atmosfera

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................. Você acha que o que me importa é as palavras?
................. Nem as letras.
................. O que me importa é o ar.
................. O ar da Indochina
................. O ar do Jardim das Oliveiras
................. O ar de Ubatuba
................. Me entenda.

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jul.05
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s.e. XIII

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.......... Inquebrantáveis: os móveis, a telha e seu vão, a conquista de si sobre si consciente em certos jás; o duplo azulejo que saltou e – sumido – ond'é que se meteu.
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20set01
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s.e. XII

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.......... Balé, sobre um vasto fino vidro, inquebrantáveis.
20set01
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badalo

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.............. O cão gane no centro da noite
.............. Meus olhos se abrem
.............. Ninguém vê seus brilhos
.............. Dois brilhos no breu.
.............. O cão gane.
.............. Gane, gane, gane.
.............. Agora um uivo longe
.............. Vertical na densidade.
.............. Meus olhos não podem se abrir mais
.............. No entanto não se respondem.
.............. O uivo do cão nos indaga
.............. E nos sustenta na noite.
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fev.97
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3 comos

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..... 1. COMO A CHUVA
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...................... Não há nada como a chuva caindo
...................... Não há nada como ouvir os pingos
...................... Não há nada como o conjunto água
...................... ocupando jazigos, palmas, os ásperos sítios

...................... Céu se unindo, mente-coração-espírito

...................... E este braço que sinto: não é meu
...................... E esta cama que imprimo: tão Deus quanto
...................... Este ar que reciclo
...................... Este habitat que inflo
...................... Letra que risco
...................... ...................... ......................
...................... C
...................... Chhhhh...
...................... A chuva surgindo
...................... – Eras se liquidificam
...................... Eu me mim nós todos
...................... Respeito
...................... Respiro
...................... Respingo

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..... 2. COMO O SER
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...................... Nada como ouvir os sinos
...................... Seus míticos ritmos
...................... Íntimo coletivo

...................... Nada como ouvir os hinos
...................... Olímpicos sozinhos místicos
...................... Dos abismos marítimos

...................... Nada como ser digno

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..... 3. COMO O COMO
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...................... Comocomocomocomocomocomocomo
...................... O ser que como comendo-me
...................... Recomendo-me a mim
...................... Não antropofágico
...................... Antropológico
...................... A lógica do como questiono
...................... Como – um reflexo
...................... Como – um neurônio
...................... Como – uma secretária eletrônica
...................... Como um trem e um trilho em movimentos
...................... Como como como como
...................... Como como como como

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abr.98
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parada em sinal

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Sobre o planalto há uma cidade triste, ela tem muitas luzes, ágeis, com foco, que trocam de lugares varrem os caminhos se acariciam, dão vida aos objetos que encostam e de que saem; é uma cidade de muitas pessoas que logicamente controlam essas luzes; cada uma sem exceção tem pelo menos duas dores, seja de um pescoço, uma cabeça, um pulmão ou um joelho inchado ou de um arrependimento ou um compromisso aflitivo; reclamam, mas a voz é mais para elas mesmas ou para seres ou seres inanimados próximos, sem um dispositivo útil, produtivo no entanto para manterem o hábito, este hábito, de estar vivas; há um ar tóxico, mas não percebem ou não mais fazem questão dele ser perceptível, muito barulho é recomendável, assim como perigos iminentes, pois garantem uma impressão salutar de vida pulsante, de vida de constantes possibilidades, e acontecimentos bruscos é um tópico que recomenda-se na medida em que, violentos, dinâmicos sem aviso, com choque, causam arroubos de humanismo e reflexões transitórias, sacudidas – e há um anestesiamento uníssono em meio ao agito e ao tráfico que justamente os justifica, se coaduna com eles. A cidade é enorme. Lugar de muito espaço em que cada um não tem quase. Espalha-se sobre esta localidade, em seus poros, todos os buracos, naturais ou construídos. (A criança, tem uns 5/4 anos, parece 7, 9, pede uma moeda – c' tem trocado? – quando, motorista, você para no sinal de trânsito. Não tenho – você não tem moeda alguma no momento. Da máscara cara salta um doce sorriso, sincero, porque você sabe que só com alegria, com uma aceitação enérgica, um positivismo airoso ou uma curiosidade sentida, é possível enfrentar os problemas e se interessar pela vida e seguir levando. Mas que movimento é esse da sua mão logo abaixo, de rasga-o-papel, rói-se-por-dentro, amassa-a-faca? Você não o vê, está olhando a criança, mas é como se o visse; e vê como nunca se movimentara tão rápido, dedos histérico-concentradamente.)
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maio.01
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s.e. XI

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.......... A falta de perfume no dia faz do dia um india - uma conotação de tijolo em estado puro. (Nem que fosse só um rastilho rápido; mecha da cabeleira de Netuno, fio de um náufrago de transatlântico, pó de mero sargaço.)
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20maio09
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trilogia ávida

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......... Um lugar a cada estética
......... Um direito a cada ética
......... Mas que importa
......... Nada mais bonito que uma grávida

......... Uma grandeza benéfica
......... Uma riqueza conseguida
......... Mas o que sobra
......... Nada mais maior que a alma impávida

......... A mão pesada da injustiça
......... Um doce amargo que se evita
......... Mas não amola
......... Tudo endossa a crença de que há vida

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jul.98
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s.e. X

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.......... A poesia diz o tempo passa. Enquanto o homem, esquelético no seu abismo, segura a rosa.
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10jun98
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s.e. IX

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.......... Uma brisa abrasiva, efêmera como um Teatro; uma brasa cintila sob a água que o céu alforria (ainda que a expressão efemeridade seja muito mal entendida). A nuvem de sempre
.......... que não se repete, uma essencia
.......... lidade repercute, um jarro de suco
.......... puro, a direção de uma rua renovada ao contrário no espelho do táxi.
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25maio98
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o otimista mudado

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............... Esmorece, mundo sem pressa
............... Tua meta é falsa como a besta
............... Latindo sem consciência
............... Esmorece, mundo às avessas
............... Tua pressa oca é de ovo sem gema
............... E a clara escura é de pura gangrena
............... Se mancha, mundo sem jaça
............... Tua asa há muito já foi desfolhada
............... Sem nem bem se sentir alçada
............... Se apaga, mundo sem chama
............... Teu círio não se eleva além da conta
............... E a parafina grossa não se altera
............... Se acaba, mundo sem nada
............... Tudo são plutônios condenados
............... Cindidos em latência

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jul.98
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s.e. VIII

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.......... Raskólnikov, não esqueço teu sonho do cavalo.
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2nov93
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