jaci resgatada

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uma leitura de "Satélite", poema de Manuel Bandeira
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originalmente para "Introdução aos Estudos Literários I",
disciplina do prof. Ariovaldo José Vidal,
curso de Letras, USP, jun.06
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SATÉLITE
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........ Fim de tarde.
........ No céu plúmbeo
........ A Lua baça
........ Paira
........ Muito cosmograficamente
........ Satélite.

........ Desmetaforizada,
........ Desmitificada,
........ Despojada do velho segredo de melancolia,
........ Não é agora o golfão de cismas,
........ O astro dos loucos e dos enamorados,
........ Mas tão-somente
........ Satélite.

........ Ah Lua deste fim de tarde,
........ Demissionária de atribuições românticas,
........ Sem show para as disponibilidades sentimentais!

........ Fatigado de mais-valia,
........ Gosto de ti assim:
........ Coisa em si,
........ – Satélite.

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Manuel Bandeira, Estrela da Tarde
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Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar.
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Gilberto Gil, "Lunik 9"
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Jaci é a Lua da língua tupi. Em Iracema, de José de Alencar, ela aparece e o próprio autor nos explica em suas Notas ao romance: “Jaci – A lua. Do pronome ja – nós, e cy – mãe.” (p.93) O que também se encontra no Magma de João Guimarães Rosa:
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....A fogueira está acesa,
....e, lá em cima, ainda há muitas fogueiras..
....E a maior delas é a estrela
....fogo-grande-da-lua,
....iaci-tatá-uassu... (p.113)
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....Nós, mãe. A mãe de nós, mãe nossa. Uma Lua primitiva, matriz, anterior às denominações ocidentais (ocidente-Europa), anterior à chegada lusitana com suas intenções de Civilização, anterior às navegações, também tomadas no sentido onírico de navegações das liras literárias; uma Lua do tempo em que este ocidente daqui estava ainda ao ocidente do ocidente, não éramos o mesmo.
....Embora o de Alencar também seja um luar de “doce luz” que “acende o amor no coração dos guerreiros”, tomo a referência como a um luar antes dos luares, antes do luar ser múltiplo de qualificações. Em outras palavras: como se o luar de Alencar não fosse dele; que o luar de Alencar seja, sim, a indicação de um tempo e de um lugar nos quais o luar não podia nem mesmo ser determinado pelas palavras luar ou lua – as designações assim ditas, e todas as leituras sentimentais na sua esteira, estavam longe, estavam além-mar (nem se sabia que poderiam estar lá), não estavam, não existiam.
....O poema “Satélite”, de Manuel Bandeira, como uma placa de sinalização diferente, parece querer nos direcionar a um outro enfoque da Lua interminavelmente submetida a roupas de sentimentalidades que a distorcem. Quer nos apontar um lugar novo, onde ela, sem nem mesmo telescópio, sem disfarces, seja vista realmente – primeva, desnuda e portanto vestida apenas de realidade, de um tempo em que apenas era, estava, vivia.
....Portanto “satélite”: que o astro se reitere de sua condição mais concreta. Satélite, não Lua, porque “brilha de empréstimo”, como nos diz Machado de Assis no seu "Trio em Lá Menor". Satélite justamente para não ser fácil, apenas arrebatador e envolvente; para que o espectador, ao olhá-lo, sinta-se independente, com autonomia e vontade próprias, sem se deixar arrastar pela Lua mítica, Lua romântica, Lua hipnótica, cujo corpo não é matéria pétrea, é luz branca feita da sedução do seu sorvedouro, sorvendo e nos derramando múltiplos significados, atordoando, claro “golfão de cismas”.
....Golfão de cismas: como no poema “Plenilúnio”, do poeta maranhense Raimundo Correia (1859-1911). Em seu texto autobiográfico, "Itinerário de Pasárgada", Manuel Bandeira discorre sobre suas influências e cita “Plenilúnio” como um dos poemas “que fizeram época na minha experiência poética desses anos de formação” (Poesia Completa & Prosa, p.43). “Satélite” dialoga diretamente com “Plenilúnio” – além do golfão de cismas, “astro dos loucos” e “enamorados” são outros dos termos que aparecem em um e outro – e é uma espécie de exorcismo ao luar dominador, de pesadelo, avassalador de Raimundo Correa.
....Plenilúnio: claro, reluzente. O luar deste “Satélite”, ao contrário, não está desembaraçado e jorrando seu branco sobre o mundo. O céu é “plúmbeo”, a Lua é “baça”. E “paira” – sua ação é serena e sujeita à observação equilibrada dos olhos; não atravessa encantadoramente como num desfile de moda nem se estabelece voraz como um olho divinizado. O tempo nublado, indicado pelo chumbo do céu e pelo embaçamento do astro, permite um estado propício ao entendimento (no plenilúnio de Correia, ao contrário, logo no início a “visão branca das nuvens sai!”, para o ataque). Desse modo, a Lua encontra-se filtrada, um pano natural a limpa dos excessos, combate a invasão explosiva de sua claridade enlouquecedora dos enamorados ou melancolizante dos homens. Melancoolizante, digamos. Porque o momento é mesmo de antialcoolismo: quer um estágio de lúcida consciência, no qual a Lua seja expurgada de suas condescendências metafóricas (1), admitida em sua presença astronômica, não lírica nem astrológica. Como se o astrônomo poeta se aproveitasse de um eclipse (ou produzisse por conta e esforço próprios um) para melhor estudar o corpo celeste, sem os efeitos nocivos e enganadores dos raios envolventes. Altivez lunática impregnada em nós, de nossa própria mente; afinal, como novamente nos diz Machado, agora pelo seu Brás Cubas, e bem o sabiam Raimundo Correa e Manuel Bandeira: “[...] o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?” (Memórias Póstumas de Brás Cubas, XCIX)
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1. A Lua é uma “Condescendente amiga das metáforas...”, segundo Mário de Andrade em seu “Tempo da Maria” (Remate de Males, p.182).
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....É “fim de tarde” – nos coloca o poema em seu primeiro verso, introduzindo, abrindo os acontecimentos; há mesmo um ponto final o fechando como se fosse a apresentação categórica do estado especial que será exposto. Não é ainda noite nem é mais dia claro: é o momento intermediário, passagem, próprio das condições reflexivas em que se procura ter um discernimento, colocar os pingos nos is das concepções complexas ou perturbadoras. Hora crítica, e a crise traz a ponderação que se exige como sobrevivência.
....A voz que se manifesta no poema revela as conclusões dessa ponderação, os resultados na busca de seu melhor relacionamento com o astro que se impunha. Mostra-nos um momento de sanção no qual o eu-lírico se encontra, e para que se chegasse a tal conquista subentende-se que houve um estágio de batalha. A segunda estrofe, ainda que igualmente pertença à atitude de avaliação equilibrada que é a própria alma do poema – aliás, a abertura pela palavra fim já aponta para todo o momento final em que ele se encontra, posição de verificação conclusiva –, é uma célula na qual a batalha reflexiva e sua trajetória se retratam, apresentando-se o conflito por dois trios de expressões opostas.
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....Desmetaforizada,
....Desmitificada,
....Despojada do velho segredo de melancolia,
....Não é agora o golfão de cismas,
....O astro dos loucos e dos enamorados,
....Mas tão-somente

....Satélite.
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....As palavras, aí destacadas, formam dois blocos que se encaixam antagonicamente. Os qualificativos virados do avesso pelo prefixo des caracterizam a desmedida em cuja limpeza se encontra o outro estado que as condições do segundo bloco impediam. Limpeza – conclusão – logo resolvida na concisão de um único elemento: tão-somente, satélite.
....A resolução já se encontrava na primeira estrofe, indicada pela forma como a Lua paira, muito “cosmograficamente”. Uma grafia cósmica, documentação do astrônomo. No "Itinerário", Manuel Bandeira, ao discorrer sobre suas influências não só literárias, declara que sempre foi “mais sensível ao desenho do que à pintura. [...] foi intuitivo em mim buscar no que escrevia uma linha de frase que fosse como a boa linha do desenho, isto é, uma linha sem ponto morto”. (Poesia Completa & Prosa, p.50) Eis como a Lua, em “Satélite”, se apresenta aos nossos olhos desenamorados: sem ponto morto, em “boa linha”, de desenho, não pintada – lavada das excessivas pinceladas, enxuta dos óleos e suas tintas, precisa na finura do traço, só esqueleto, sem carnes, muito menos gorduras.
....Na verdade, a resolução já se encontra no título: a palavra satélite já é a redefinição sancionada pelo eu-lírico com sua voz consciente, e estabelece-se no alto, solta, como a Lua real no céu, só que diretamente, com seus tt explosivos e a vogal aberta no centro, em linhas de desenho, preta, no branco do papel, fixando o seu conceito astronômico – dependente de nós, não nos controlando.
....No entanto, quando a voz do poema expressa “Ah Lua deste fim de tarde”, chega a insinuar-se uma sentimentalidade. Não deixa de ser a atitude reverente e efusiva ao luar, mais um verso-índice de sua importância emotiva, seu alvíssimo encanto inebriante – como na canção de Gilberto Gil, em que numa espécie de parênteses as considerações lamentam (
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....A mim me resta disso tudo uma tristeza só
....Talvez não tenha mais luar
....Pra clarear minha canção
....O que será do verso sem luar?
....O que será do mar, da flor, do violão?
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) e a parte mais melíflua da melodia as segue. Porém, trata-se de meia-sentimentalidade; sentimentalidade às avessas, um tanto sub-reptícia, só insinuada, mesmo irônica. Em ambos os cantares, ou ambas poesias, o que há é um hiato de relaxamento no qual o eu-lírico se deixa cair para logo voltar à atitude lúcida do artista-astrônomo ou da arte-astronomia. Nos versos imediatamente a seguir, a Lua é uma ativa “demissionária” – e “sem show”. Demissionária: implicando-a em ação, não passiva nem passional, mas possível até mesmo de autoridade expressa na atitude de limpar-se, de despojar-se das metáforas e mitificações, de desnudar-se das impurezas do branco (como nos diz o título de Carlos Drummond de Andrade) aqui personificadas pelas “atribuições românticas”. Sem show: sem nem mesmo o branco – se for para uso das “disponibilidades sentimentais” –, se houver brancura que seja a da sua luz apenas luz, material, newtoniana, iluminista, luz lúcida, satélitica; sem show como o Capibaribe de João Cabral de Melo Neto: que é cão mas sem plumas, sem atavios, sem salamaleques, sem desvios da ilusão que os tornem – lua ou rio – um objeto de hipnose ou refúgio inconsciente.
....Os versos são “livres” – na libertinagem de sua “Poética”, o poeta já declarara: “Estou farto do lirismo comedido”. A metrificação, liberta de dogmas, aparentemente desarticula o poema, mas de forma alguma o banalizando em frouxas formações. “Um número fixo de sílabas com as suas pausas cria um certo movimento rítmico, mas não é forçoso ficar no mesmo metro para manter o ritmo. Quando atentei nisso, senti-me verdadeiramente liberto da tirania métrica” – diz-nos em seu "Itinerário" (p.48), e por isso me refiro aos versos livres com este “livres” entre aspas: a liberdade é disciplinada, trata-se de uma reciprocidade entre liberdade e escolhas; é uma abertura de possibilidades sob a consciência constante do que seja condizente ao poema, em seu conteúdo e sua forma (também recíprocos, sempre). Verso livre “cuja lei é a adesão do ritmo ao pensamento e vice-versa”, ensina-nos Antonio Candido (O Estudo Analítico do Poema, p.86). Não, a assimetria em “Satélite” não é uma desarticulação: é uma articulação diferente, aparentemente livre, e expressa a quebra das normalidades preestabelecidas – normalidade das métricas tradicionais, normalidade da visão que se tem do luar ou do que a Lua, sentimentalmente, evoca.
....É curioso que, de monossílabo a hendecassílabo, encontremos de quase tudo nas medidas poéticas dos versos, inclusive dois “metros bárbaros”, de quinze sílabas (Candido, p.83). Exceções: a redondilha maior e o decassílabo – justamente duas das medidas clássicas, consagradas pela tradição, os dois metros preferenciais da nossa língua (Candido, p.86). Como se, implicitamente, arraigada em sua natureza corporal, revelando-se nela por ser dela essência, o combate ao comum se apresentasse naturalmente, inerente à própria condição de ser do poema – a atitude conceitual não poderia ser à parte da estrutura material, e ambas, em franca mistura, são a atitude lírica e sua manifestação. “A combinação de número arbitrário de sílabas poéticas, característica desse tipo de verso, é empregada aqui em sua máxima incerteza, produzindo os ‘versos espetados’ e as ‘entradas bruscas’ que Mário notou tão bem. O resultado é que são de fato ásperos e bastante intratáveis, mas também belos, em sua perfeita adequação ao tema” – diz-nos Davi Arrigucci Jr., ao tratar do poema “Maçã”, de Bandeira, e citando as asserções de Mário de Andrade ("Ensaio sobre ´Maçã´”, p.32).
....Assimetria de versos acompanhada por assimetria também de estrofes. São quatro, diferentes entre si: uma sextilha, uma setilha, um terceto e um quarteto. No entanto, a presença quaternária – quatro estrofes e quatro versos finalizando –, mais a quantidade “arredondada” de vinte versos, remetem ao equilíbrio do quatro, o quatro do quadrado, do conjunto estável como o das quatro pernas em que se assenta um móvel – quatro da unidade das quatro sílabas do satélite e da unidade lírica de que o poema é feito e evidencia. Ainda que a voz do poema demonstre as conclusões de um combate interno e manifeste uma posição contrária, de limpeza, de desimposição ao que previamente se estabelecera com rigidez, a atitude dessa voz também se impõe com firmeza, sobre bases sólidas, pessoais, segura em seu próprio equilíbrio particular. São sinais, constatações, advindos da “coerência orgânica do poema” (Arrigucci, p.41).
....É curioso notar como, também fisicamente, em suas constituições métricas, “Satélite” e o “Plenilúnio” de Raimundo Correia se embatem, dialogando uma oposição. Enquanto em Bandeira se impõe o rigor do seu verso livre, no “Plenilúnio” encontramos uma impressionante regularidade em nove: todo em eneassílabos, formados por duplas de quintetos e quartetos – portanto duplas de nove versos –, cujo conjunto de 54 versos, se somados seus algarismos, também resulta em nove. E em relação a Correia também pode ser reforçada a intensa relatividade do “livre” nos versos livres de Bandeira: quando em “Satélite” é citado o marcante golfão de cismas, apenas aí desponta um eneassílabo como os de “Plenilúnio” – “Não /é /a/go/ra o /gol/fão /de /cis/mas” –, e os versos nos quais se encontram as citações diretas – terceiro e quarto da segunda estrofe – ocupam o exato centro do total de vinte versos.
....“Satélite” trata-se de uma mediação poética, na busca da medida certa entre o real e o fictício, o verdadeiro e o falso, o alto e o baixo – como, em Belo Belo, nos retrata em poucos e precisos traços o poema “A Realidade e a Imagem”, ou como a criança que, em “Céu”, já tendo o céu na mão, não se dá conta disso ao estendê-la para alcançá-lo. Trata-se, também, de muitas outras limpezas, já que este “velho segredo de melancolia” ou esta louca brancura bela que tem o poder de condenar cada um de nós “cogitando, triste, à janela”, como nos versos de Raimundo Correa, pode ser a representação de quaisquer poderes dominadores ou invasores da autonomia do indivíduo. Pode ser Hécate (2) – a simbologia do feminino, a existência magnética da mulher, amplamente avaliada e reconsiderada na obra bandeiriana, via Anarinas, Irenes, Janaínas, Teresas, Jacquelines, Antônias, Marias, cunhantãs, colombinas, Nossas Senhoras, sereias, aeromoças, ninfas, Damas Brancas, rosas, mãe, irmã, estrelas da manhã e da tarde, desde o seu primeiro alumbramento às antigas margens do Capiberibe (Capibaribe). “Desmitificação” até do lado autenticamente sombrio da face clara da Lua, ligado a terrores, medos e estórias de assombração, já que o mito retém em si significações contrárias, não só hipnóticas por encanto mas hipnóticas por horripilações, horrores mais longínquos que a infância.
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2. “Como símbolo tradicional Hécate era a personificação da lua ou ´del principio femenino en su aspecto maléfico, enviando la locura, las obsesiones, el lunatismo´.” (Leonardo Arroyo, A Cultura Popular em Grande Sertão: Veredas, p.146 – citando Juan-Eduardo Cirlot, Diccionario de Símbolos Tradicionales, p.184)
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....Seja como for, reclassificar a Lua, satelitilizá-la, é torná-la mais palpável, menos etérea, promovendo sua coisificação ao fazê-la mais nossa, mais terra, mais gente – como Carlos Drummond, exaltando/advertindo em “O Homem; as Viagens”:
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....O homem, bicho da Terra tão pequeno
....chateia-se na Terra
....lugar de muita miséria e pouca diversão,
....faz um foguete, uma cápsula, um módulo
....toca para a Lua
....desce cauteloso na Lua
....pisa na Lua
....planta bandeirola na Lua
....experimenta a Lua
....coloniza a Lua
....civiliza a Lua
....humaniza a Lua. (As Impurezas do Branco, p.440)
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....Fazer da Lua satélite, ou melhor, vê-la em sua realidade, é também, mais do que um “ir-se embora pra Pasárgada”, um trazer Pasárgada urgentemente – para que aqui se instaure a descomplicação das coisas mais simples, um estado espiritual e físico de bem-aventurança. Aliás: físico e espiritual, primeiro fisicamente; assim como em Pasárgada a realização se dá por uma série de liberdades corporais, a “existência é uma aventura” e daí a satisfação espiritual, da mesma forma quer-se despojar a Lua de suas “atribuições românticas”, tomá-la como coisa, física, corpórea, desenho e não pintura – para que, aí sim, ela seja gostada, usufruída, fruída na sua condição plena de medida certa (lucro em relação correta, avesso à “mais-valia”), concreta, íntegra. Por isso mesmo, na estrofe final, o eu-lírico “gosta” dela: não ama, não adora, não se derrama, não verte paixão.
....Quanto aos escritores do nosso Romantismo, há uma dupla relação entre “Satélite” e a literatura deles. Se por um lado o poema combate as sentimentalidades fáceis, encontráveis em alguns nichos de nossa romântica escola literária – e por esse aspecto pode-se dizer que Bandeira também se autocombate, como por exemplo contra sua “Paisagem Noturna”, de A Cinza das Horas, na qual, além de também haver plenilúnio, o luar úmido e fino é “amávico” e “tutelar”, animando e transfigurando “a solidão cheia de vozes...” –, por outro, é no Romantismo que encontramos uma forte busca de identidade, fome de tornarmo-nos mais satélite do que Lua, com personalidade e integridade autônomas.
....Como mencionado no início, o aspecto de pureza lunar essencial do texto de José de Alencar não é inteiramente lícito. No fundo, não é lícita também, inteiramente, a desmitificação da Lua bandeiriana. “Satélite” também é lírico e sentimental, como não poderia deixar de ser qualquer célula do corpo literário de um poeta essencialmente lírico, motivado pela indispensabilidade dos sentimentos. Retirar o lirismo de Manuel Bandeira, por mais astrônomo e analítico que seja o olhar do seu eu-lírico, seria bizarro como conceber a consolidação de um absurdo eclipse contínuo, ou, mais absurdamente: uma noite desanuviada e de magnífico plenilúnio, sem Lua.
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....O alvo disco da lua surgiu no horizonte.
....A luz brilhante do sol empalideceu a virgem do céu, como o amor do guerreiro desmaia a face da esposa.
....– Jaci!... Mãe nossa!... exclamaram os guerreiros tabajaras.
....E brandindo os arcos, lançaram ao céu com a chuva das flechas, o canto da lua nova:
....“Veio no céu a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para ver seus filhos. Ela traz as águas, que enchem os rios e a polpa do caju.
....“Já veio a esposa do sol; já sorri às virgens da terra, filhas suas. A doce luz acende o amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da jovem mãe”.
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José de Alencar, Iracema, XVI
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bibliografia
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ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 5a edição, 1979.

ANDRADE, Mário de. Poesias Completas, volume 1, São Paulo: Martins, 6a edição, 1980.

ARRIGUCCI Jr., Davi. Humildade, Paixão e Morte – A Poesia de Manuel Bandeira. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

ARROYO, Leonardo. A Cultura Popular em Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984.

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GIL, Gilberto. Todas as Letras, organização Carlos Rennó, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

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