carta ao pai - franz kafka

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Livro esquisito, especial, diferente; livro-carta com o qual o escritor Franz Kafka tentou passar a limpo sua relação marcante com o pai, relação influente e presente em toda a sua vida, relação às vezes sufocante e desesperadora.
.......... Escrita em 1919, quando o autor tinha 36 anos (ele morreria 5 anos depois), a carta não chegou a ser entregue ao pai, Hermann Kafka. Nós os leitores somos quem a recebemos, intrigados, espantados, talvez meio desconfortáveis mas sobretudo com uma irresistível satisfação descarada pelo direito à intromissão em tamanha intimidade de um escritor tão particular.
.......... Para quem gosta da obra de Kafka é um livro fascinante no que pode revelar da pessoa que determinava o artista e do artista determinado pela pessoa – fascinante pela profundidade das duas posições, pela profundidade da mistura segundo a qual ficamos nos questionando sobre a primazia de qual delas, sobre a imensa importância familiar e pessoal não só em Kafka, mas na formação de quaisquer artistas. Por exemplo, veja-se essa passagem na qual o autor se refere à relação com o pai, mas parece um comentário a tantas situações de personagens seus, como o Joseph K. de O Processo: “De certo modo a pessoa já estava punida antes mesmo de saber que tinha feito algo errado”. Sem esquecer a célebre passagem na qual diretamente declara: “Meus escritos tratavam de você, neles eu expunha as queixas que não podia fazer no seu peito”.
.......... Mesmo para quem não goste ou desconheça qualquer livro do escritor tcheco, este talvez seja um texto instigador desse conhecimento, chamando atenção a um escritor brilhante, de grande sensibilidade e capacidade de observação, cujo estilo de longas frases analíticas esmiúça e põe sob uma lente de aumento o funcionamento da mente humana, inclusive e sobretudo a dele mesmo. Escritor que, mesmo em assunto intensamente íntimo, conseguia se colocar a certa distância e, dentro do possível, esclarecer os sentimentos com um olhar artístico (na exata medida em que a arte não deixa de ser científica); artista (cientista) que, na medida do seu possível, procurava ser, incansavelmente, revelador.
.......... No Brasil, a tradução de toda a obra de Kafka, direta do alemão, está a cargo de Modesto Carone, cuja quase totalidade foi publicada pela Companhia das Letras, tendo sido iniciada pela Brasiliense.
.......... Finalizando, cito um trecho do tradutor, também autor do esclarecedor posfácio que encerra o edição brasileira: “Transformado pelo pai em filho deste século, Kafka deu o passo adiante, próprio do artista, e se tornou um poeta (crítico) da alienação. Não é pouco para quem se considerava um fracasso”.
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fev.06
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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