síncopes

.
.
.
.

.
.
.
.
.
.

.
.
.
.

.
.

.

O homem emburrado entra às pressas no zoológico planejando ver os bichos para se acalmar. Tropeça nos amendoins e irrita-se mais; na lanchonetezinha o churro está em falta, aquele bicho raro com pelo bicolor foi levado embora, a iguana está doente. Não é o dia do homem. E ainda a maldita roupa preta sob o sol trucidante! Se ao menos abrissem o zoológico às visitas a noite toda. Mas não. Acabou parando em frente a um dos bichos presentes. Num lamento, pensando alto, soltou essas palavras na cela do hipopótamo: Tem ou não tem vida após a morte? O bicho grande encarou-o como um guarda de trânsito, moveu os lábios longos e disse: E eu é que sei? O homem emburrado, agora assustado, sofreu um tremendo impacto com a fala hipopotômica. Esboçou um início de uma iniciativa de um grito, mas morreu de infarto.
.
*   *   *
.
Após escrever enfarte em letras sinuosas numa folha suja de papel, a mulher morreu de enfarte.
.
*   *   *
.
Após escrever enfarte em letras sinuosas numa folha suja de papel, a mulher morreu de tédio.
.
*   *   *
.
Após escrever enfarte em letras sinuosas numa folha suja de papel, a mulher morreu de raiva.
.
*   *   *
.
Após escrever coração em letras sinuosas numa folha suja de papel, a mulher morreu de enfarte.
.
nov.93
.
.
.

Nenhum comentário: