traço de luz

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Um casal passa numa motoca (moto magra, sem placa nem enfeites, lentamente fazendo pocpoc como um calhambeque). A moça na garupa abraça o rapaz e beija-lhe a orelha direita, durante, ele inclina a cabeça e em direção a ela se mantém beijado com os olhos fechados enquanto o rosto enxerga o céu. É claro que é uma tarde de paz de feriado, a cidade adormecida com os carros cheios de tranquilizantes estendidos em algum tapete dentro das casas lado a lado com os cães, mas não há tempo em que contradiga: o ato existe como um decalque que se destaca e aflora na superfície, como o nascimento de uma filha, como um reverso de moeda, o casal na motoca, beijo, deleite, os quatro olhos cegos se abraçando à minha frente, é locomotiva, se locomove, cara, coroa, volta, ida, a potencialidade máxima da vida precária, pocpocpocpoc.
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12.out.99
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Um comentário:

Andreah Dorim disse...

Deleitei-me, com estas levezas transbordantes... amei mais ainda os desenhos pipocando espontâneos, surpreendentes, incutidos em tudo destes teus trens... Parabéns!