s.e. XV

.
.
.......... Machadada em meu peito – abre-se o vento. Abre-me o sangue, de dentro, do vento em meu peito.
.
27set93
.
.

a gente sempre se encontra às três da manhã a quilômetros de distância

.
.
.
.......... Era pra ser escrito
.......... um poema sobre isso.
.......... Mas as palavras como sonâmbulas
.......... se encontram táteis
.......... mas sem córneas
.......... nas ruas em que aos gritos
.......... as mesmas ruas em que aos gritos
.......... corri com seu nome aos gritos
.......... na rouca boca sem dar conta.
.......... Havia também a questão de uma rosa
.......... (depois explico).
.......... A questão de uma rosa meus gritos você invariavelmente indo
.......... nas ruas sonambúlicas do sonho
.......... talvez muito próximas
.......... às do assalto que deixaria
.......... seu irmão cego.
.
jun.09
.
.
.

s.e. XIV

.
.
.......... A pérola encapsula um grão de luz cuja potência chega ao cubo de trinta sóis. Esta pérola não está em concha, em areia, nem no mar; está na pedra sob as pedras sob a terra sob as terras do altiplanalto cuja vegetação foi embora. Cuja vegetação talvez vá voltar.
.
13maio09
.
.

senhor k.

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
..

.

O Senhor Franz Kafka está a escrever na sua casa-gabinete-de-trabalho alugada adrede à Rua dos Alquimistas. O abismo do fundo lança-se em extensão com a cidade, com as fronteiras que a circundam, com as nações coligidas pela goma dos mares. Com a tinta, com as penas, nas manchas da mesa, no solho frio, na porta sem tranca, de que porta falo? Há lugares, frases, em que as palavras não são dispersas, elas se sucedem como a natureza tem razão ou razões em cadeia. Nem todos; nem todas as medalhas escorrem uma tinta-sangue se espremidas. O Senhor Franz Kafka está a escrever na sua casa-gabinete-de-trabalho alugada adrede à Rua dos Alquimistas. Sonhos, papéis de bala, um guarda-chuva aos frangalhos e depositado ao meio-fio por uma rajada de granizos. Vultos de histórias não contadas atravessam as pontes no inverno, pedalam, galopam, marcham, deslizam – empurram e puxam, tem de braços dados. Uma nuvem com raio avoluma-se, move-se, e esteve assim mesmo na Europa sobre uma cidadezinha à época da 2a guerra; outra aproxima-se e esta passou por uma batalha e viu suas flechas antes de Cristo. Uma cachoeira repentinamente surgindo em meio ao rio que corria liso, uma princesa quebra o espelho com ódio de ser rica, estouro de boiada, o lampião vaza o óleo sobre quem passa embaixo numa esquina do século 18, radioestesia, tremores de terra, desassossego distante de um pigmeu na montanha, desassossegos distantes, desassossego, no fim da tarde uma fragata voa. Sim, os granizos são muitos: um foi de enxofre, outro de plásticos, outro de estalagmites em miniatura, outro de pedras, outro de gelo. O Senhor Franz Kafka está a escrever na sua casa-gabinete-de-trabalho alugada adrede à Rua dos Alquimistas. Em algum lugar há um rabisco de cara sobre letras rascunhadas, há um livro cheirando a mofo e útil embutido, há dois milhões outros queimando num tacho e um cachorro junto jogado nas chamas, pétalas se evolam, não são cinza, estarão os papelões ardendo dentro do calor aéreo de uma forma que não vejo e todavia legíveis se perguntará o homem de smoking que casualmente depara-se. Uma janela abre: rajada. A primeira engrenagem de relojo começou a funcionar em que ano. O primeiro cão em que ano late. O primeiro monjolo e escravo. Dentro de um disco de não sei quantas rotações havia um bilhete em vermelho, escrito eu não pude ler direito, a dona que não era a dona do bilhete pois comprara o disco num sebo jogou o vinil no lixo depois de esmigalhá-lo por estar estragado e depois rasgou o bilhete e também jogou-o depois de considerar a hipótese de guardá-lo e até pregá-lo no seu mural, “aquela mensagem chegou a ser lida pelo destinatário” ninguém se perguntou, aquelas músicas das faixas concentricamente foram ouvidas num dia de agosto de 1976 por um velho asmático, muito velho, muito asmático, e isso o fez melhorar (na ocasião). O Senhor Franz Kafka está a escrever na sua casa-gabinete-de-trabalho alugada adrede à Rua dos Alquimistas. Senhores, naufrágios, as expressões empilhadas sistematicamente, exclamações paralelas como gavetas de armários de arquivos de secretarias, is ao contrário, o ponto-e-vírgula de uma imprecisa previsão do tempo. Eu vou discursar? Eu vou me contornar no meu próprio corpo? Levantando este pé e depositando este embrulho temporariamente de lado, de mãos livres para abrir minha capa e erguer meu chapéu, mais os gestos ao cantarolar cânticos inventados depois da fala? – é o que pensa, não em voz alta, um engenheiro-mecânico ao sair do trabalho e perceber a luz da lua na calçada, e por isso seguiu com o olhar até a fonte branca de onde vinha, ajeitou a lapela, lembra de comprar cigarros, agora deu dois passos com um desvio porque a moça que há poucos segundos descia no alto elevador do outro prédio cruza-lhe a passagem e o seu perfume passageiro impregna-lhe até a raiz dos cabelos enquanto passa e sumirá no caminho. O Senhor Franz Kafka está a escrever: na sua casa-gabinete-de-trabalho alugada adrede à Rua dos Alquimistas.
.
set.01
.
.
.
.
.
.
.
.

.
.
.
.
.
.
.
.

..
.
.
.
página manuscrita do final de
O Veredicto, setembro de 1912
.
.

geraldo com texas

.
.
.
Aqui, entre a Geraldo Bourroul e a Rua Texas, esta rua brasileira de nome gringo, existe um botequinho de esquina que se mantém antigo, na mesma atitude, no balcão de mármore, na cachaça, no tamanhinho. Outros havia; aquele, da outra esquina, hoje tem chão moderno, cerâmica xadrez de quadrados brancos e pretos; um outro virou quase-restaurante; os outros foram abaixo. Aquele primeiro, este, o da esquinazinha aqui perto, ainda oferta a marca de copo, a cachaça nele, o bebente apoiado, o balcão-lhe embaixo. O balcão-lhe embaixo. De mármore aberto, branco antiquado. Mas São Paulo é tão na vibração do abismo, que sinto que ao terminar esse escrito o bar já não mais existe.
.
abr.09
.
.
.