arara

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Quando a arara se viu no Coliseu vazio, e com insuficiência de penas para alçar voo, e com insuficiência de voz para chamar, quis saber por fim o que deveria saber: engatinhar, quando não houvesse mais qu'esporões; ceifar, quando só fosse só bico; e quando, só, pássara, strictu sensu: esfarelar as lágrimas na terra arada, arada de há décadas, de séculos numa era, numa caixa postal sedimentária, agricultura primeva; arar e sair fora – isto é, de pássara passar a planta (voo do crescimento da terra) e o Coliseu como uma lua, planura do sol projetada, escaldante, moeda.
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Ou: coc... coc... olha em volta. Que sedimentação de ausentes platéias. Que distâncias da terra batida, que quebras angulosas da arquibancada. Estas nuvens estão rangendo como uma ferrugem em máquina ou será da muita altitude que as estica – a arara pensa. É a arara no Coliseu sem nem bactérias. Rangendo como eu mais nunca me porei a ranger por minha conta: estou despreparada. O que faço? Não penso. (porque dei meia-volta c'os olhos e o rastro de penas saíra em disparada) Não penso. (porque a lufada que o disparou dispara também o chamado oxigênio e ele agora é um ar que me afoga) Não penso: → ...... ← não posso. Poderia se fosse outra, não sou, nem quero. Mas quis estar nesta mina sanguinolenta onde atritos caíram como usinas em conjunto perdendo a força depois de sentirem no íntimo a soma das cargas mais raios de sentimentos em gozos explosivos de pavores? (O pensamento é silêncio, e habilita assim sua lógica em palavras de só sol.) O sol da arena desfraldada – mas tal noção j'é remota... – na qual no centro ela se indica por não ter memória, se indaga, carbúnculo, óssea, enraízo?
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Ou: barcos que nada, aqui não pode ter vestígios de água, nem portões, impossível, só chacras em ruínas, cracas de ímpetos, trajetos em resquícios de caravelas malfadadas, e ói que secura: não sei por que nem digo isso, não sei como não se entala o diapasão de agudez dessa sovada minha voz de só furar as rachaduras do meu bico (mas ai Deus – que és? – as minhas cordas de uma só braçada não mais grasna mas tatala a rachadura dessa asa asinha, ainda minha?, dobradiça implume desses ossos, que ainda ouço e agora ouça quando roça o pó) é: não, impossível, só chacra menos, menos ímpeto, vestígio mas na água e o portão é de um delgadíssimo indefinismo, ruína no negativo – é a arara, que pensa; uma arara, a sol, a areia em massa, ao se ver no centro do Coliseu, vazia.
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fev.02
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