sete anos no tibet - heinrich harrer

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Em Sete Anos no Tibet o autor declara que “como não tenho nenhuma experiência como escritor, me contentarei em descrever os fatos” – e é isso o que faz; o que resulta, na verdade, em uma narrativa nada brilhante, nada especial ou encantadora, ao contrário de outros livros também não-ficcionais nos quais os autores conseguem aliar à atração dos acontecimentos uma maneira subjetiva e interessante de narrar. Porém os fatos... os fatos relatados nesse livro de Heinrich Harrer são por si encantadores, especiais, interessantes; vêm do encanto, do interesse e do fascínio que emanam de todo o Tibet e de sua religião, sua geografia, sua história.
.......... Essa seqüência de fatos trata da vida do alpinista austríaco Heinrich Harrer durante os sete anos em que morou no Tibet, de 1944 a 1951, sobretudo na capital do país, Lhasa, e sua difícil chegada até a cidade ao lado de seu amigo Peter Aufschnaiter. Curiosamente, esta mesma frieza em apenas “relatar fatos”, a mim me deu a sensação de que os acontecimentos transcorriam não pelo acaso ou por serem simples sucessões factuais: parecia demonstrar uma razão forte, misteriosa, como se houvesse uma mão oculta abrindo espaço e guiando o viajante até Lhasa, apesar de todas as dificuldades e obstáculos – como na passagem em que na desolação do caminho acontece de se depararem com uma inesperada e salvadora caravana; é o próprio autor que comenta: “Acreditamos que esse encontro fora ditado pela Providência”.
.......... Praticamente o livro se divide em dois: a primeira metade é sobre a dura trajetória até conseguirem chegar a Lhasa; a segunda se passa na cidade e é como uma contraposição emocional à primeira. Antes de Lhasa é a fome, o frio, o desconforto, as manobras para se conseguir dos bönpos (autoridades) a permissão para seguir em frente, a dificuldade de se orientarem em áreas quase não mapeadas, a presença perturbadora dos khampas (assaltantes violentos); depois, em Lhasa, é a sucessão de descobertas culturais a cada minuto, a hospitalidade surpreendente, a cortesia, a curiosidade dos habitantes, as exuberantes festas de Ano Novo, as cerimônias diversas, as magníficas esculturas de manteiga, o período de empinar pipas, o bom humor. A trajetória dos europeus assim dividida chega a parecer uma simbologia a qualquer desafio grande pelo qual se deve passar antes do momento de superação, de usufruto, de descoberta – descoberta e usufruto que no caso são Lhasa ou se encontram nela. Descoberta e usufruto que estão, especialmente, na presença do Dalai Lama e no privilégio do seu convívio – o autor aos poucos se aproxima de Sua Santidade e passa a ter o direito de compartilhar de sua presença regularmente, numa relação mútua de professor-aluno. Aliás, a primeira aparição do Dalai Lama consiste em uma das passagens mais tocantes do livro, em que a narrativa chega mesmo a parecer menos fria, com o narrador dizendo terem todos se sentido “despertados de um sono hipnótico” ao final da passagem do cortejo no qual o soberano estava.
.......... O livro e a permanência de Heinrich Harrer no Tibet chegam ao fim com a invasão da China comunista. Essa brutal dominação permanece até os dias atuais desse nosso século XXI, tendo, como diz o autor, “mutilado a cultura” do país, mutilado todo o país e suas pessoas, pessoas de um país pacífico que recebeu “tão pouca solidariedade de um mundo indiferente”. Afinal, como encerra Heinrich Harrer: “Apesar do apoio popular à liberdade do Tibet estar crescendo em todo o mundo, na maioria dos países, os direitos humanos são preteridos pelos objetivos materialistas”.
.......... O imponente palácio Potala, as fontes termais, as infindas peregrinações e seus peregrinos, as pedras chatas com preces gravadas e os estandartes de preces coloridos, as punições severas contra os criminosos, as tempestades de areia, a tsampa feita de grãos torrados de cevada, a língua, a escrita, os papéis... – a narrativa de Heinrich Harrer pode ser meio “desencantada”, mas o encanto se basta pela realidade descrita e pela imaginação que ela provoca, as paisagens, situações, pessoas, as relações especialíssimas que evoca.
.......... A edição brasileira é uma publicação da L&PM e em 1997 foi realizado um filme baseado no livro, com Brad Pitt e o excelente ator David Tewlis, dirigido por Jean-Jacques Annaud.
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ago.05
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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