questão de carteira

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Gostaria de voltar para casa depois do gosto desse dia péssimo, de empapuçado de serragem na boca até a boca do estômago, de prensado entre medidas sem rosto, de alegre errado ou de alegre em erro, dia tóxico como muitos buracos, que pipocam no caminho que pipocaram antes que pipocarão muito depois dos fracos consertos, dia mágico, de ovo choco, que revela o podre de seu claro elíptico, dia contraditório pois não prometia nada e ainda assim decepciona; e, daí voltando, ainda ter energia de operar resultados, ânimo de preencher indícios, a falta de algarismos em seção de cálculos ainda não equacionados, períodos, lacúnicos, achar a cor certa daqueles quadrados que na placa do cubo se movem todos quando se mexe em um dos segmentos, encaixar os filetes de jacarandá na cor do mogno ele polido e reto no tabuleiro de um novo jogo, fazer pingentes de diamante que de um móbile acentuado transmita um ponto indefinidamente luminoso do seu iridescente colorido; ainda descobrir achados, ainda encaixar fatores, ainda sob o foco concentrado fazer acessos no que é fechado. Mas entro na casa, estou dentro: e no seu canto escuro de chão batido só há uns torrões dispersos ao redor de uma carteira em couro preto. Os torrões a sujam, ela se adere ao piso, mas ainda brilha um pouco e seria útil, mas está vazia – eternamente aberta e sem porta-dinheiro ou documento, vazia, é possível ainda o clic do fecho, mas aberta ou fechada é o mesmo, sempre magra, fina, aberta espera uma ocupação um recheio, fechada espera que a abram para coisa nenhuma, para dizer aqui é meu mundo daqui não me tiro, não por opção mas por condição que impuseram, impuseram quem, não sei, sou assim sendo, assim vou ficando. E que resto de incidência é esse, de holofote, como de uma distante tocha canalizado, que atravessa e chega desde o ponto onde nasce e permite: ver a carteira exangue, apesar da casa tanta, tanto no canto de seus escuros escuros de dentro de dentro, abafada?
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dez.00
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