se sigo

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Se sigo sonhando, imagino o disco: resistente, de aços madeira e couro, óleos avançados, radares; o sinto no voo silencioso e me encosto a ele sem acidentes de percurso – mas despenco, desmorono no rumo. Se sigo realidade, mal vejo o disco e ele existe: meu corpo o subentende mas recuso, o olhar disfarça ao captar seu vulto – e topo no lodo (ou trombo no muro) e o olfato só se desenvolve para esgotos. Se sonho, sonhando realmente, sonhos translúcidos, duros como diamante; se durmo, acordo, resisto ao choque, realmente sendo, nem míope nem sonâmbulo, sonho em realidade – então o realismo: acerto as arestas do disco, raspo seu leme, seu cobre, seu tronco, seu tudo, o dispo de magnetismo inútil, o reconheço, o abasteço, o pulo – do verbo polir – e assim que o toco levemente posso receber seu balanço, estável, verídico, como um aceno; sinto-o, sigo. Realizo o tê-lo para mim, ainda que distante.
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Se sigo prevendo futuros – mas mais que prevendo, vivendo-os, pintando-os, vendo-os sob o meu prisma momentâneo – realmente os ergo, os espicho, materialmente sólidos; – e atravancam, e impedem o tempo, restituindo os evitados danos. Que fazer? diz o zunzunzum dos ratos, o zunzunzum dos pássaros, o zunzuuuuuuuuuuuum do grande silêncio. Desmoronos. Promovê-los, a tempo de esfacelar como uma implosão nos concretos. Diz-se: dinamito – e esta brisa soprando não é um revertério climático, é uma onda de aviso, é o vento do desmoronamento das pontes, abrandando, limpando o terreno.
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Se sigo, sigo.
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abr.99
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