carlito em chamas

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...... Sinto saudade do quadro de um vaso com flores que eu não pintei
...... À la Millet, à la os holandeses, à la a técnica
...... – a récita do sentimento muito anterior a ela
...... Sinto saudade do meu coração de carne
...... E as veias abundantes irrigando sangue como uma estrela
...... – a constelação coletiva da nossa reverência
...... Saudade de quando estive mais
...... De quando bastava um móbile ou o dinheiro do lanche
...... Ou de quando o aquário da sala era a paz
...... Saudade de quando a cabra cega via pela venda
...... Vale dizer a ravina escorria do vale
...... Ou o lábio da gente resistia ao frio e à seca
...... O apelo do tórax exigia a vazante
...... Ou a maré avante como um rio de Marte
...... Saudade da água do córrego dizendo à Ofélia: nade
...... Ou a água do córrego, sem Ofélia, em toda parte
...... Saudade de quando vi o circo e me extasiei com a verdade
...... Saudade do campo, a geada rangendo a felicidade, a purificando
...... E a fome dos nossos ossos sentada no prado como um estandarte
...... Sinto saudade não do presente, pois não dá tempo
...... O palhaço desbota enquanto a fibra da tenda cede (e arde)
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jul.98
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Um comentário:

Flávia Ferraz disse...

"Saudade das risadas depois de abrir de um jeito bem estabanado uma simples romã".
Beijos