lira paulistana (outra parte)

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Megacidade
Conta teus meninos
Canta com teus sinos
A felicidade intensa
Que se perde e encontra em ti
Luz dilui-se
E adensa-se
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Pensa-te
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Caetano Veloso,
"Aboio"
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A bomba explodiu. A bomba é dizer as suas ramas de movimentação, que como raízes em uma cidade perdida ávidas espalham suas fibras e folhas em gavinhas encobrindo a morte das ruínas com sua clorofila cheia de vida da seiva da ocupação. [Para ter roteiro: Homem sai de sua casa e pensa em conhecer a cidade, vai despudoradamente aos seus limites, cansa-se, segue, atinge alguns deles – todos só de imaginar seria criancice – e vê, para seu desdeleite, desdeleite porque não chega a ser decepção pois num fundo de si já intuía a verdade, vê que não sai, não saiu até hoje, não sairá provavelmente jamais. Como muitos dos concidadãos; ama-a, a cidade, escravocratamente, sensível à lealdade filial, gari político operário não importa, é dela, fiel à condição, de apegado, à sua malha, de necessidades, mais dívidas mais compromissos mais hora certa, mais embalos de sábado à noite não só sábado: embalo é de segunda a segunda em um só pulso tac-tic-só de um só relógio, domingo não é o Dia do Senhor, é o do Embalo. O homem gostaria de se espalmar nos limites, como em muros, sentir a superfície, analisar a arquitetura, a escolha da textura à fronteira enfeitada. Não há enfeites. Não há limites, rigorosamente no rigor da concretude. Ele é que não tem um trocado para o pedágio, nem carro, ônibus intermunicipal é mais caro, para qual direção seria o litoral?, não tem mapa. Passagem para vê-la de fora. O homem dá as costas – embora a quaisquer costas haverá muro, o que muda é a distância, e haverá território sugerido pela onipresença da encosta-limite.] Mas para que roteiro? A cidade não pede. A cidade – como o vento, o infinito, a selva, a fonte das fontes... – é uma deusa pagã que existe, eis para si seu verbo. Irredutível; auto-suficiente. Mas falávamos em bomba, uma é capaz de reduzi-la a cacos, pulverizada tralha, veja Berlim, Nagasáqui. Sempre reconstitui-se? Já o outro – Tempo – apaga-as, muitas. Mas não sabemos nunca, de dentro, até quando. Muito me aconchego nos seus passos, de poluição, de ondas, das represas, de rádios, já pensou quanta televisão esgoto telefonemas mesmo agora no ar cochichando? E os olhos de todos que se apagam por um momento diariamente. E os olhos de todos, diários – quantos olhos? Pares. Às vezes pode-se ver num cartaz: cidadão é ser sonâmbulo. Lê-se e continua andando. Muitas insônias; se juntas, dava uma conferência, um samba, fevereiro em festa. Carnaval de preocupações; mais danças – mas tais melodias estão no silêncio relativo da noite de milhas e mais milhas quadradas. A cidade é rápida, mesmo as declarações sobre ela (imensa) não admitem extensões, há de serem enxutas, quem sabe densas se possível pespegadas das suas vastas referências vide os cidadãos: passa ônibus camelô avenidas, viadutos inúmeras placas, postes sons pó – cada cidadão lhes convive mas não necessariamente contempla, ou necessariamente não contempla, o cidadão sitia. A cidade é a bomba. Rede da sua crônica explosão autofágica, e a-las-tra-se. Megaconjunto de intimidades, mega-arrasto dela, desta, rede tão... adjetivo? Nunca adjetivá-la: vala comum da dinâmica, ela o mar e seu próprio barco e água e mãos que puxam. Punhos. Força. Forças mas seria o caso de falar energias, dessas que cindidas se multiplicam em ações e mais ações multiplicadas, nas malhas viárias, na malha fluvial mal andarilha, na malha das intenções desenfreadas que bem e mal, é incrível, se tecem em costuras. Ah malha humana! – também evidência em pleno dia em cartaz? [O homem está voltando para casa, passa por um beco – atalho – e pára um tempo num boteco a modo de restabelecimento de forças.]
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dez.03
para um concurso de contos do Estado de São Paulo,
comemorando os 450 da capital paulista; no máximo 3000 caracteres
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