"carrossel, vendaval..."

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Ouço "Estrelada" e logo me vem você descalça, vestida num vestido verde e colar que eu crio, dançando suave num filme entre outras imagens cujo adjetivo divinas só pode ser o mais preciso. Disciplino: é a última imagem, não posso mais me meter a besta com tanta alucinação a esmo. Mas já a própria imagem e filme e dança e o colar em você e o vestido (autonomíssimos), mais de quebra um voo sobre a Terra realíssimo, se impõem com tamanho pulso e ímpeto que o futuro se abrindo só pode ser – o cru racionalismo que me perdoe – só pode ser este estágio entre o palpável (incomensurável) e o idílio, o sol saindo e o daqui a pouquinho, o relativismo ativo da medida geométrica e gráfica das distâncias de todos os tipos.
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jul.98
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A Dança, 1910 - Henri Matisse
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s.e. VII

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.......... João Guimarães Rosa terminou de escrever Triste Fim de Policarpo Quaresma no dia 8 de março de 1914, mesma data em que Edgar Allan Poe compôs o triunfal poema "Uma Carniça". Se as coincidências ainda não são tão cheias de evidência, é que o fubá ainda não foi pro fogo.
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17abr09
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outonais

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O Outono é o Tempo caindo em folha.
O Outono é o Tempo caindo novo, em folha.

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dez.97
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Há um casebre sobre um morro, bem cuidados, o morro e o casebre, é só olhar e a porta se abre, sarças de tapete levam o caminho até lá. No alto do alto um gavião branco planando; ao lado, uma gaviã. Não será só o outono que brota em mim um fruto como esse. O outono é em mim como um botão de jaleco, como o segredo do cofre, mas eu – outono – já sou ele, nele, para ele, antes, desde durante, o tempo anterior aos outonos. Anterior ao sono, anterior à sede, anterior à fome. Como esse, como esse, como esse.
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abr.98
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O azul de um cabo de vassoura, um telefone público, um asfalto como uma superfície de lua; um carro limpo, um carro sujo, uma luz dentro da sombra; um cavalo à distância, a distância entre o cavalo e quem o olha, uma lâmina; um helicóptero, uma seta indicando, uma pessoa; o amarelo do verde, um subverde escuro, um prédio de frente; um avião longínquo, um hieroglifo de galhos, a entrada de um túnel; um lixo contido na boca do lobo. É incrível, a luz do outono enobrece tudo, é incrível.
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maio.98
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Do brilho da tua testa, como um jade incrustado. Do silêncio da câmera dos sonhos sobrevoando os oceanos. Do som da palavra pétala e seu significado. Do som dos arcos compondo as pontes – e os reflexos de côncavo ao contrário formando túneis do horizonte. Do soma Outono + O Perfume Na Sua Pele. Da soma inusitada equacionando as nossas sedes. Do brilho da tua tez, como um disfarce, desvencilhando-se. Da centelha da luz da explosão que nos fez, espraiando-se. Da fímbria do cosmonauta em seu próximo passo, e o aço e o sol de Mishima testemunhando. Do silêncio da câmara dos mortos rompendo as rochas fendidas. Do silêncio da câmera dos sonhos mergulhando os oceanos, sem asfixias.
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jul.98
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E se a vida for mesmo um chato compromisso. E se a vida for o caminhão batendo na árvore desmorona dez galhos porque quer transportar o piano e só pensa isso. E se a vida é mesmo o idoso que sentado no hospital público olha os cambitos, por que a franja do camisolão não revela aquela pele cheia de músculos do passado? E se a vida for só pregar um hussardo no topo de um caderno ou uma mademoiselle embaixo, sem sentido como aquele desgraçado Macbeth comparando o sentido a um ator em cena cheio de gestos abobalhados. E o aceno desenha – por um momento – um apelo, um socorro, um alento, um traço alegre de arquiteto ou esboço de Da Vinci, grupo de rascunhos que, somados, dão nesse único aceno que arrasta o ar, se incandesce nele, dá o recado. Se a vida for um grande recado, o pequeno escrito rola com o vento, a folha engolfada depois de cair de madura, irresistindo, sai virando no certo e no avesso no certo e no avesso e é como se o seu barulho estivesse dizendo, quase em eco, se afastando: Grande Outono, Grande Outono, Grande Outono...
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dez.00
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Chega, Outono, vem com seu brilho. Seu brilho (obviamente) luminoso, não-violento, intenso de suave ave. É o brilho fosforescente de dentro do que fosforesce quando se pensava que a luz já não tinha aonde ir – e com uma capa (de luz) que aplaca a sua possibilidade de ferir, que não o deixa destruir. Pelo contrário. É o brilho do que surpreende como o tique-taque sempre novo como o estalar dos ossos não-monótono como um chafariz pulverizando o rosto como uma flor abissal saindo do oceano como a mulher que a moça se decidiu ser ou qualquer coisa assim que se desencasula no seu estado claro; é de menos que um dia prum outro. É o chamado brilho de outono e eu hei de falar dele. O querer falar – e daí poder-se-ia ir, naturalmente se vai para: só ser, estar – é ele mesmo. O outono enquanto neve; o outono enquanto fogo; o outono transparente de tijolos nutrientes feitos disso. Outono: o ar. Fluxo: a hora do instante chegando, tácito.
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mar.01
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tanka

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..................... A baleia grávida
..................... incendeia trajetórias
..................... desafoga lutas
..................... desvirtua toda queda
..................... para que subam as fossas.

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set.07
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questão de carteira

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Gostaria de voltar para casa depois do gosto desse dia péssimo, de empapuçado de serragem na boca até a boca do estômago, de prensado entre medidas sem rosto, de alegre errado ou de alegre em erro, dia tóxico como muitos buracos, que pipocam no caminho que pipocaram antes que pipocarão muito depois dos fracos consertos, dia mágico, de ovo choco, que revela o podre de seu claro elíptico, dia contraditório pois não prometia nada e ainda assim decepciona; e, daí voltando, ainda ter energia de operar resultados, ânimo de preencher indícios, a falta de algarismos em seção de cálculos ainda não equacionados, períodos, lacúnicos, achar a cor certa daqueles quadrados que na placa do cubo se movem todos quando se mexe em um dos segmentos, encaixar os filetes de jacarandá na cor do mogno ele polido e reto no tabuleiro de um novo jogo, fazer pingentes de diamante que de um móbile acentuado transmita um ponto indefinidamente luminoso do seu iridescente colorido; ainda descobrir achados, ainda encaixar fatores, ainda sob o foco concentrado fazer acessos no que é fechado. Mas entro na casa, estou dentro: e no seu canto escuro de chão batido só há uns torrões dispersos ao redor de uma carteira em couro preto. Os torrões a sujam, ela se adere ao piso, mas ainda brilha um pouco e seria útil, mas está vazia – eternamente aberta e sem porta-dinheiro ou documento, vazia, é possível ainda o clic do fecho, mas aberta ou fechada é o mesmo, sempre magra, fina, aberta espera uma ocupação um recheio, fechada espera que a abram para coisa nenhuma, para dizer aqui é meu mundo daqui não me tiro, não por opção mas por condição que impuseram, impuseram quem, não sei, sou assim sendo, assim vou ficando. E que resto de incidência é esse, de holofote, como de uma distante tocha canalizado, que atravessa e chega desde o ponto onde nasce e permite: ver a carteira exangue, apesar da casa tanta, tanto no canto de seus escuros escuros de dentro de dentro, abafada?
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dez.00
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s.e. VI

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.......... A dor é um centro de atenção. É preciso descentralizá-lo.
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10maio01
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s.e. V

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.......... A carne entre as costelas afunda-se até o outro lado, que afunda-se até seu outro lado.
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30nov93
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