almas gêmeas

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1. pedra angular
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Pelo chão em que pisas, pelo gosto da água. Pela luz do sol nomeando as almas do que se avista. Pelo ar ventando.

Pelo desvio aparentemente improvisado, apenas aquisição de lançar-se ao ritmo. Pela letra, pelas páginas, das bibliotecas que resistiram, ou ressuscitam no alfabeto interno da nossa métrica – da nossa síntese, a sintaxe do convívio.

Pela tolerância não do apático mas do flexível que marcha. Pelo vigor do corpo, diga-se logo templo, nesse tempo em que se teima em desprezo, mas predestinados apalpamos.

Pela voz serena de duas consciências se esforçando. Pela veia da voz emitindo um canto. Pelo mar salgado como a sede, mas nem tanto. De novo pelo ar, pela terra, pelo fogo em seus lugares, como o nosso.

Pelo choque de uma beleza, acalmando o suplício. Pela descoberta em íntimo escândalo de que não era suplício. A casca da cara finalmente mal feita diz desisto. Pela alameda dos gerânios (lembras?) – se nunca houve a inventamos.

Pelo prazer na Física, pela quimera da Lógica. Pela alquimia da Química, pela clareza na Ética. Pela existência da fruta.

Pela montanha pela seiva da côdea pela folha, filtrada da luz como a fauna, como a fauna em seu êxtase exangue. Pelo pulso do sangue.

Pela concessão a pergunta. Pela concessão a resposta. A afirmar. Pela locomoção a se estabelecer.
Pelo que ainda resta – de bom. Pelo humano ser, pelo ser humano e seu ofício. Pela platibanda enlaçando uma ode (isso quer dizer um enlevo lírico). Pelo silêncio sem menosprezo.

Pela prece, pela força, pela pressa se esvaziando. Pela ciência humilde, ciente de sua frágil medida, pela religiosidade real, avessa a uma igreja rígida, pela ida, ao encontro do sempre, não à volta impossível. E um sino repica à formação que se traça, pois a emoção que se constela independe do signo.
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2. reza
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Uma ou duas, vezes sem conta, muitas por dia, ou só a única, se repetindo. Reza o verbo, reza a coisa, reza a palavra impudica, pois não tem culpa.

Rezo pela reza do Rosa, reza-flora na nota do Cara-de-Bronze, reza afora em sua íntima liturgitura. Rezo pelos inimigos – e do Poe a prática do seu aforismo, “vingar-se das injustiças deles com o ter-lhes sempre e simplesmente feito justiça”. Rezo pela mudança de ângulo, revitalizando o sentido.

Rezo por tudo quanto é reza, instâncias que rezam: descentralizar-se com concentração. Bênçãos do pajé, batuques do candomblé, batidas do coração; rabi, xamã, lama, ulemá, pagão; Jesus sem fixação, sem instituição que o crucifique. Rezo pela ativa espontaneidade ungida de percepção.

Rezo pela cadência se estabelecendo. Pelo apego ao profundo caminho claro. Pelo seu sustento.

Rezo pela razão da origem e pela origem da razão – no passado do passado do passado – quando à distância ouve-se um som de trovão. Rezo pelas Águas de Março.


Rezo pela manutenção da nave – a nave do espaço, a nave do espaço do corpo, a nave do espaço do corpo do templo (de um escopo religioso, de um quarto, de um corpo, de um espaço). Rezo pelo fim do pânico. Pelo fim do abandono, da negação com medo, do fingimento.

Rezo pela autorreflexão sem falso reflexo dos espelhos. Rezo pelas sintonias – das ondas transmissoras, de um conjunto de pessoas, de um pinguim com seu metabolismo; da montanha com suas placas rochosas, da montanha com sua sombra na Lua, da menina que se deita com a emissão de um pulsar e a emissão de um pulsar que a toca.

Rezo pelo vulto do Universo e pela medida do seu ritmo.

Rezo para que o princípio da Necessidade Interior, como diz Kandinsky, não se suicide. Rezo para que a catarata da dor readquira a visão, pelo hálito da arte a serviço da construção, rezo pelo esforço da compreensão.

Rezo pela existência da reza – prece pessoal qual quiseres que seja –, que não se congele como as de uma gelada crença. Rezo pela entrega. Pela ação que medita, pela mediação entre o ato e a deixa, pela fibra do que se deseja.

Rezo, afinal, pela pedra fundamental em que nossa alma se deita. Caminha. Onde um dia afinal se despeja ao entender o caminho que enfrenta.

Rezo, reza, e a reza se abarca.
maio.99
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