a sombra do vento - carlos ruiz zafón

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A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, é a história de um jovem espanhol que nos anos seguintes à Guerra Civil e à Segunda Grande Guerra envolve-se com um misterioso livro e seu autor mais misterioso ainda; ao querer saciar sua curiosidade, ele se embrenha e provoca acontecimentos que cada vez mais o enredarão na trama – e a atenção do leitor vai junto, absorvida pelas dúvidas e pelos novos personagens com que se deparam. Descrever a trama ou comentar os acontecimentos seria ir contra a uma das melhores qualidades do livro, que é a de surpreender com suas revelações, suas camadas de mistério pouco a pouco relevadas. Como justificativa disso pode-se até citar a fala de uma das personagens: “Eu poderia tentar contar a história, mas seria como descrever uma catedral dizendo que é um montão de pedras que terminam em ponta”.
.......... Apesar do tratamento realista e da ambientação numa cidade real em um tempo historicamente real, há lugares quase mágicos ou de climas fantásticos, como o fascinante Cemitério dos Livros Esquecidos e o sinistro casarão da avenida del Tibidabo. Os personagens se apresentam em características marcantes e traços fortes, alguns sendo mesmo arquetípicos, como o pai do protagonista, que é “o Pai”, e o terrível vilão que encarna “o Mal”. Mas quaisquer estereótipos ou tons de fantasia não parecem deslocados no contexto e não prejudicam passagens realmente tocantes que nos arrebatam pela franqueza sensível a que de repente chegam os personagens em suas relações.
.......... Chama atenção a quantidade de brumas, neblinas, névoas, vapores espalhados por toda a história, nos ambientes fechados, nas fumaças dos cigarros, na praia, na cidade anoitecida ou amanhecendo. O enredo, com sua rede de incógnitas e intrigantes obstáculos, nos envolve também como uma neblina, um vapor inexorável (para usar um dos adjetivos de que o autor faz uso), apesar da narrativa nos envolver justamente ao contrário, por sua clareza e fluência.
.......... A capa do livro é uma das mais belas que se encontram hoje pelas livrarias: uma foto preto-e-branca de um homem e um garoto, talvez pai e filho, à beira de uma esquina de um extenso quarteirão, o primeiro plano à esquerda expondo um poste de luz apagada (não se sabe se é de manhã e foi há pouco apagada ou se anoitece e será logo acesa) – e o que não podia faltar: a neblina; uma neblina que permeará todo o livro, uma neblina que quase encobre a rua larga, que quase engole o prédio do outro lado da via; uma neblina que na contracapa (em que aparece o mesmo lugar mas sem pai nem filho) cresce, se adensa, só não envolvendo o poste apagado. Não é à toa que no título ocorra a palavra sombra e no de outro livro importante, que aparecerá no fim da história, uma de suas palavras seja brumas. É como se toda a trajetória do protagonista fosse o mergulho e a tentativa de descortinamento num espesso poço de névoa do qual talvez seja impossível sair.
.......... É, também, um livro sobre livros. Como Fahrenheit 451 de Ray Bradbury ou um dos grandes contos de A Morte do Leão de Henry James, homenageia a interferência especial e única que a literatura pode proporcionar a uma pessoa que se transforma em “leitor”. Como diz a personagem Clara: “Aquele livro me ensinou que ler poderia me fazer viver mais e mais intensamente, que poderia devolver-me a visão que eu tinha perdido”. Ou como diz Julián: “Os livros são espelhos: neles só se vê o que possuímos dentro”.
.......... A edição brasileira é da editora Objetiva e a tradução é de Marcia Ribas.
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jan.06
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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