companhia e eu era apenas mais um dos mortos que de fora assistia à vivência daquela exalação. Exalação das casas, da vizinhança; da geografia marcada, direcionada pelas nossas intenções; das tábuas das cercas, das cadeiras, do chão.
.......... Você vivia. E vivíamos, por tabela e também; palpitando, se fosse o caso voltando, passando mais uma vez, revisitando os quintais, ou meramente acompanhando daquele nosso lá (daqui), o nosso além. Você ia, vinha, atravessava a cena – isto é, a olorização em si – e em determinada hora expressava espontânea a impressão: “Ah, o perfume dos heliotrópios da senhora Gibbs...”.
.......... Curioso é pensar que... não víamos. Nunca, jamais os vimos. Não?
.......... Eu, por mim, ao menos, não sei dizer até hoje o que um heliotrópio seja ou esboçar o que a fundo um deles poderia ter sido.
.......... De certa forma, como bem sabemos, eles não existiam. Nem nunca existirão.
.......... Mesmo eu, você... (como tão bem também sabemos?) não poderíamos a rigor ter sido nós ali. A vizinhança, as tábuas, o chão; gramado dos quintais, calçada, outras plantas. Tudo era além.
.......... De qualquer modo fazíamos aquilo com tamanho desapego, com tal grau de resolução... que não haveria e não havia mesmo o menor ensejo para conflitos de ordem ´catalogal´, o mais ínfimo embaraço por aquele convívio tácito em que um heliotrópio, lógico, não era mostrado sob os contornos técnicos e entre os fatos precisos de seus dados materiais.
.......... Assim, exatamente por isso – porque não poderíamos nem deveríamos ser o que pensávamos que fôssemos, e porque os heliotrópios não queriam nem precisavam nem um pouco ter a necessidade de ser –, éramos. E, conosco, tudo. Nós dos dois lados, as cercas, as cadeiras de cima ou de baixo, as passagens por entre elas – fossem no escuro do cemitério, no claro dos cafés-da-manhã, no público.
.......... E hoje, reencontrando o termo – heliotrópios – em outros papéis, revejo com nitidez o que não precisava ser. O que, explícito, não exigia demarcação. O que, por um vocábulo, nem parágrafo, nem uma frase sequer, salta de um poço fundo, fere como surpresa, buraco negro cuspindo, amigo há muito perdido, mas ora veja, esteve sempre aqui. Ah, o perfume dos heliotrópios da senhora Gibbs...!

.......... Redivivo revivo, ressuscito e ressinto-o.
.......... O perfume que você bem sabe qual é.
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dez.09
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