a volta do parafuso - henry james

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A Volta do Parafuso é uma novela psicológica e de mistério e vitoriana e de impossível definição única, como costuma acontecer às grandes obras de arte, sempre multifacetadas, ricas de possíveis leituras. Trata-se da relação de duas crianças e uma governanta em uma mansão afastada de Londres às margens de um lago; ocorrem, então, certas “aparições” – ao que consta, de dois ex-empregados, agora mortos, responsáveis pela educação das crianças tempos atrás. As visões muitas vezes acontecem à luz do dia – e a luz do dia em nada tira o espanto, a surpresa, a presença do mistério – e são testemunhadas apenas pela governanta, mas ela passa a crer em outra percepção: a de que as crianças também as testemunham.
.......... A “volta do parafuso” é uma metáfora; é o parafuso da tensão, da emoção, da aflição interna que vai-se apertando e esgarçando os nervos. Aperta e revela: pressão que, a cada rotação dada, age sobre “muitas coisas das camadas mais profundas”, como diz a personagem-narradora, e faz com que as camadas se abram, se deixem entrever ainda que de modo obscuro e subjetivo – subjetivo porque tudo nos chega pelo enfoque único da governanta e porque cada leitor terá uma compreensão muito particular dos efeitos dessa subjetividade.
.......... Henry James nasceu em Nova York em 1842 mas ao morrer, em 1916, havia se tornado cidadão britânico. Seu estilo extremamente “elegante” (não me vem outra palavra) e a guerra educada que sabe cultivar tão bem nos diálogos e nas relações entre os personagens, parece fazer dele um escritor ideal para o refinamento e humor cínico pelos quais os ingleses são famosos. Ou, o que é mais provável, sua literatura soube ressaltar tais características e explorar o comportamento britânico como, acredito, escritor nenhum foi capaz – e explorando-os com tamanha intensidade a ponto do resultado ser interessante a qualquer habitante de qualquer outra cultura.
.......... A novela se assemelha a um conto de Machado de Assis (aliás contemporâneo de Henry James). O conto é "O Espelho" e tanto um como a outra tratam da narração de um personagem dentro da narração de outro personagem (o relato da governanta é a leitura de um outro personagem para alguns poucos interessados em uma reunião). Em ambos retrata-se um ambiente isolado, no interior, afastado dos centros urbanos, e ambos possuem uma atmosfera carregada, introspectiva, solitária mas eletrizante, em que se sonda a compreensão da alma humana e em que se tateia um entendimento mais profundo das situações em que se encontram.
.......... Em determinado momento a personagem declara: “Tudo, porém, permanecia solitário e vazio, enquanto eu continuava imperturbável – se é que se pode chamar de imperturbável uma mulher cuja sensibilidade havia, do modo mais extraordinário, não declinado, porém se aprofundado”. Os escritos de Henry James são esse movimento “se aprofundando”, pelo qual com extrema perícia de cirurgião (do modo mais extraordinário) suas frases de bisturi vão escarafunchando continuamente os caminhos do raciocínio, dos sentimentos, das relações humanas, como se fosse antes um polimento pelo qual a sensibilidade do leitor se aguça.
.......... “Mas as pobres crianças tudo negavam com a força acrescentada da sua ternura e sociabilidade, de cujos abismos cristalinos – tal o lampejo cor de prata de um peixe na torrente – espiava ironicamente a vantagem que tinham sobre mim.” As palavras de Henry James são esse lampejo; ou melhor: atuam de forma que a nossa mente produza lampejos em si mesma, descobrindo a própria luminosidade de que é feita – essa cor de prata do dorso de um peixe que na bagunça da torrente pouco a pouco e cada vez mais vem à tona, vem se revelando à luz.
.......... A edição que li é de 1987, do Clube do Livro, com tradução de Olívia Krahenbuhl; existem outras, mais recentes e de outros tradutores.
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fev.06
originalmente para www.leialivro.sp.gov.br
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