cena que cai em si

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No palco negro, ao som desta Rapsódia Húngara número 5 de Liszt ou algo do gênero, um ator, lá no fundo, no canto esquerdo, faz com que uma pequena chama seja acendida. Coloca-a num candeeiro. A luz aumenta um pouco. À frente, à direita, na boca de cena e local diametralmente oposto, outro ator acende outra chama e usa outro candeeiro. Aos poucos vasculham. Dirigem-se ao centro. Aí, no campo da penumbra, vão aparecendo os corpos: pilha de bonecos, manequins, reproduções nuas de pessoas. Os atores – sempre nunca se vendo um ao outro – levantam o candeeiro cada um a seu tempo e lentamente notam que o amontoado se trata de muito mais do que aparentava. Trata-se de uma espécie de tronco, cujo corpo se prolonga e se alarga em imensa copa, copa e tronco e galhos e folhas, não se vê o fim, tudo de corpos. Os atores circundam, contornam o gigante objeto. Sempre nunca se vendo – um vai em sentido horário, o outro também; e estão praticamente no mesmo ritmo, e começaram nos pontos opostos. Entre, no centro, a coisa e o seu gigantismo; vai se iluminando por diversos aspectos, por diferentes acessos que os candeeiros sondam. Quando, depois de tempos, os atores finalmente se encontram – há espanto, reconhecimento, um silêncio estático e emotivo –, a estrutura toda desmorona e os soterra de corpos.
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jun.09
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Um comentário:

Josias disse...

Uma deliciosa condução visual por uma cena que se anuncia num palco, mas que acontece mesmo é na literatura.
O título somado ao final óbvio depois do inusitado, revelam o verdadeiro caráter de um texto que, em princípio, podemos vê-lo apressadamente como uma proposta de cena a ser realizada no teatro, mas que ao final percebemos ter visto tudo ali mesmo com as palavras. Com a poesia de uma proposta que bem daria uma série de outros textos.
Pense nisso, monsieur!
Abração do Jo!