poesia à venda: despublicitária

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um parecer acerca do poema
"Pregão Turístico do Recife"
de João Cabral de Melo Neto
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originalmente para "Introdução aos Estudos Literários I",
disciplina do prof. Ariovaldo José Vidal,
curso de Letras, USP, jun.06
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PREGÃO TURÍSTICO DO RECIFE
................................................................................... A Otto Lara Resende
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........... Aqui o mar é uma montanha
........... regular redonda e azul,
........... mais alta que os arrecifes
........... e os mangues rasos ao sul.

........... Do mar podeis extrair,
........... do mar deste litoral,
........... um fio de luz precisa,
........... matemática ou metal.

........... Na cidade propriamente
........... velhos sobrados esguios
........... apertam ombros calcários
........... de cada lado de um rio.

........... Com os sobrados podeis
........... aprender lição madura:
........... um certo equilíbrio leve,
........... na escrita, da arquitetura.

........... E neste rio indigente,
........... sangue-lama que circula
........... entre cimento e esclerose
........... com sua marcha quase nula,

........... e na gente que se estagna
........... nas mucosas deste rio,
........... morrendo de apodrecer
........... vidas inteiras a fio,

........... podeis aprender que o homem
........... é sempre a melhor medida.
........... Mais: que a medida do homem
........... não é a morte mas a vida.
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........... ........... ........... João Cabral de Melo Neto, Paisagens com Figuras
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– “É hora!” – foi nossa interjeição golpeada;
que, agora, o que se sentia é que era o contrário do sono.
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João Guimarães Rosa, "Darandina"
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Uma das imagens captadas pelo fotógrafo Luiz Braga ("Futebol no rio", 1998) revela dois rapazes que, como em milhares de pontos esparsos do Brasil, jogam futebol ao cair de uma tarde de sol. Um deles se prepara para chutar a bola em direção ao outro que faz as vezes de goleiro sob a trave de um gol improvisado de hastes de pau fincadas na areia. Areia de uma praia de rio. Acontece que não se vê a areia, supõe-se-lhe a presença: todo o chão está tomado pela água, a água de uma provável maré doce que, ao subir, inundou o campo em que se estabelecia a pelada. O chutador, mesmo assim se prepara; a água espirrada sob a luz que a alaranja indica o impulso e a fome com que o pé se prepara para o tiro final. O goleiro, mesmo assim espera; participa do jogo e garante a utilidade do chute que virá.
..... Talvez não seja crepúsculo, talvez seja o nascer do sol e a maré daqui a pouco desça, talvez seja uma mera brincadeira para o exotismo de uma foto – finquemos rápido aqui a trave e vumbora, olha a pose... –, talvez os dois sejam doidos e o fotógrafo ia passando; não importa. O resultado é que a bela imagem inusitada demonstra um ato de insubserviência, de ir apesar de, de jogar à revelia e impor seu jogo onde, a princípio, não há condições para a sua realização plena.
..... Os garotos, como seguindo a indicação de “não poetizar seu poema”, não futebolizam sua partida. Enfrentam-na, constroem-na, combatendo a superfície fluida, a maciez inimiga, pegajosa que retarda a bola. Maciez nociva como a maciez da prosa escorreita porém escorregadia que, ainda que fluida como o campo de futebol aquático, ao contrário dele não retarda as palavras-bolas: é fácil, permite que as frases corram inadvertidas, sem peso, rápidas, levando os leitores a se largarem nas suas ondas de temperatura tépida, como os jogadores da praia se se esquecessem do jogo e nadassem despreocupados, à solta na maresia.
..... Tais analogias podem ser remetidas logo ao primeiro verso do poema “Pregão Turístico do Recife”: “Aqui o mar é uma montanha”. A sentença de abertura, digamos, é como se dissesse: aqui (na minha poesia) o mar (o seu espraiamento sem controle) é uma montanha (não é fácil nem espraiado: é uma posição que quer estar do alto, que se quer concreta e de base firme, e por isso mesmo me expresso pelo som preciso de minha montanha, com seu T incisivo, no alvo, e não pelo mar com seu R alastrado e se alastrando a todos os rumos, de limites vagos ou de inexatidão explícito).
..... Aliás, tais analogias estão antes, no próprio título, em que já se anuncia a intenção de que a atenção de fora (turística) seja voltada para as características específicas, internas, que todo pregão apregoa acerca do objeto que anuncia. Estão na palavra pregão, tão próxima a prego e parente estreita de pregar, pregando literalmente com um prego grande, pregando incisivamente, com aguçada tensão. Estão antes, no próprio Recife, presente neste título e em muitos outros (títulos e versos) e em quase todos os livros do autor; Recife referente a recife: a formação rochosa, dura, que quebra a intromissão oceânica, que requer atenção redobrada, que não admite natação de olhos fechados, desprovida de cuidados, relaxada.
..... “Pregão Turístico do Recife” pode ser compreendido em três partes, três tópicos que saltam de seus sete quartetos: Mar (estrofes 1 e 2), cidade (estrofes 3 e 4), rio (as três últimas). Sete estrofes; ímpar por que, já que em João Cabral há a tendência ostensiva ao equilíbrio das paridades? Esse espichamento assimétrico do poema, que o aparta de ser par, parece ocorrer para que surja um quarto elemento e aliás seu elemento-essência: o homem, a medida do humano. A sexta estrofe já o introduz, mas ainda amalgamado e estagnando-se no rio, rio-lama que já é sangue, sangue-lama-rio; é a sétima estrofe que o destaca, o apregoa explícita, ele e sua medida, a melhor para a sua apreensão (do rio da cidade do mar), composta não de morte mas de vida.
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..... podeis aprender que o homem
..... é sempre a melhor medida.
..... Mais: que a medida do homem
..... não é a morte mas a vida.
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..... E essa estrofe, e com ela o elemento-essência, é a base – a base da montanha que desde o seu pico (o primeiro verso do poema) se destaca. Se todo o corpo textual for tomado como formação montanhosa de si mesmo, o humano, que está no rio que atravessa a cidade que se debruça no mar, é a base e portanto estrutura, dá razão e sustentabilidade, “é sempre a melhor medida”.
..... Haveria ironia ao se tratar de tal tema despudoramente em um pregão? No veículo de venda que o pregão é por excelência, expõe-se ao turista a própria cidade natal analisada e, nela, em suas mucosas de lama e sobrados e litoral, declara-se uma outra comercialização: o homem, sua humanidade. Por um lado pondo-o como produto, artefato de vendagem, como em inúmeras e infindáveis vezes é tratado no mundo real; por outro, chamando a atenção justamente para que os elementos do mundo não sejam tomados como comercializações: por trás deles há ou deveria haver sempre e essencialmente o homem, seu valor tantíssimas vezes desprezado, relegado ao monturo, à escória das circunstâncias, “morrendo de apodrecer vidas inteiras a fio”.
..... Do livro Quaderna, no poema “De um Avião” – também extremamente imagético, chegando ao cinematográfico –, o poeta chama o olhar da consciência novamente para a importância humana; também através de um inesperado contraste, mas agora por uma oposição entre movimentos, entre direções aparentemente antagônicas que na verdade se acham: do aeroporto o avião emerge, permitindo as visões cada vez mais amplas que os círculos do seu vôo propiciam... até que a amplidão maior nos convoca para o que esteja no cerne da luz-diamante de Pernambuco: o ser humano, o “núcleo do núcleo de seu núcleo”. Distanciamento que nos aproxima; afastamento e consciência para que, paradoxalmente, se possa penetrar no que interessa, para que seja raspada a capa do imperceptível. Humanidade e paradoxo como os de Morte e Vida Severina, onde, apesar do percurso repleto de percalços e constantemente fadada ao menoscabo, a vida renovada ainda se encontra, no fim, recomeçando.
..... Essa condição paradoxal, tão própria da poesia cabralina – profunda aproximação distanciada, ação nanotecnológica de telescópio –, conecta-se incessantemente e incessantemente demonstra não só uma autêntica realização artística, como também uma cristalina postura ética. Sua linguagem condiz com “valores éticos básicos, que lhe dão a propriedade expansiva ao mesmo tempo em que determinam seus limites”, como nos esclarece Alcides Villaça em "Expansão e limite da poesia de João Cabral" (p.149). Em uma entrevista, de forma inusitada, o poeta nos revela dois conceitos retirados da diferença entre carros de boi de Pernambuco e do Rio de Janeiro:
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..... Quem me falou dessa diferença foi meu tio-avô Diogo Cabral de Melo, que era juiz e chegou a desembargador no estado do Rio. Eu já o conheci aposentado, morando em Santa Teresa, quando vim para o Rio. Um dia ele me disse: “Em Pernambuco os carros de boi são puxados por duas juntas de bois e no Rio são puxados por três juntas”. Pensei então em escrever um poema que falasse de “boi de coice” e “boi de cambão”. Os bois de cambão são os que puxam o carro, os de coice são os que o freiam, quando ele está descendo uma ladeira. Eu pensava num poema que fosse uma tipologia geral. Por exemplo, Manuel Bandeira é um boi de cambão, o Schmidt é um legítimo boi de coice. Sartre é um boi de cambão, o Camus é um boi de coice. Não há superioridade de um sobre o outro. É uma questão de tipologia. Auden era boi de cambão, Eliot era boi de coice.
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..... Curiosamente complementa, comentando e dando mais exemplos:
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..... Manuel Bandeira ia sempre na frente, desbravando o caminho, sem pose, sem grandiosidade. Carlos Drummond, no princípio, era boi de cambão, acabou como boi de coice. Murilo Mendes tem pedaços de boi de coice e pedaços de boi de cambão. Walt Whitman era boi de cambão. Jorge Guillén é boi de coice. Dylan Thomas faz o possível para ser boi de cambão e só consegue ser boi de coice. Rimbaud é um misto, talvez o mais completo, de boi de coice e boi de cambão. Théophile Gautier é boi de cambão. Mário de Andrade é boi de cambão. Augusto dos Anjos é boi de coice. Proust, boi de coice. Valéry, boi de cambão. Isso, como você vê, não é questão de valor, mas de approach da realidade. Inclassificável é o Shakespeare, capaz de escrever a comédia mais engraçada e a tragédia mais trágica. (A Marly de Oliveira, Cadernos de Literatura Brasileira, p.23)
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..... Por essa dupla surpreendente de conceitos que se opõem, é possível depreender mais uma vez o radical limite em que a poética de João Cabral se equilibra e abre caminho (o seu “approach”): seria João Cabral de Melo Neto boi de cambão ou boi de coice? Por um lado, um; por outro, o outro. Ou dito de modo mais correto: ao mesmo tempo os dois.
..... João Cabral – a forja do seu trabalho – abriu um espaço novo, como um arado único em terreno único, feito de ética estética e estética ética consubstanciadas num sumo artístico – autêntico boi (de cambão). Ao mesmo tempo, plantando incansavelmente no próprio terreno e colhendo os frutos, de modo a que nenhum outro operário do campo o pudesse superar no controle agrícola de sua técnica e manutenção – autêntico boi (de coice). Autêntico boi, único, ruminando como nenhum outro, postado sobre os quatro pés (patas lúcido-líricas).
..... O poeta nos prescreve “a ordem outra de um particularíssimo projeto” (Villaça, p.148). Trata-se, mais uma vez, e aonde quer que se vá na seara de João Cabral, de suas medidas amplas de claridades e luz, precisas em resoluções.
..... O “Pregão Turístico”, ainda que assimétrico em suas três partes aparentes – duas duplas de estrofes, depois um trio – contém um item curioso bem no centro: se divididos ao meio os seus 28 versos, depara-se com o interior da quarta estrofe e nele os versos “aprender lição madura: / um certo equilíbrio leve,” – neles, as palavras centrais: lição, equilíbrio. É novamente, e sempre, o seu “núcleo de núcleo de núcleo”, sua educação pela pedra, educação difícil porém certeira (justeza e justiça) através do próprio ato poético.
..... Difícil, como logo indica o verbo poder nos três “podeis” espalhados pelo poema. Vós (leitor, turista) podeis extrair e podeis aprender – aprendereis exatamente se extrairdes. O poema “Para a Feira do Livro” (o último de A Educação pela Pedra) bem o demonstra: o livro é um ser paciente porém “severo: / exige que lhe extraiam, o interroguem; / e jamais exala: fechado, mesmo aberto”.
..... Por isso o seu pregão apregoa mas não se publica, não se promove impudico, não quer a todo custo ser venda; é uma propaganda despublicitária. Interessante que, pelo lado “popular” do poema, encontra-se em sua estrutura a seqüência de setissílabos de que é todo formado – até mesmo na dedicatória (a /Ot/to /La/ra /Re/sen/de) –, a tradicional redondilha maior glorificada pelo uso poético em nossa língua. Porém, comparem-se a propósito os setissílabos de outro belo “pregão”, de outro poeta, ainda que também pernambucano e também apregoando a capital: “Guia Prático da Cidade do Recife”, de Carlos Pena Filho. No “Guia Prático” os versos parecem se encadear fluentes, com maior simplicidade embora de igual precisão, convidando os ouvidos mais que os olhos à sua absorção. Em João Cabral, frente a reiterações – “Do mar podeis extrair, / do mar deste litoral,” –, frente à surpresa nas construções – “um certo equilíbrio leve, / na escrita, da arquitetura.” –, frente às rimas toantes entre consoantes sonoras e designações repletas de substantivação – como a luz que não poderia ser metálica pois é “metal” –, os versos transcorrem num outro tempo, num outro andamento, incomum, o que remete a um título bandeiriano: o ritmo dissoluto. Na poética de João Cabral há uma “espécie de reeducação do metro pelo ritmo” (Candido, p.92). Suas palavras, mais do que voz, são uma boca mastigando os sons – e talvez cuspa-nos, educadamente, pela precisão da educação que lhe é inerente e pelas suas próprias formas de luz. Como o sertanejo, em “O Sertanejo Falando”, é “incapaz de não se expressar em pedra”, e assim o faz.
..... Aqui se aplicaria, a respeito de João Cabral, uma passagem de Davi Arrigucci ao estudar a poética de Manuel Bandeira: “[...] o procedimento de desentranhar a poesia como quem tira o metal nobre das entranhas da terra, como uma garimpagem do que é raro e difícil de conseguir, implica, em seu sentido material e concreto, a noção da poesia como um fazer” ("Ensaio sobre ´Maçã´”, p.30). João Cabral faz-se tão minério, que desentranha o seu metal até mesmo da luz.
..... Na “Evocação do Recife”, do outro pernambucano e apregoador da cidade, Manuel Bandeira chega mesmo a citar pregões ecoados de sua infância – “Ovos frescos e baratos / Dez ovos por uma pataca” – e, também com assombrosa precisão de escolhas líricas (igualmente com o seu “fazer”), só que em versos livres, destrincha e nos apresenta o Recife de sua memória. Mas aí uma diferença crucial: enquanto em Bandeira é, como o título nos diz, realmente uma evocação – “Foi há tanto tempo...” –, sendo o eu-lírico impregnado pela subjetividade do sentimental, o Recife do pregão de João Cabral é de um aqui e um agora objetivos, com os quais a cidade se apresenta como foco de análise, varrida do histórico íntimo do autor, ainda que, em visão tão peculiar, não possa deixar de haver uma presença subjetiva – forte subjetividade de expressão.
..... A evocação do Recife de João Cabral é uma "Educação do Recife", ainda que também leve consigo o seu Capibaribe, “como um cego leva um cão”, como nos diz a seu respeito o poeta Carlos Pena Filho no “Guia Prático”. Em Agreste, chega mesmo a nos oferecer “Uma Evocação do Recife”, como que reutilizando pelo próprio filtro a Evocação do amigo Manuel – e sua dicção, também aí, se mantém, dessa vez em doze dísticos construídos, como os sobrados velhos e esguios, em sua medição de luz-metal. (1) É uma tonalidade também contrária aos pregões de um outro lugar, cuja distinção se faz pelo conteúdo emotivo, não pelo rigor formal: as canções de Dorival Caymmi, por exemplo “A Preta do Acarajé”. (2) Em Caymmi, o pregão, os assuntos que apregoa, são emolientemente envolventes, “deixam a gente mole” (como o samba em “O samba da minha terra”) e, além de arrebatadores, encantam por sua expressividade requintadamente simples, mistério de análise; encantadores aos ouvidos e aos olhos dos ouvidos, pois repletos de imagens e insinuações de ambientes. “Dez horas da noite / Na rua deserta. / A preta mercando: / Parece um lamento... / (Iê abará)” –, versos aliás também em redondilhas, só que menores. A quase total ausência de reticências na obra de João Cabral atesta essa aversão à melodiosidade escandida nos sentimentos que se deixam levar. (Em “A Porta”, de Pedra do Sono, há reticências; mesmo assim, aí, indicam uma falta, não têm a intenção de alargar um estado de ânimo que se desprenda do verso... jamais ocorrem para torná-lo lânguido.)
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1. Na verdade, “Educação do Recife” foi sugerida sem querer pelo professor mesmo. Na aula de 12 de junho, ele cometeu um ligeiro lapso: ao invés de dizer “Evocação do Recife” ao se referir ao poema de Bandeira, proferiu a inovadora composição bandeiriana-cabralina. Achei interessante e fiquei supondo uma análise com esse título, na qual se faria um paralelo entre os poemas de João Cabral, Manuel Bandeira e Carlos Pena Filho – o que muito rasteiramente faço aqui –, talvez acrescentando Joaquim Cardozo e outros, ou tratando da visão poética do Recife pelos poetas recifenses... (A expressão poderia mesmo servir de título a um trabalho como este, a respeito do “Pregão”... mas para cá já havia título e, como disse, poderia ser a um trabalho mais profundo.)
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2. Em um disco ao vivo, antes de cantar essa canção, o músico comenta a sua infância e cita pregões que ouvia; conclui: “Bonito, né? Os pregões... A minha música vem daí”. (Caymmi in Bahia, gravação de show no Teatro Castro Alves, Salvador, a 30/11/1979, direção de Hermínio Bello de Carvalho.)
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..... José Castello, em seu livro João Cabral de Melo Neto – O Homem sem Alma, relata a existência de um poema de João Cabral, “Sugestões de Pirandello”, originalmente em três partes das quais restam apenas duas. Pertencem a inéditos da juventude do poeta, sendo publicados somente na década de 1990, possivelmente sendo os seus primeiros versos. Assim começam: “A paisagem parece um cenário de teatro. / É uma paisagem arrumada. / Os homens passam tranqüilamente / com a consciência de que estão representando”. (Castello, p.44) Paisagem arrumada. Desde o início Cabral se impõe esse relacionamento consciente, ativo, pessoal na impessoalidade – educa-se como um construtor de arte. Castello acrescenta: “Cabral fixa aqui, pela primeira vez, sua visão da arte como uma falsificação, sem que isso a confunda com a mentira”. Falsifica Recife através do afastamento analítico, aproximando-se dele com intensa aproximação – olhar particular, particularíssimo (sem deixar de ser de fora, sem deixar de ser seu).
..... Outro ponto contrastante com a regularidade do “Pregão Turístico” é um detalhe que pode ser encontrado no título, um eneassílabo. Se visto como um verso isolado, como todo título de certa forma é, ele não corresponde à redondez redondilhada dos versos nem mesmo a um redondo decassílabo – porém, sua parcela de redondilha abrange exatamente tudo, exceto a palavra Recife: “pregão turístico do” poderia ser um setissílabo, ainda que bizarro; “Recife”, ao se decalcar do título o quanto de redondilha que vem antes, aparece implicitamente em destaque, como sendo a essência, o assunto do assunto, e assim, diferentemente, corpo estranho, soma-se à regularidade da redondilha, renovando-a.
..... Renovador e estranhamente como, em toda a obra de João Cabral, os elementos imagéticos que desdobram-se em outros elementos e imagens, chegando à concentração de um miolo cognitivo cujo encadeamento extremo revela-se. “As afinidades ou as oposições entre as imagens travam-se no interior de um discurso cumulativo, orientado para a autodefinição” (Villaça, p.148). Como o “rio indigente” que não é sangüíneo nem lamacento, é logo tornado “sangue-lama”. Como o título Do Outro Lado da Rua aos poemas que dizem respeito à África; o Atlântico, passagem entre os nossos continentes, acesso às beiras das quais nossos países são casas se olhando, transforma-se e é imediatamente: rua – metáfora substantiva.
..... A poesia cabralina é toda substantiva. O poeta é o engenheiro, trabalha com matéria, com coisas; é o engenheiro que não deixa de sonhar mas sonha sob medida, medidas próprias que querem educar o foco do olhar, calibrá-lo, habilitá-lo para que fure as superfícies e penetre as cascas. “O engenheiro sonha coisas claras: / [...] / o engenheiro pensa o mundo justo, / mundo que nenhum véu encobre.”
..... Em uma entrevista concedida à escritora Edla van Steen, o poeta nos deixa um contundente e mesmo bem humorado depoimento – seu rigor é de uma tal intensidade que, às vezes, visto assim de fora, por ele mesmo, como a entrevista permite, chega a atingir um tom cômico –, exemplificando bem o seu trato programático com o texto, com o próprio convívio entre si mesmo e seu eu-lírico.
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..... Qualquer coisa espontânea que eu faço, desconfio dela. Parece ser eco de alguém. Por exemplo, se o Espírito Santo descer aqui nesse instante e me assoprar no ouvido o poema mais genial do mundo, ainda que não seja eco de nenhum poema que eu tenha lido, eu rasgo. Não acredito. (Viver & Escrever, p.103)
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..... João Cabral está sempre no “Alto do Trapuá”. Está e é, ser e estar da altura. É aquele que atinge o estado estático, clímax sólido da crista da onda móvel, como o da onda-mulher de “Imitação da Água” – átimo, ainda que inegarravelmente efêmero, porém capturado. Pois é o momento da atenção no qual se encontra profunda, momento em que se faz possível o foco, o indicador apontando, a escolha da direção. É aquele que toma o “caminho outro”, como o rio de O Rio, na “Descoberta da Usina”, para ver de muito mais perto:
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..... Até este dia, usinas
..... eu não havia encontrado.

..... Petribu, Muçurepe,
..... para trás tinham ficado,
..... porém o meu caminho
..... passa por ali muito apressado.
..... De usina eu conhecia
..... o que os rios tinham contado.
..... Assim, quando da Usina
..... eu me estava aproximando,
..... tomei caminho outro
..... do que vi o trem tomar:
..... tomei o da direita,
..... que a cambiteira vi tomar,.
..... pois eu queria a Usina
..... mais de perto examinar.
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..... Com o “gosto de chegar-se ao fim, / de atingir a própria cinza”, João Cabral é a própria bailadora andaluza que, em Quaderna, investiga. No livro Agrestes, há uma revisita ao tema da bailadora – “Uma Bailadora Sevilhana” – em cujo primeiro verso se pergunta: “Como e por que sou bailadora?”; no final conclui que sua dança “é fazer; é um faz, nunca um fez”. Como faz e realiza-se no próprio fazer o toureiro Manolete na arena, sendo também o poeta, a sua própria voz: voz de sua poesia que se enfrenta ao tourear.
..... É o poeta capaz de, por exemplo, expor esta precisão de redondilha no “Pregão”: “regular redonda e azul”. Normalmente, apareceria uma vírgula depois de regular, mas, no caso, quebraria-se a regularidade mesma de que o verso trata e demonstra – mais um dos seus versos regularmente sempre sendo, regularmente sempre demonstrando ao ser.
..... No fim das contas – e não se trata apenas de uma inclinação fácil a fugir da empreitada analítica –, o melhor analista de João Cabral de Melo Neto é João Cabral de Melo Neto, ou melhor, muito mais precisamente: a melhor analista de sua Poesia, é a própria. O poeta e sua pétrea matéria (de pedra iluminada) não só não poetizam seus poemas como também assim declaram/expressam constantemente ao fazê-lo – como, digamos, dois garotos sobre a água jogando futebol e um fotógrafo os clica ao sol e está tudo certo, o improvável e o difícil se explicitam.
..... Leio o “Pregão Turístico do Recife”. Mais do que um objeto ou um assunto pertinente, no caso uma cidade e através dela o ser humano e sua medida, João Cabral de Melo Neto – sua poética – apregoa uma atenção própria, uma direção específica, um escarafunchamento: o foco necessário para se explicitar o que é embutido ou para se polir o opaco.
..... Releio o “Pregão Turístico do Recife”. Desponta uma espécie de desejo, nostálgico, e paradoxalmente sentimental, de ouvir pelas ruas urbanas ou pela aridez dos desertos um canto parafraseando Caymmi: “Dez horas da noite, o rio e seu peso, quanto mais de perto, mais firme, espesso, mais vivo e desperto. Iêêê, Recife...” – apregoando; para que, atento, o leitor-comprador se debruce sobre este produto peculiaríssimo, que requer cuidados precisos e diz respeito a cuidar precisamente e preciosamente do olhar (um olhar “ao contrário do sono”), olhar-perscrutador-analítico a tatear o mundo e a enxergá-lo cada vez mais nítido, se possível. Podendo o mundo ser: pedra, rio, um ovo, o quatro; uma dançarina andaluza, as chuvas, touradas, mais que as touradas: toureiro; o próprio corpus do poema, uma ouriça, bananas, a cidade de Sevilha e seus mapas; a bananeira; um engenho, um alpendre e habitar o tempo: senti-lo, degustar, inalar, tocar, ouvir, ver, dizer o tempo; fluvial; canavial; um galo e galos, muitos galos, por sobre, por entre, manhã balão; um modo tão próprio de canto que vem sempre harmônico mas na clave inane-musical da antiode, a clave ímpar-mineral da própria educação; quase sempre em par: equilíbrio; cabras e as coisas na cabeceira, fumaça, velório, cão; a arte dos artistas, o melaço e o açúcar, Ademir da Guia, o Não; o Sim contra o fácil, o Sim se for negando, como uma lâmina só corte ou uma cirúrgica psicologia da composição; um relógio; uma bala; cupins, casas, gaiola, água, o poder solar de uma aspirina; cemitérios, símiles, metáfora, casa-grande (e senzala), a morte e a vida, não só severinas; as luzes: suas incidências na superfície das matérias e suas luminescências internas; a palavra, por exemplo: seda, ou por exemplo a palavra seca, o seco e o úmido, Beberibe, traços, Brasília; a sistemática e particular catação do feijão e uma inspeção nas viagens de as Viagens de Gulliver; mulher ao telefone; mulher na poesia; o humano no homem e ainda e sempre: o humano no homem; flauta, frutas, faca, flamenco e o fluir franco do trem de ferro; paisagens, usina, usinas e a arquitetura, as funções de um urubu inimobilizado; nuvens; o chicle dos chiclets e os chiclets e os chiclets, os vazios, outros rios, inclusive os de aquoso pano sujo dos olhos de um cachorro; os mortíferos astros de uma paisagem zero de Vicente do Rego Monteiro; Miró; as artes plásticas em todas as artes, sertão, uma fábula de Joan Brossa, o sertanejo; o amarelo e seus reinos, belos, não-belos, o sol: no agreste ou não, ou seria o próprio sol do Não a todo custo contra tudo o que é escuro com plumas de artifício se enfeitando; Frei Caneca está indo para o patíbulo; inequívoco e arejado, um museu de tudo, letra, livro, tiros; o mundo, enfim... podendo ser: Pernambuco. Ou digamos simplesmente: venha, leitor, turista, aproxime-se – eis o mundo, substantivo (mundo substantivo, por mais que assim se qualifique ao expressar a substância), hei-lo, Capibaribe, olhemo-nos uns aos outros, espie, debruce-se e se clarifique, eis, as palavras são vivos bisturis: Recife.
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