outonais

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O Outono é o Tempo caindo em folha.
O Outono é o Tempo caindo novo, em folha.

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dez.97
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Há um casebre sobre um morro, bem cuidados, o morro e o casebre, é só olhar e a porta se abre, sarças de tapete levam o caminho até lá. No alto do alto um gavião branco planando; ao lado, uma gaviã. Não será só o outono que brota em mim um fruto como esse. O outono é em mim como um botão de jaleco, como o segredo do cofre, mas eu – outono – já sou ele, nele, para ele, antes, desde durante, o tempo anterior aos outonos. Anterior ao sono, anterior à sede, anterior à fome. Como esse, como esse, como esse.
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abr.98
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O azul de um cabo de vassoura, um telefone público, um asfalto como uma superfície de lua; um carro limpo, um carro sujo, uma luz dentro da sombra; um cavalo à distância, a distância entre o cavalo e quem o olha, uma lâmina; um helicóptero, uma seta indicando, uma pessoa; o amarelo do verde, um subverde escuro, um prédio de frente; um avião longínquo, um hieroglifo de galhos, a entrada de um túnel; um lixo contido na boca do lobo. É incrível, a luz do outono enobrece tudo, é incrível.
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maio.98
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Do brilho da tua testa, como um jade incrustado. Do silêncio da câmera dos sonhos sobrevoando os oceanos. Do som da palavra pétala e seu significado. Do som dos arcos compondo as pontes – e os reflexos de côncavo ao contrário formando túneis do horizonte. Do soma Outono + O Perfume Na Sua Pele. Da soma inusitada equacionando as nossas sedes. Do brilho da tua tez, como um disfarce, desvencilhando-se. Da centelha da luz da explosão que nos fez, espraiando-se. Da fímbria do cosmonauta em seu próximo passo, e o aço e o sol de Mishima testemunhando. Do silêncio da câmara dos mortos rompendo as rochas fendidas. Do silêncio da câmera dos sonhos mergulhando os oceanos, sem asfixias.
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jul.98
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E se a vida for mesmo um chato compromisso. E se a vida for o caminhão batendo na árvore desmorona dez galhos porque quer transportar o piano e só pensa isso. E se a vida é mesmo o idoso que sentado no hospital público olha os cambitos, por que a franja do camisolão não revela aquela pele cheia de músculos do passado? E se a vida for só pregar um hussardo no topo de um caderno ou uma mademoiselle embaixo, sem sentido como aquele desgraçado Macbeth comparando o sentido a um ator em cena cheio de gestos abobalhados. E o aceno desenha – por um momento – um apelo, um socorro, um alento, um traço alegre de arquiteto ou esboço de Da Vinci, grupo de rascunhos que, somados, dão nesse único aceno que arrasta o ar, se incandesce nele, dá o recado. Se a vida for um grande recado, o pequeno escrito rola com o vento, a folha engolfada depois de cair de madura, irresistindo, sai virando no certo e no avesso no certo e no avesso e é como se o seu barulho estivesse dizendo, quase em eco, se afastando: Grande Outono, Grande Outono, Grande Outono...
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dez.00
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Chega, Outono, vem com seu brilho. Seu brilho (obviamente) luminoso, não-violento, intenso de suave ave. É o brilho fosforescente de dentro do que fosforesce quando se pensava que a luz já não tinha aonde ir – e com uma capa (de luz) que aplaca a sua possibilidade de ferir, que não o deixa destruir. Pelo contrário. É o brilho do que surpreende como o tique-taque sempre novo como o estalar dos ossos não-monótono como um chafariz pulverizando o rosto como uma flor abissal saindo do oceano como a mulher que a moça se decidiu ser ou qualquer coisa assim que se desencasula no seu estado claro; é de menos que um dia prum outro. É o chamado brilho de outono e eu hei de falar dele. O querer falar – e daí poder-se-ia ir, naturalmente se vai para: só ser, estar – é ele mesmo. O outono enquanto neve; o outono enquanto fogo; o outono transparente de tijolos nutrientes feitos disso. Outono: o ar. Fluxo: a hora do instante chegando, tácito.
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mar.01
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Um comentário:

Anônimo disse...

Edu, Edu, lindo lindo esse seu outono feito de outonos... é a minha estação preferida, ainda por cima. Estás a escrver lindamente, amigo. Um beijão da Pati.