vinte anos

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.... Daqui a vinte anos o trem atropelará os morros
.... Daqui a vinte anos Rebeca será condenada pelo auxílio despretensioso
.... Daqui a vinte anos a lua girará redondo, redondo, redondo
.... Daqui a vinte anos o magnata do petróleo perderá um dente de ouro – no lavabo

.... Daqui a vinte anos os cavalos de Royal Silvery Grass darão um tropeço e strike
.... Daqui a vinte anos os ossos dos cavalos serão cozidos, depois incinerados para um uso obscuro
.... Daqui a vinte anos eu não estarei vendo
.... Daqui a vinte anos a peste bubônica terá voltado

.... Daqui a vinte anos um subemprego no deserto de Nevada será para sempre abandonado
.... Daqui a vinte anos dez pedestres do centro do Rio de Janeiro darão um encontrão nos seus passos convergidos e de seus relógios chocados nascerá um ovo
.... Daqui a vinte anos no centro de São Paulo dona Judite estará bebendo um suco no Largo do Café
.... Daqui a vinte anos gotas frias do silêncio despencarão dos telégrafos

.... Daqui a vinte anos a rosa púrpura do Cairo desabrochará apenas com um peteleco
.... Daqui a vinte anos os mágicos, os acróbatas, o pipoqueiro, enviarão um beijo para aquele fastígio vazado do alto da tenda do circo
.... Daqui a vinte anos, de pé, o macaquinho Choquito sentirá pela primeira vez a dureza da cadeia que o ata ao dono
.... Daqui a vinte anos, com um solavanco, o ônibus despencará em Pernambuco e o rio não correndo assimilará as vinte e três identidades dos vinte e três passageiros

.... Daqui a vinte anos o presidiário estará preso, como hoje
.... Daqui a vinte anos o tráfego aéreo será repentinamente interrompido no entrecruzamento do céu suíço, e os aviões não cairão
.... Daqui a vinte anos um dos alicerces daquele centro empresarial do centro financeiro de Frankfurt ficará podre de repente, de repente, podre
.... Daqui a vinte anos, é inconteste, o céu do Japão terá pequenos cristais que não derreterão

.... Daqui a vinte anos a maquiagem inexplicavelmente borrará no rosto da dona do yorkshire
.... Daqui a vinte anos um câncer, inexplicavelmente, regredirá regredirá regredirá, será nulo, será, quase, como se nunca existisse
.... Daqui a vinte anos, no entanto, uma cicatriz expelirá sua abertura há muitos anos certamente selada para sempre
.... Daqui a vinte anos atores num intervalo de ensaio, jogando truco, farão sem querer com que uma carta vire, e isso parecerá estranho a um deles

.... Daqui a vinte anos o palco estará vazio
.... Daqui a vinte anos o lustre do hall estará muito cheio de pó indistinto
.... Daqui a vinte anos o recepcionista, imóvel, não pegará o chapéu nem fará cara de tolo
.... Daqui a vinte anos o tapete do saguão principal parecerá tão repulsivo, tão repulsivo, tão, tão

.... Daqui a vinte anos num entrechoque de cruzamentos, quero dizer uma encruzilhada, um pombo estará perdido e muito taquicardíaco ao ver-se longe da cidade
.... Daqui a vinte anos, num ramal telefônico, bichos, até então desconhecidos, até hoje desconhecidos, estarão roendo, estarão vivendo dos grãos elétricos se intercomunicando
.... Daqui a vinte anos um voo de ovni passará tão longe, longínquo, que será desprezível a não ser pelo Universo
.... Daqui a vinte anos uma pepita de juncos, um organismo de raízes precioso, ainda será encontrado, profundo, profundamente como recitaria o poeta do topo de sua posição humilde

.... Daqui a vinte anos, num lance de dados, um garotinho terá uma viagem psicodélica sem tóxicos, apenas com a impulsão do próprio pulso
.... Daqui a vinte anos, nesse lance, o garotinho terá a impressão, talvez ilusória, de que os números se entreembolando estarão dando conta do destino do cosmos
.... Daqui a vinte anos a irmã dele, lhe assistindo, não se dará conta disso mas será testemunha e confidente e coparticipante do brilho diferente dos seus olhos
.... Daqui a vinte anos, finalmente, os dados estarão parados na estampa do tapete, depois de rolados, depois de não serem, ao contrário de no momento presente, faces com números de olhos abertos e voltados para o alto

.... Daqui a vinte anos uma fogueira estará rolando
.... Daqui a vinte anos uma serpente, sem medo, não quererá ovos nem filhotes nem ratos, estará rastejante à beira da quebra das ondas da imensidão do oceano, e saberá isso
.... Daqui a vinte anos, como uma bomba-relógio, o jornaleiro antigo sofrerá de engasgo e subitamente não poderá, não poderá dar conta do recado
.... Daqui a vinte anos haverá, evidentemente, prejuízos, mas ai do meu vaso expressará a senhora de chinelos depois do lapso bobo que lhe espatifará o utensílio querido no parapeito dos fundos, os mesmos fundos daquela sua velha casa-mansão em mau estado cheia de gatos ruivos

.... Daqui a vinte anos Alberto encontrará um sentido no dicionário
.... Daqui a vinte anos Alice estará assinando o contrato
.... Daqui a vinte anos, esbugalhado, um anjo estará saindo, finalmente solto, libertado, do esconso, úmido
.... Daqui a vinte anos o arquipélago unido de repente será ilha sem maremotos

.... Daqui a vinte anos o palhaço Carrapicho fará sexo com uma estátua e o conceito dessa cena não será louco
.... Daqui a vinte anos átomos entrarão em concílio, mas será só silêncios, só indiscursos, só Maracanãs fechados pela base do governo a tijolo e às três horas da manhã de um dia injuriosamente santo
.... Daqui a vinte anos não haverá recibo
.... Daqui a vinte anos as nuvens farão um círculo, simples, mas os seres da maior comunidade do mundo estarão de torcicolo, para baixo

.... Daqui a vinte anos, sem registros, o encarregado do serviço público do subúrbio X traço B 200, enviará um protesto para a avenida chique mas o protesto estará contendo a manifestação de que a voz lá deles mais a intenção dos seus desejos nunca chegam, nunca chegam
.... Daqui a vinte anos, em campo aberto, uma florzinha talvez no meio, ocorrerá a disputa mais esperada do século, entre um chimpanzé e um bêbado, entre um fenômeno e um esqueleto, entre uma rainha e um rei, jogando xadrez, eles mesmos as peças ou as peças lançadas uns nos outros
.... Daqui a vinte anos primavera, verão, outono, inverno
.... Daqui a vinte anos primaveraverãooutonoinverno, a cada segundo de um só mês

.... Daqui a vinte anos, disseram, haverá um pré-requisito em todos os guardanapos oferecendo um bom conselho ou melhor dizendo um mero oferecimento literário, sob um certo ponto de vista semialcoólico, é claro
.... Daqui a vinte anos carros de corrida com ventosas subirão prédios e talvez chova combustível se eles se excederem vitoriosos
.... Daqui a vinte anos um elefante atravessará o Atlântico a nado, sem causar alvoroço, sem chamar atenção para o ato, consciente de que será necessário fazê-lo, para si mesmo, para aportar do outro lado, sentir o sabor de outros sucos dos outros matos
.... Daqui a vinte anos os homens continuarão matando

.... Daqui a vinte anos subirá na mesa o lendário açougueiro do bairro e dirá eu, eu... coitado, gago, gago de remorso, gago de uma espécie de pânico, não poderá dizer o que sabe há tanto guardado para ser um dia dito
.... Daqui a vinte anos, nem por um meio nexo, a formiga no lajedo daquela senhora de chinelos não desviará dos cacos e pode-se dizer que atravessar-los-á, passará-los por sobre, não sei se se pode dizer com ímpeto
.... Daqui a vinte anos haverá um momento em que os ponteiros se sentirão falidos, falidos, os ponteiros, se sentirão
.... Daqui a vinte anos, no sulco daquele plantio, nascerá uma espécie de urso, uma espécie de grande novelo, dará um rugido e mal olhando ao léu do horizonte para ele novo, se recolherá de novo, adeus

.... Daqui a vinte anos no esparramento de um chamego, a mão terá o sentido da pele reaceso, olhará o sol, o brilho, como será recorrente o encadeamento extraexposto dos poros
.... Daqui a vinte anos, neste mesmo sítio, entre o mesmo brilho, recenderá o olor ininterrupto, e o olor ininterrupto será a explicitação de um velho sentimento então reemerso mas que as narinas de dentro nem precisarão chamá-lo pelo nome superficial
.... Daqui a vinte anos o sol, o brilho, serão escandidos num átimo, será como o próprio sol se infiltrar, inteiro, e pulsante, no pó, naquele cisco sobre a pele solto
.... Daqui a vinte anos muitos termos vão reencontrar-se, nave, dor, milímetros, barcos

.... Daqui a vinte anos, num brinde, será estabelecida a noite em que a conversa, sem aviso, sem planejamento que se soubesse, de fato se conversará
.... Daqui a vinte anos, num bote, do tamanho de um gigante o homem se sentirá equilibrando-se até a chegada na margem na qual vê uma miniluz, e no frio do seu equilibrar-se verá que não é um bote, é um tampão, é um medalhão de cobre, oxidado, é um escudo em que está sobre, oscilando ambos
.... Daqui a vinte anos, no dia em que um viajante passará do limite, os barbantes que encontrará na ponte estarão atados, a princípio, a pequenos sininhos, mas os sonidos indisfarçáveis que aparecerão da passagem lhe dirão, de chofre, outros anúncios
.... Daqui a vinte anos, no estágio mais seguro de um flamboyant selvagem, o vermelho não só será vívido, será volumoso, será galopante, será o perfume do projeto com sofreguidão obtido mas com muita sinceridade naquele dia escuro, entre suav(íssimos) incensos

.... Daqui a vinte anos será regular basear-se pela base, o que não será, não pode ser um pleonasmo
.... Daqui a vinte anos no auge do açoite, a mão, o pulso, mesmo de longe, segurará o raio do bruto deus que achincalha-se
.... Daqui a vinte anos, no cerrado, encontrar-se-á uma cachorra, cã, cadela, cadela, amamentando
.... Daqui a vinte anos na decapitada perna das alporquias da figueira, gota-a-gotejará um sangue, é o sangue que vem do outro lado, escuro e doce sangue, tingirá o chão, em estranho porém vasto e radiante carinho numinoso

.... Daqui a vinte anos, entrementes, as trouxas serão largadas e as lavadeiras de costas nem darão bola às suas derivações
.... Daqui a vinte anos as tubulações do bairro sairão para fora, sairão para fora não será nem é outro redundantismo
.... Daqui a vinte anos a cobrança da conta absurda será ainda mais absurda e não haverá maneira ainda menos poética de dizer isso
.... Daqui a vinte anos as Poéticas, de Aristóteles, de Horácio, de todos os nossos cérebros, estarão boiando como as trouxas – e quem será lavadeira de costas, se indo?

.... Daqui a vinte anos serão vinte anos a mais num certo grau de sentido
.... Daqui a vinte anos terão se passado vinte anos, irrisórios, num outro certo grau
.... Daqui a vinte anos o barro terá de ser reacondicionado e, nele, reempilhado o livro sobre os livros
.... Daqui a vinte anos haverá um termo para definir-se, assim

.... Daqui a vinte e cinco anos muitos dos que estão nascendo terão vinte e cinco anos na idade
.... E muitos de nós, mas muitos mesmo, estarão mortos enquanto alguns poucos de entre nós todos estarão vivendo e vivos;
.... Todos estaremos morrendo;
.... O que, no mais, não será novidade, pois é o que já ocorre e o que sempre acontecia, ainda ontem, ou anteontem

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maio.06
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Um comentário:

Anônimo disse...

que daqui a vinte anos tu ainda estejas escrevendo. e encantando a todos aqueles que, daqui a vinte anos, ainda estejam por aqui encantados com o que lêem do escrito por ti...
HA