memórias de um primata - robert m. sapolsky

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Memórias de um Primata é um livro surpreendente pelo bom humor e vivacidade com que retrata e investiga uma parte da África Oriental, esse continente tão pouco conhecido pelo resto do mundo, cheio de misérias e de riquezas culturais e naturais, extremamente marcado pela exploração dos homens brancos do chamado Primeiro Mundo.
.......... Surpreendente, ainda, por relembrar que os Estados Unidos não são formados apenas por eleitores de Bush, mas também por seres humanos inteligentes e sensíveis ao resto do mundo, às relações planetárias e à Natureza, como é o caso do autor, Robert Sapolsky, um professor de biologia e neurologia nova-iorquino.
.......... O livro foi publicado pela Companhia das Letras em 2004 e a tradução é de Roberto Sassi. A bela capa é por conta de Silvia Ribeiro, sendo quase toda preta, apenas com as indicações de título, autor e editora, e a foto de uma cabeça colorida de mandril com a bocarra aberta.
.......... Trata-se de várias passagens, casos, reflexões, vivências, de um cientista norte-americano, Robert M. Sapolsky, em decorrência de suas viagens ao Quênia, no leste da África, para estudar os babuínos.
.......... Há passagens hilariantes, outras impressionantes, muitas hilariantes e impressionantes, todas contadas de uma maneira pessoal e vívida, ao mesmo tempo lúcida e objetiva.
.......... Um dos capítulos para mim mais marcantes chama-se "Ensinando mapa aos velhos", no qual o autor relata a sua relação com um velho guerreiro massai e, como indica o título, a certa altura mostra a ele um mapa e procura explicar o sentido daquilo. Disso desponta um quadro quase poético – quase, não: poético mesmo – em que, através dessa comunicação entre os dois homens de origens tão distintas, assiste-se ao contato de diferentes culturas, diferentes mundos, diferentes forças econômicas, diferentes tudo e ainda assim se comunicando, estabelecendo um entendimento. Outro capítulo incrível é o "Sudão"; este, por sua vez, é de uma poética de pesadelo ou de uma graça nervosíssima, em que o autor relata sua viagem por aquele país e as situações são tão bizarro-hilariantes que chegam a ser surrealistas, eletrizantes de realidade.
.......... Mas o que conduz todo o livro é a relação do autor com os babuínos, especialmente os do bando que ele estuda regularmente, e tal relação vai contagiando o leitor de modo que nós também nos sentimos mais e mais próximos dos bichos ao passar das páginas – próximos ao imaginá-los, ao reconhecê-los (o autor nomeia cada um deles durante a pesquisa, a maioria com nomes bíblicos), próximos ao admirarmos suas sutilezas e riqueza de comportamento, o intrincado convívio da vida selvagem, o que a nós, gente urbana, mais parece fazer parte de outro planeta. E tal relação chega ao ápice no capítulo final, um ápice em muitos aspectos desagradável, no qual mais uma vez revela-se os meandros da corrupção da África e a crueldade em relação aos animais é manifesta de forma bem cruel (até porque, a essa altura você já está bem envolvido com os bichos), porém com um final belíssimo: no qual é como se houvesse uma espécie de redenção ou, antes, um encontro simbólico de mútua compreensão entre o autor e um velho babuíno.
.......... O livro transmite o vigor e a alegria de fortes experiências pessoais compartilhadas, ainda que muitas delas sejam dolorosas e traumáticas, muitas vezes revoltantes, mas fascinantes pela maneira genuína com que são expostas, com muito bom humor e sensibilidade.
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jul.05
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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