não um disco, mas prato

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Acordo e tenho um prato de alumínio duplo que corto ao meio a estilete. Meu estilete é daqueles grossos que a palma mal abarca e a lâmina ácida fende resolutamente. O alumínio macio do prato cede à cova rasa que o separa; meia banda, lisa, se estende para o lado, meia banda, lisa, se estende para o outro. Digo: prato de alumínio duplo. Não porque tenha tido dois fundos, ou as bordas superpostas se mimetizassem, nada disso; apenas porque já no prato, uno, ele levava o seu duplo como a folha na carnaúba ou um espelho no escuro, como as sombras são maleáveis. Recebo os dois pratos – meio, meio – e os sirvo; ambos têm base por inteiro embora divididos, úteis. Disse: digo um prato de alumínio, quando deveria ter sido no passado já que o dizer estava lá no início; mas não está – está aqui como esse outro digo e os outros dizeres novos, num bloco, maciço, macio como o alumínio.
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maio.00
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Um comentário:

Andreah Dorim disse...

Diz que este disco repartido instigou a minha fome: prato que mais alimenta e não sacia. Quebrasse, não caía estilhaço, nem gerava o giro deste brilho aluminoso. Reflexo informe revelando o in-visivel.