parada em sinal

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Sobre o planalto há uma cidade triste, ela tem muitas luzes, ágeis, com foco, que trocam de lugares varrem os caminhos se acariciam, dão vida aos objetos que encostam e de que saem; é uma cidade de muitas pessoas que logicamente controlam essas luzes; cada uma sem exceção tem pelo menos duas dores, seja de um pescoço, uma cabeça, um pulmão ou um joelho inchado ou de um arrependimento ou um compromisso aflitivo; reclamam, mas a voz é mais para elas mesmas ou para seres ou seres inanimados próximos, sem um dispositivo útil, produtivo no entanto para manterem o hábito, este hábito, de estar vivas; há um ar tóxico, mas não percebem ou não mais fazem questão dele ser perceptível, muito barulho é recomendável, assim como perigos iminentes, pois garantem uma impressão salutar de vida pulsante, de vida de constantes possibilidades, e acontecimentos bruscos é um tópico que recomenda-se na medida em que, violentos, dinâmicos sem aviso, com choque, causam arroubos de humanismo e reflexões transitórias, sacudidas – e há um anestesiamento uníssono em meio ao agito e ao tráfico que justamente os justifica, se coaduna com eles. A cidade é enorme. Lugar de muito espaço em que cada um não tem quase. Espalha-se sobre esta localidade, em seus poros, todos os buracos, naturais ou construídos. (A criança, tem uns 5/4 anos, parece 7, 9, pede uma moeda – c' tem trocado? – quando, motorista, você para no sinal de trânsito. Não tenho – você não tem moeda alguma no momento. Da máscara cara salta um doce sorriso, sincero, porque você sabe que só com alegria, com uma aceitação enérgica, um positivismo airoso ou uma curiosidade sentida, é possível enfrentar os problemas e se interessar pela vida e seguir levando. Mas que movimento é esse da sua mão logo abaixo, de rasga-o-papel, rói-se-por-dentro, amassa-a-faca? Você não o vê, está olhando a criança, mas é como se o visse; e vê como nunca se movimentara tão rápido, dedos histérico-concentradamente.)
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maio.01
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