nesta velha esquina

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Um dia a gente passa de carro. ...............................................
No outro, a pé. ...............................................
Num outro ainda de bicicleta. ...............................................
Em ainda um outro, já não passa. ...............................................
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maio.06 ...............................................
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lira paulistana (outra parte)

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Megacidade
Conta teus meninos
Canta com teus sinos
A felicidade intensa
Que se perde e encontra em ti
Luz dilui-se
E adensa-se
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Pensa-te
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Caetano Veloso,
"Aboio"
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A bomba explodiu. A bomba é dizer as suas ramas de movimentação, que como raízes em uma cidade perdida ávidas espalham suas fibras e folhas em gavinhas encobrindo a morte das ruínas com sua clorofila cheia de vida da seiva da ocupação. [Para ter roteiro: Homem sai de sua casa e pensa em conhecer a cidade, vai despudoradamente aos seus limites, cansa-se, segue, atinge alguns deles – todos só de imaginar seria criancice – e vê, para seu desdeleite, desdeleite porque não chega a ser decepção pois num fundo de si já intuía a verdade, vê que não sai, não saiu até hoje, não sairá provavelmente jamais. Como muitos dos concidadãos; ama-a, a cidade, escravocratamente, sensível à lealdade filial, gari político operário não importa, é dela, fiel à condição, de apegado, à sua malha, de necessidades, mais dívidas mais compromissos mais hora certa, mais embalos de sábado à noite não só sábado: embalo é de segunda a segunda em um só pulso tac-tic-só de um só relógio, domingo não é o Dia do Senhor, é o do Embalo. O homem gostaria de se espalmar nos limites, como em muros, sentir a superfície, analisar a arquitetura, a escolha da textura à fronteira enfeitada. Não há enfeites. Não há limites, rigorosamente no rigor da concretude. Ele é que não tem um trocado para o pedágio, nem carro, ônibus intermunicipal é mais caro, para qual direção seria o litoral?, não tem mapa. Passagem para vê-la de fora. O homem dá as costas – embora a quaisquer costas haverá muro, o que muda é a distância, e haverá território sugerido pela onipresença da encosta-limite.] Mas para que roteiro? A cidade não pede. A cidade – como o vento, o infinito, a selva, a fonte das fontes... – é uma deusa pagã que existe, eis para si seu verbo. Irredutível; auto-suficiente. Mas falávamos em bomba, uma é capaz de reduzi-la a cacos, pulverizada tralha, veja Berlim, Nagasáqui. Sempre reconstitui-se? Já o outro – Tempo – apaga-as, muitas. Mas não sabemos nunca, de dentro, até quando. Muito me aconchego nos seus passos, de poluição, de ondas, das represas, de rádios, já pensou quanta televisão esgoto telefonemas mesmo agora no ar cochichando? E os olhos de todos que se apagam por um momento diariamente. E os olhos de todos, diários – quantos olhos? Pares. Às vezes pode-se ver num cartaz: cidadão é ser sonâmbulo. Lê-se e continua andando. Muitas insônias; se juntas, dava uma conferência, um samba, fevereiro em festa. Carnaval de preocupações; mais danças – mas tais melodias estão no silêncio relativo da noite de milhas e mais milhas quadradas. A cidade é rápida, mesmo as declarações sobre ela (imensa) não admitem extensões, há de serem enxutas, quem sabe densas se possível pespegadas das suas vastas referências vide os cidadãos: passa ônibus camelô avenidas, viadutos inúmeras placas, postes sons pó – cada cidadão lhes convive mas não necessariamente contempla, ou necessariamente não contempla, o cidadão sitia. A cidade é a bomba. Rede da sua crônica explosão autofágica, e a-las-tra-se. Megaconjunto de intimidades, mega-arrasto dela, desta, rede tão... adjetivo? Nunca adjetivá-la: vala comum da dinâmica, ela o mar e seu próprio barco e água e mãos que puxam. Punhos. Força. Forças mas seria o caso de falar energias, dessas que cindidas se multiplicam em ações e mais ações multiplicadas, nas malhas viárias, na malha fluvial mal andarilha, na malha das intenções desenfreadas que bem e mal, é incrível, se tecem em costuras. Ah malha humana! – também evidência em pleno dia em cartaz? [O homem está voltando para casa, passa por um beco – atalho – e pára um tempo num boteco a modo de restabelecimento de forças.]
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dez.03
para um concurso de contos do Estado de São Paulo,
comemorando os 450 da capital paulista; no máximo 3000 caracteres
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carta ao pai - franz kafka

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Livro esquisito, especial, diferente; livro-carta com o qual o escritor Franz Kafka tentou passar a limpo sua relação marcante com o pai, relação influente e presente em toda a sua vida, relação às vezes sufocante e desesperadora.
.......... Escrita em 1919, quando o autor tinha 36 anos (ele morreria 5 anos depois), a carta não chegou a ser entregue ao pai, Hermann Kafka. Nós os leitores somos quem a recebemos, intrigados, espantados, talvez meio desconfortáveis mas sobretudo com uma irresistível satisfação descarada pelo direito à intromissão em tamanha intimidade de um escritor tão particular.
.......... Para quem gosta da obra de Kafka é um livro fascinante no que pode revelar da pessoa que determinava o artista e do artista determinado pela pessoa – fascinante pela profundidade das duas posições, pela profundidade da mistura segundo a qual ficamos nos questionando sobre a primazia de qual delas, sobre a imensa importância familiar e pessoal não só em Kafka, mas na formação de quaisquer artistas. Por exemplo, veja-se essa passagem na qual o autor se refere à relação com o pai, mas parece um comentário a tantas situações de personagens seus, como o Joseph K. de O Processo: “De certo modo a pessoa já estava punida antes mesmo de saber que tinha feito algo errado”. Sem esquecer a célebre passagem na qual diretamente declara: “Meus escritos tratavam de você, neles eu expunha as queixas que não podia fazer no seu peito”.
.......... Mesmo para quem não goste ou desconheça qualquer livro do escritor tcheco, este talvez seja um texto instigador desse conhecimento, chamando atenção a um escritor brilhante, de grande sensibilidade e capacidade de observação, cujo estilo de longas frases analíticas esmiúça e põe sob uma lente de aumento o funcionamento da mente humana, inclusive e sobretudo a dele mesmo. Escritor que, mesmo em assunto intensamente íntimo, conseguia se colocar a certa distância e, dentro do possível, esclarecer os sentimentos com um olhar artístico (na exata medida em que a arte não deixa de ser científica); artista (cientista) que, na medida do seu possível, procurava ser, incansavelmente, revelador.
.......... No Brasil, a tradução de toda a obra de Kafka, direta do alemão, está a cargo de Modesto Carone, cuja quase totalidade foi publicada pela Companhia das Letras, tendo sido iniciada pela Brasiliense.
.......... Finalizando, cito um trecho do tradutor, também autor do esclarecedor posfácio que encerra o edição brasileira: “Transformado pelo pai em filho deste século, Kafka deu o passo adiante, próprio do artista, e se tornou um poeta (crítico) da alienação. Não é pouco para quem se considerava um fracasso”.
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fev.06
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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a volta do parafuso - henry james

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A Volta do Parafuso é uma novela psicológica e de mistério e vitoriana e de impossível definição única, como costuma acontecer às grandes obras de arte, sempre multifacetadas, ricas de possíveis leituras. Trata-se da relação de duas crianças e uma governanta em uma mansão afastada de Londres às margens de um lago; ocorrem, então, certas “aparições” – ao que consta, de dois ex-empregados, agora mortos, responsáveis pela educação das crianças tempos atrás. As visões muitas vezes acontecem à luz do dia – e a luz do dia em nada tira o espanto, a surpresa, a presença do mistério – e são testemunhadas apenas pela governanta, mas ela passa a crer em outra percepção: a de que as crianças também as testemunham.
.......... A “volta do parafuso” é uma metáfora; é o parafuso da tensão, da emoção, da aflição interna que vai-se apertando e esgarçando os nervos. Aperta e revela: pressão que, a cada rotação dada, age sobre “muitas coisas das camadas mais profundas”, como diz a personagem-narradora, e faz com que as camadas se abram, se deixem entrever ainda que de modo obscuro e subjetivo – subjetivo porque tudo nos chega pelo enfoque único da governanta e porque cada leitor terá uma compreensão muito particular dos efeitos dessa subjetividade.
.......... Henry James nasceu em Nova York em 1842 mas ao morrer, em 1916, havia se tornado cidadão britânico. Seu estilo extremamente “elegante” (não me vem outra palavra) e a guerra educada que sabe cultivar tão bem nos diálogos e nas relações entre os personagens, parece fazer dele um escritor ideal para o refinamento e humor cínico pelos quais os ingleses são famosos. Ou, o que é mais provável, sua literatura soube ressaltar tais características e explorar o comportamento britânico como, acredito, escritor nenhum foi capaz – e explorando-os com tamanha intensidade a ponto do resultado ser interessante a qualquer habitante de qualquer outra cultura.
.......... A novela se assemelha a um conto de Machado de Assis (aliás contemporâneo de Henry James). O conto é "O Espelho" e tanto um como a outra tratam da narração de um personagem dentro da narração de outro personagem (o relato da governanta é a leitura de um outro personagem para alguns poucos interessados em uma reunião). Em ambos retrata-se um ambiente isolado, no interior, afastado dos centros urbanos, e ambos possuem uma atmosfera carregada, introspectiva, solitária mas eletrizante, em que se sonda a compreensão da alma humana e em que se tateia um entendimento mais profundo das situações em que se encontram.
.......... Em determinado momento a personagem declara: “Tudo, porém, permanecia solitário e vazio, enquanto eu continuava imperturbável – se é que se pode chamar de imperturbável uma mulher cuja sensibilidade havia, do modo mais extraordinário, não declinado, porém se aprofundado”. Os escritos de Henry James são esse movimento “se aprofundando”, pelo qual com extrema perícia de cirurgião (do modo mais extraordinário) suas frases de bisturi vão escarafunchando continuamente os caminhos do raciocínio, dos sentimentos, das relações humanas, como se fosse antes um polimento pelo qual a sensibilidade do leitor se aguça.
.......... “Mas as pobres crianças tudo negavam com a força acrescentada da sua ternura e sociabilidade, de cujos abismos cristalinos – tal o lampejo cor de prata de um peixe na torrente – espiava ironicamente a vantagem que tinham sobre mim.” As palavras de Henry James são esse lampejo; ou melhor: atuam de forma que a nossa mente produza lampejos em si mesma, descobrindo a própria luminosidade de que é feita – essa cor de prata do dorso de um peixe que na bagunça da torrente pouco a pouco e cada vez mais vem à tona, vem se revelando à luz.
.......... A edição que li é de 1987, do Clube do Livro, com tradução de Olívia Krahenbuhl; existem outras, mais recentes e de outros tradutores.
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fev.06
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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a sombra do vento - carlos ruiz zafón

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A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, é a história de um jovem espanhol que nos anos seguintes à Guerra Civil e à Segunda Grande Guerra envolve-se com um misterioso livro e seu autor mais misterioso ainda; ao querer saciar sua curiosidade, ele se embrenha e provoca acontecimentos que cada vez mais o enredarão na trama – e a atenção do leitor vai junto, absorvida pelas dúvidas e pelos novos personagens com que se deparam. Descrever a trama ou comentar os acontecimentos seria ir contra a uma das melhores qualidades do livro, que é a de surpreender com suas revelações, suas camadas de mistério pouco a pouco relevadas. Como justificativa disso pode-se até citar a fala de uma das personagens: “Eu poderia tentar contar a história, mas seria como descrever uma catedral dizendo que é um montão de pedras que terminam em ponta”.
.......... Apesar do tratamento realista e da ambientação numa cidade real em um tempo historicamente real, há lugares quase mágicos ou de climas fantásticos, como o fascinante Cemitério dos Livros Esquecidos e o sinistro casarão da avenida del Tibidabo. Os personagens se apresentam em características marcantes e traços fortes, alguns sendo mesmo arquetípicos, como o pai do protagonista, que é “o Pai”, e o terrível vilão que encarna “o Mal”. Mas quaisquer estereótipos ou tons de fantasia não parecem deslocados no contexto e não prejudicam passagens realmente tocantes que nos arrebatam pela franqueza sensível a que de repente chegam os personagens em suas relações.
.......... Chama atenção a quantidade de brumas, neblinas, névoas, vapores espalhados por toda a história, nos ambientes fechados, nas fumaças dos cigarros, na praia, na cidade anoitecida ou amanhecendo. O enredo, com sua rede de incógnitas e intrigantes obstáculos, nos envolve também como uma neblina, um vapor inexorável (para usar um dos adjetivos de que o autor faz uso), apesar da narrativa nos envolver justamente ao contrário, por sua clareza e fluência.
.......... A capa do livro é uma das mais belas que se encontram hoje pelas livrarias: uma foto preto-e-branca de um homem e um garoto, talvez pai e filho, à beira de uma esquina de um extenso quarteirão, o primeiro plano à esquerda expondo um poste de luz apagada (não se sabe se é de manhã e foi há pouco apagada ou se anoitece e será logo acesa) – e o que não podia faltar: a neblina; uma neblina que permeará todo o livro, uma neblina que quase encobre a rua larga, que quase engole o prédio do outro lado da via; uma neblina que na contracapa (em que aparece o mesmo lugar mas sem pai nem filho) cresce, se adensa, só não envolvendo o poste apagado. Não é à toa que no título ocorra a palavra sombra e no de outro livro importante, que aparecerá no fim da história, uma de suas palavras seja brumas. É como se toda a trajetória do protagonista fosse o mergulho e a tentativa de descortinamento num espesso poço de névoa do qual talvez seja impossível sair.
.......... É, também, um livro sobre livros. Como Fahrenheit 451 de Ray Bradbury ou um dos grandes contos de A Morte do Leão de Henry James, homenageia a interferência especial e única que a literatura pode proporcionar a uma pessoa que se transforma em “leitor”. Como diz a personagem Clara: “Aquele livro me ensinou que ler poderia me fazer viver mais e mais intensamente, que poderia devolver-me a visão que eu tinha perdido”. Ou como diz Julián: “Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro”.
.......... A edição brasileira é da editora Objetiva e a tradução é de Marcia Ribas.
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jan.06
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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sete anos no tibet - heinrich harrer

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Em Sete Anos no Tibet o autor declara que “como não tenho nenhuma experiência como escritor, me contentarei em descrever os fatos” – e é isso o que faz; o que resulta, na verdade, em uma narrativa nada brilhante, nada especial ou encantadora, ao contrário de outros livros também não-ficcionais nos quais os autores conseguem aliar à atração dos acontecimentos uma maneira subjetiva e interessante de narrar. Porém os fatos... os fatos relatados nesse livro de Heinrich Harrer são por si encantadores, especiais, interessantes; vêm do encanto, do interesse e do fascínio que emanam de todo o Tibet e de sua religião, sua geografia, sua história.
.......... Essa seqüência de fatos trata da vida do alpinista austríaco Heinrich Harrer durante os sete anos em que morou no Tibet, de 1944 a 1951, sobretudo na capital do país, Lhasa, e sua difícil chegada até a cidade ao lado de seu amigo Peter Aufschnaiter. Curiosamente, esta mesma frieza em apenas “relatar fatos”, a mim me deu a sensação de que os acontecimentos transcorriam não pelo acaso ou por serem simples sucessões factuais: parecia demonstrar uma razão forte, misteriosa, como se houvesse uma mão oculta abrindo espaço e guiando o viajante até Lhasa, apesar de todas as dificuldades e obstáculos – como na passagem em que na desolação do caminho acontece de se depararem com uma inesperada e salvadora caravana; é o próprio autor que comenta: “Acreditamos que esse encontro fora ditado pela Providência”.
.......... Praticamente o livro se divide em dois: a primeira metade é sobre a dura trajetória até conseguirem chegar a Lhasa; a segunda se passa na cidade e é como uma contraposição emocional à primeira. Antes de Lhasa é a fome, o frio, o desconforto, as manobras para se conseguir dos bönpos (autoridades) a permissão para seguir em frente, a dificuldade de se orientarem em áreas quase não mapeadas, a presença perturbadora dos khampas (assaltantes violentos); depois, em Lhasa, é a sucessão de descobertas culturais a cada minuto, a hospitalidade surpreendente, a cortesia, a curiosidade dos habitantes, as exuberantes festas de Ano Novo, as cerimônias diversas, as magníficas esculturas de manteiga, o período de empinar pipas, o bom humor. A trajetória dos europeus assim dividida chega a parecer uma simbologia a qualquer desafio grande pelo qual se deve passar antes do momento de superação, de usufruto, de descoberta – descoberta e usufruto que no caso são Lhasa ou se encontram nela. Descoberta e usufruto que estão, especialmente, na presença do Dalai Lama e no privilégio do seu convívio – o autor aos poucos se aproxima de Sua Santidade e passa a ter o direito de compartilhar de sua presença regularmente, numa relação mútua de professor-aluno. Aliás, a primeira aparição do Dalai Lama consiste em uma das passagens mais tocantes do livro, em que a narrativa chega mesmo a parecer menos fria, com o narrador dizendo terem todos se sentido “despertados de um sono hipnótico” ao final da passagem do cortejo no qual o soberano estava.
.......... O livro e a permanência de Heinrich Harrer no Tibet chegam ao fim com a invasão da China comunista. Essa brutal dominação permanece até os dias atuais desse nosso século XXI, tendo, como diz o autor, “mutilado a cultura” do país, mutilado todo o país e suas pessoas, pessoas de um país pacífico que recebeu “tão pouca solidariedade de um mundo indiferente”. Afinal, como encerra Heinrich Harrer: “Apesar do apoio popular à liberdade do Tibet estar crescendo em todo o mundo, na maioria dos países, os direitos humanos são preteridos pelos objetivos materialistas”.
.......... O imponente palácio Potala, as fontes termais, as infindas peregrinações e seus peregrinos, as pedras chatas com preces gravadas e os estandartes de preces coloridos, as punições severas contra os criminosos, as tempestades de areia, a tsampa feita de grãos torrados de cevada, a língua, a escrita, os papéis... – a narrativa de Heinrich Harrer pode ser meio “desencantada”, mas o encanto se basta pela realidade descrita e pela imaginação que ela provoca, as paisagens, situações, pessoas, as relações especialíssimas que evoca.
.......... A edição brasileira é uma publicação da L&PM e em 1997 foi realizado um filme baseado no livro, com Brad Pitt e o excelente ator David Tewlis, dirigido por Jean-Jacques Annaud.
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ago.05
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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memórias de um primata - robert m. sapolsky

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Memórias de um Primata é um livro surpreendente pelo bom humor e vivacidade com que retrata e investiga uma parte da África Oriental, esse continente tão pouco conhecido pelo resto do mundo, cheio de misérias e de riquezas culturais e naturais, extremamente marcado pela exploração dos homens brancos do chamado Primeiro Mundo.
.......... Surpreendente, ainda, por relembrar que os Estados Unidos não são formados apenas por eleitores de Bush, mas também por seres humanos inteligentes e sensíveis ao resto do mundo, às relações planetárias e à Natureza, como é o caso do autor, Robert Sapolsky, um professor de biologia e neurologia nova-iorquino.
.......... O livro foi publicado pela Companhia das Letras em 2004 e a tradução é de Roberto Sassi. A bela capa é por conta de Silvia Ribeiro, sendo quase toda preta, apenas com as indicações de título, autor e editora, e a foto de uma cabeça colorida de mandril com a bocarra aberta.
.......... Trata-se de várias passagens, casos, reflexões, vivências, de um cientista norte-americano, Robert M. Sapolsky, em decorrência de suas viagens ao Quênia, no leste da África, para estudar os babuínos.
.......... Há passagens hilariantes, outras impressionantes, muitas hilariantes e impressionantes, todas contadas de uma maneira pessoal e vívida, ao mesmo tempo lúcida e objetiva.
.......... Um dos capítulos para mim mais marcantes chama-se "Ensinando mapa aos velhos", no qual o autor relata a sua relação com um velho guerreiro massai e, como indica o título, a certa altura mostra a ele um mapa e procura explicar o sentido daquilo. Disso desponta um quadro quase poético – quase, não: poético mesmo – em que, através dessa comunicação entre os dois homens de origens tão distintas, assiste-se ao contato de diferentes culturas, diferentes mundos, diferentes forças econômicas, diferentes tudo e ainda assim se comunicando, estabelecendo um entendimento. Outro capítulo incrível é o "Sudão"; este, por sua vez, é de uma poética de pesadelo ou de uma graça nervosíssima, em que o autor relata sua viagem por aquele país e as situações são tão bizarro-hilariantes que chegam a ser surrealistas, eletrizantes de realidade.
.......... Mas o que conduz todo o livro é a relação do autor com os babuínos, especialmente os do bando que ele estuda regularmente, e tal relação vai contagiando o leitor de modo que nós também nos sentimos mais e mais próximos dos bichos ao passar das páginas – próximos ao imaginá-los, ao reconhecê-los (o autor nomeia cada um deles durante a pesquisa, a maioria com nomes bíblicos), próximos ao admirarmos suas sutilezas e riqueza de comportamento, o intrincado convívio da vida selvagem, o que a nós, gente urbana, mais parece fazer parte de outro planeta. E tal relação chega ao ápice no capítulo final, um ápice em muitos aspectos desagradável, no qual mais uma vez revela-se os meandros da corrupção da África e a crueldade em relação aos animais é manifesta de forma bem cruel (até porque, a essa altura você já está bem envolvido com os bichos), porém com um final belíssimo: no qual é como se houvesse uma espécie de redenção ou, antes, um encontro simbólico de mútua compreensão entre o autor e um velho babuíno.
.......... O livro transmite o vigor e a alegria de fortes experiências pessoais compartilhadas, ainda que muitas delas sejam dolorosas e traumáticas, muitas vezes revoltantes, mas fascinantes pela maneira genuína com que são expostas, com muito bom humor e sensibilidade.
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jul.05
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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carlito em chamas

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...... Sinto saudade do quadro de um vaso com flores que eu não pintei
...... À la Millet, à la os holandeses, à la a técnica
...... – a récita do sentimento muito anterior a ela
...... Sinto saudade do meu coração de carne
...... E as veias abundantes irrigando sangue como uma estrela
...... – a constelação coletiva da nossa reverência
...... Saudade de quando estive mais
...... De quando bastava um móbile ou o dinheiro do lanche
...... Ou de quando o aquário da sala era a paz
...... Saudade de quando a cabra cega via pela venda
...... Vale dizer a ravina escorria do vale
...... Ou o lábio da gente resistia ao frio e à seca
...... O apelo do tórax exigia a vazante
...... Ou a maré avante como um rio de Marte
...... Saudade da água do córrego dizendo à Ofélia: nade
...... Ou a água do córrego, sem Ofélia, em toda parte
...... Saudade de quando vi o circo e me extasiei com a verdade
...... Saudade do campo, a geada rangendo a felicidade, a purificando
...... E a fome dos nossos ossos sentada no prado como um estandarte
...... Sinto saudade não do presente, pois não dá tempo
...... O palhaço desbota enquanto a fibra da tenda cede (e arde)
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jul.98
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escravos de jó

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O animal avestruz disse ao animal papagaio, somos parecidos, o animal papagaio respondeu sim e disse ao animal pulga somos amigas companheira?, o animal pulga pulou arrogante em seguida perguntando ao animal búfalo, amarrotamos?, o animal búfalo com todo aquele ser que é animal búfalo amarrou o animal pulga num galho de amoreira azul e, correndo, dirigiu-se ao animal invertebrado e perguntou, você deseja alguma coisa?, o animal invertebrado disse não mas imediatamente vertebrou-se, e com seu osso mais alvo expôs um golpe largo no grosso cocuruto do animal búfalo, – o búfalo morreu –, o animal ex-invertebrado perguntou ao animal osso novíssimo em folha e já tão útil qual que era a dele, pra variar o animal osso vingou-se de seu nascimento repetindo a dose da morte do bronco búfalo com sua segunda e idêntica cacetada no encéfalo-sistema do neovertebrado, – morreu também –, o animal osso, contente, perguntou ao animal chinês, o mosquito, por que aquele seu bico que obviamente picava e comia sangue era tão bonito, mas o animal mosquito não viu nem ouviu o animalosso pronunciar-se, portanto sai assim da história tão velozmente quanto veio, o animal osso pergunta agora ao animal cavalo-árabe que pernas eram aquelas tão embrulhadas em músculo?, o animal cavalo-árabe pára, seus infindos músculos repousam, agora o animal osso pergunta à ponte, rui-não-rui rui-não-rui rui-não-rui?, a animoa ponte padece de solidão, e nada diz, o animalosso dirige-se ao animal simpaticíssimo orangotango, ou seria gorila?, e pergunta qual a cor (sinceramente, aqui entre nós...) qual a cor mais próxima da nossa alegria?, o animal símio responde, segue seu caminho, seu caminho sinuoso, obstaculoso mas lindo que só, e, logo quando o encontra, questiona ao animal jegue (um jegue bege) qual o rumo correto para um dos polos?, animal jegue responde, é só seguir a claridade, obrigado, até logo, animal símio, tropeçando na grande raiz de uma amoreira azul que não notara nunca, vê, percebe sob a sombra, a descansar, o animal baleia, e, desta forma tão bem grada, questiona baleia, você gosta de nozes frescas assim como eu gosto também?, o animal baleia respondeu aquele sorriso tão lindo..., o animal baleia encontrou daí o animal vento e o animal montanha, mas nada de relatável acontece, encontrou ainda o animal seriema, que não tinha nada, nada-nada a ver com a história e estava em paz, encontrou ainda o animal avestruz (esse aliás não encontrou, esse passou ao largo, próximo, mas nem se viram), e encontrou ainda o animal homem. O animal homem não respondeu coisa alguma pois sem nenhuma má intenção não deu tempo de ser feita pergunta, só perguntou ele mesmo (como único impulso possível recebido do curto instante) é o fim da história?, a Baleia ficou com aqueles seus olhos extensos, embotados, emocionada, levitada no tempo.
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dez.93
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bailarina africano

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.......... Esta bailarina clássica é um negro africano,
.......... ela é meio gordota, de olhos esbugalhados, cabelos em
chama.

.......... É engraçada; no seu pas de deux espantado
.......... expõe o hilário cotidiano mas também a miséria absoluta,
.......... expõe o grande humor trágico do mundo.
.......... Parece ter uma só perna
.......... mas talvez sejam as duas
.......... muito sobrepostas, equilibrando-se.
.......... É minha amiga, é meu amigo.
.......... Carrego-a para todo lado, levo-o,
.......... eu e ela e ele nos habitamos,
.......... ou antes é ele, a bailarina africano,
.......... que me guia como um compêndio
.......... no qual vai acrescentando as impressões do conjunto.
.......... Ia dizer do palco, ia dizer do tablado.
.......... Mas não é só neles que ele é apresentável:
.......... o espaço cênico para a bailarina africano extravasa-se
.......... e ficamos à espreita, à expectativa

.......... de saber se os holofotes são mesmo luminosos
.......... ou apenas de gesso com veios fictícios
.......... feitos da graxa que escorre do teto
.......... no entanto contendo um brilho translúcido
.......... de cera recém-chegada, derretida há poucos segundos.
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abr.07
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caminho

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Sigo o cachorro preto e sarnento no longo corredor de lajotas opacas que atravessa a Universidade Nacional. Ninguém vê, mas me fundo ao cachorro de ancas esquálidas, de língua mais opaca que as lajotas, de sarnas rosadas que tingem seu preto mas que não são falhas: porque é exato assim. Assim eu sinto cócegas, sinto minhas quatro patas plantadas a cada pouso das passadas, sinto que atrás de mim vem outro ser, iludido de que, ao me ser, sente minhas mágoas enquanto minha língua pálida aponta o caminho por onde passa o futuro caminho de suas passadas e, na verdade, é como se lambesse antecipada as lajotas que ele pisará ainda na ilusão de ser eu. À margem, atrás da vidraça, um vigia observa. Vê um homem, vê um cão, um homem; sente que houve uma ultrapassagem sub-reptícia. Ou seria a saudade de ver-se na lembrança quando em corredores de lajotas sentia-se seguindo entre as fluências de idas e idas?
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dez.07
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