stagefright...

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Stagefright para dentro

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.ou o “buraco num céu de papel”
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um ligeiro abrir de cortinas
sobre o palco de Pirandello e Pessoa
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originalmente para "Literatura Portuguesa V",
disciplina do prof. Caio Gagliardi,
curso de Letras, USP, primeiro semestre 2009
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O poeta pode ser um fingidor, segundo
a fórmula célebre de Fernando Pessoa, mas sob a condição
– verdadeiramente primordial – de que saiba fingir.
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Sérgio Buarque de Holanda, “O Abismo e a Ponte – I”
(in O Espírito e a Letra – Estudos de Crítica Literária II, 1948-1959)
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Fernando Pessoa (1888-1935): escritor português que “nunca, em toda sua vida, se abandonou a espalhafatos e a declamações” (ainda que vez ou outra, aristocraticamente, confiasse tal tarefa a Álvaro de Campos, como um “senhor que encarrega o seu mordomo de repreender os importunos”) (TABUCCHI, p.15). Luigi Pirandello (1867-1936): escritor siciliano que, embora sempre “ensimesmado, que não se sentia à vontade no mundo da ação, consciente do conflito incessante entre pensamento e fluxo de vida” (BRADBURY, p.182), de enorme popularidade nas primeiras décadas do século XX, que teve suas peças encenadas em todo o mundo, que causou alvoroços sociais como o da noite de estreia de Seis Personagens à Procura de um Autor, em 1921, quando, “mais de meia hora após o fim do espetáculo, tentou sair, foi agredido e insultado” (RÓNAI, p.126). Em 1934 Pessoa publica seu único livro em vida, Mensagem, e morre no ano seguinte; Pirandello, no mesmo ano, já famoso, chega ao auge do reconhecimento com a conquista do “Oscar” literário, o Prêmio Nobel de Literatura.
.....Pessoa, como funcionário comum e tradutor de cartas comerciais, que assumia seu “apagamento nulo de esfinge de papelaria” (PESSOA, 2003, p.90), foi uma espécie de negativo de Pirandello em termos de popularidade, sendo “também na vida uma personagem exemplar da literatura do nosso século” (TABUCCHI, p.26), como se compartilhasse do limbo existencial em que algumas das personagens pirandellianas vivem – “voltem todas três ao limbo!” exclama o narrador de “A Tragédia de uma Personagem” (PIRANDELLO, 1988, p.132), conto-gênese de Seis Personagens, em que a condição do sexteto recusado seria justamente essa angústia metafísica de se encontrar à deriva em tal limbo.
.....Personagens recusadas. Pirandello questiona em seu famoso prefácio à peça: “Mas acaso será possível representar uma personagem, recusando-a?”. Fernando Pessoa ele-mesmo (mas aquele ele-mesmo mesmo, o António Nogueira, o caminhante da Baixa que nunca vimos em estado bruto e que talvez só encontremos quando realizada a Máquina do Tempo), é o caso de imaginar se esse Pessoa não teria questionado, não Caeiro nem Reis nem Campos nem mesmo o Fernando Pessoa ortônimo, mas lançado a si, à sua existência comum de ser humano: “Mas acaso será possível representar-me a mim, recusando-me?”.
.....Mas as diferenças à distância poderiam parar por aí e dar lugar a inúmeros parentescos de ordem estética e existencial, inclusive no aspecto social, já que Pirandello, no fim da vida, também foi “uma espécie de exilado sem lar” (BRADBURY, p.188). Consideremos, por exemplo, o período em comum (Pirandello morreu um ano depois de Pessoa, mas nascera 21 anos antes) e que 1914 pode ser um marco artístico na vida de ambos: para o lusitano, data de seu “dia triunfal”, em que, segundo atesta, o corpo estelar dos heterônimos começou a explodir com força máxima; para o italiano, de 1914 a 1918, a sua “fase mais importante e mais experimental” (BRADBURY, p.185).
.....Salta aos olhos como alguns comentários à obra de um deles se ajustariam à perfeição se endereçados à do outro – como na introdução a contos de Pirandello em que Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai se referem à “sua visão antinômica do mundo” e à maneira como tratou do “choque entre a aparência e a realidade, a intenção e a realização, a moral social e a verdade íntima”; como em Antonio Tabucchi, sobre a obra pessoana, ao comentar que “certamente, em nenhuma outra época como a nossa, o homem inteligente e lúcido suspeitou ser tantos homens” (TABUCCHI, p.24); como, a seguir, trechos de Malcolm Bradbury acerca do escritor siciliano, inclusive com algumas declarações de Pirandello que poderíamos imaginar saídas da pena do escritor português (1).

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(1) Bradbury aborda aspectos de “dez grandes escritores” em seu livro O Mundo Moderno: Pirandello, Joyce, Eliot, Kakfa, Proust, Conrad, Dostoiévski, Virginia Woolf, Thomas Mann e Ibsen, dispostos nessa ordem em pequenas fotos na capa da edição brasileira – e chega a ser incômodo não encontrar em algum dos retângulos a imagem de Fernando Pessoa. A culpa por uma ausência desse tipo deve-se provavelmente ao desprestígio internacional da língua portuguesa... (Por outro lado, como imaginar Fernando Pessoa em outra “pátria” que não fosse esta?)
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.. ....[...] esse escritor, cuja obra encerra toda a incerteza, ansiedade e indefinição da identidade e da existência modernas / [...] parecia achar que vivia sua vida como uma ilusão, e que havia uma duplicidade constante em sua identidade (e na de todo mundo) / [...] O ser e o parecer, o hiato entre arte e vida, eu e os outros – eram essas as preocupações de sua obra, mesmo de seus escritos de caráter mais acentuadamente naturalista. Pirandello sempre achou que havia algo de espelhado, duplicado, em sua vida: “Há alguém que está vivendo minha vida, e nada sei sobre ele”, escreveu uma vez. / [...] Sua concepção da vida como uma crise metafísica de identidade e disfarce / [...] sensação de relatividade e de identidade múltipla / [...] Assim, o real e o artificial podem ser encarados sob uma enorme variedade de perspectivas, não para negar a existência da realidade, mas para mostrar que cada um de nós tem sua visão interior dessa realidade, que cada um constrói sua própria ficção. / [...] as peças que escrevia falavam justamente da infinita multiplicidade de identidades, as infinitas improvisações da vida. / [...] inteligência lúcida, irônica e muitas vezes amarga que ele revelou em sua busca incansável da amorfa energia da vida. Ninguém acreditou mais do que ele nessa energia; pois para Pirandello ela era o âmago do próprio processo criador. Mas ele sabia que a mente, à medida que observa esse processo e vai adquirindo autoconsciência, não pode senão tornar-se cética. “Todo aquele que compreende o jogo torna-se incapaz de continuar enganando a si próprio”, embora isso implicasse a perda do prazer de viver. / [...] E o que encontramos no fim é aquele humor amargo, aquela solidão irônica, aquele isolamento de exilado que caracterizam os mais perturbadores e profundos escritores modernos.
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.....Cabe ainda outra curiosa analogia. O título que Pirandello determinou à reunião de suas peças foi Maschere nude, as Máscaras Nuas. Não rostos sem máscara, nem faces desmascaradas: mas como que as máscaras mesmas em suas essencialidades, o desmascaramento a ponto de atingir sua substância primordial, que é máscara. Como no poema inacabado, de 1934, de Pessoa: “Depus a máscara, e tornei a pô-la. / Assim é melhor, / Assim sem a máscara” (PESSOA, 1986, p.1006). Sem a máscara, ao retomá-la; inteira, quando desnuda. E a definição que Pirandello faz de seu próprio teatro, “ainda que desconcertante” (e talvez por isso mesmo), não seria cabível a uma das vozes pessoanas acerca da obra de Pessoa e seus heterônimos? “Uma farsa que, ao representar uma tragédia, continha sua própria paródia e caricatura.” (BRADBURY, p.185)
.....Bradbury ainda aponta para a definição de tragédia moderna revelada por Pirandello em um de seus romances: “Toda a diferença [...] entre a tragédia antiga e a moderna reside [...] num buraco num céu”. (BRADBURY, pp.193-4) O que parece dar uma tonalidade ainda mais profunda à já impactante exclamação do Diretor em Seis Personagens: “Um pouco de céu! Um fundo pequeno, que caia aqui, atrás da fonte!” (PIRANDELLO, 1977, p.130). As obras de Pirandello e Pessoa, quando não desejando e se debatendo também por esse “pouco de céu”, ininterruptamente estão a considerar sua existência, ou melhor, a existência do buraco que o desestabiliza, que relativiza seu poder antes aceito de entidade real (2). E isso, seja em termos líricos ou ficcionais, com extrema lucidez reflexiva.
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(2) Bradbury menciona também o encontro que teria ocorrido entre Pirandello e Albert Einstein. O fundador da Teoria da Relatividade procurou o italiano, então em excursão teatral pela Alemanha, e declarou: “Somos almas gêmeas”. A quaisquer dos dez escritores selecionados por Bradbury, não seria possível a afirmação de Einstein? E Fernando Pessoa, sobretudo, talvez fosse a quem ela mais se adequaria.
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Se, existencialmente, souberam bem o que é ser “construído sobre uma coluna ausente” (3), se intimamente compartilharam da condição de limbo das personagens recusadas de Pirandello, como por exemplo a Mãe de Seis Personagens em sua “continuidade de sentimento sem solução”, por outro lado se encontraram como antípodas desta mesma personagem, que “não pode adquirir consciência de sua própria vida”. Os sujeitos poéticos de Pessoa e a perícia dramática de Pirandello constroem suas próprias existências justamente ao lidar, nelas, com a consciência contínua dos sentimentos sem solução – e que, ao se expressar, realizam uma resolução, ainda que mínima e precária (mas intensa e plena em sua “fixidez da forma”). A Mãe “sente tudo sem consciência”; a obra pessoana sente tudo conscientemente (PESSOA, 2003, p.103), sente por a consciência ser tanta, e a consciência se traduz através de tamanha capacidade de sensações. Mesmo que o que se encontre seja uma negação impositiva, a afirmação de uma negação (o buraco no azul), a confluência com o Não – como a impossibilidade final das personagens pirandellianas na busca conturbada pelo autor (4).
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(3) “Sou construído sobre uma coluna ausente” – Henri Michaux, Ecuador (in PERRONE-MOISÉS, p.125).
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(4) “Porque ele percebeu que em cada sim, mesmo no mais cheio e no mais redondo, há um minúsculo não, um corpúsculo portador de sinal contrário que gira numa órbita obscura criando exactamente aquele sim que prevalece. E decidiu investigar essa órbita obscura, como um excêntrico cientista que explora o lado patológico da saúde.” (TABUCCHI, p.19) Com este ele, Antonio Tabucchi se refere a Pessoa; não seria pertinente a transposição deste “excêntrico cientista” a esse outro ele, Pirandello?
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Ainda que não exista “um autor capaz de indicar ´como´ e ´por que´ uma personagem lhe nasceu na fantasia”, e que “o mistério da criação [seja] idêntico ao do nascimento natural”, como nos diz Pirandello em seu Prefácio a Seis Personagens, tanto ele como seu contemporâneo Pessoa parecem ter sido exímios construtores de seres-outros-eles-mesmos. Podemos entender a célebre carta a Adolfo Casais Monteiro, em que Pessoa relata a criação de sua “coterie”, como um produto cultural revelador de seu inesgotável poder de construir mitos. Com distanciamento de mais de duas décadas, o autor tece uma apreciação sobre a gênese da própria obra, filigranamente construída por meandros retóricos, valendo-se de exórdio (“Antes de, propriamente, começar”...), autorrebaixamentos (“quaisquer que sejam os meus defeitos mentais”...) e enaltecimentos do interlocutor (“Concordo absolutamente consigo”...). De forma mais direta encontramos nos prefácios de Pirandello (tanto no de Seis Personagens como no do romance O Falecido Matias Pascal) a análise de seus personagens e das razões que o levaram às suas criações – e curioso é observar como prefácios ou cartas desses autores podem se tornar objeto de análise literária equiparado ao de suas obras poética e ficcional, tratando-se de constructos com peso equivalente.

.....Uma semana depois da comunicação sobre o “dia triunfal da minha vida”, em outra carta a Adolfo Casais, Pessoa afirma: “O que sou essencialmente – por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja – é dramaturgo.” Se o dramaturgo, maestro de personalidades, compositor de relações, administrador de conflitos, é quem se põe a arranjar conscientemente as peças desse jogo de entrechoques, não estaria esse involuntarismo de suas máscaras submetido a um integral exercício de lucidez já que, em essência, o “poeta e raciocinador e o que mais haja” é no fundo um dramaturgo?
.....O romancista e prefaciador e contista e dramaturgo que há em Pirandello, em Pessoa tornam-se todos principalmente voz poética (vozes). Voz lírica, de um eu que se desdobra em muitas primeiras pessoas, formado não só por infindos rostos, menos ou mais consistentes (heterônimos, semi-heterônimos, pseudônimos), mas também por diferentes timbres ao expressar-se (5). Tamanha multiplicação de sinais, tamanha pulverização de impulsos líricos, resulta assim em ações dramáticas, dramatúrgicas. Encenações de encenações; construção de discursos alheios (sendo eus e si-mesmos) que ora se monologizam, ora dialogam, ora sofrem e reagem a reflexos dos outros com os quais coabitam. Revelações da “imbricação complexa das várias faces do conglomerado poliédrico do poetodrama”, para citar uma frase abrangente com o termo cunhado por José Augusto Seabra (SEABRA, p.77).

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(5) “[...] diarista, estetólogo, crítico literário, autor de contos policiais [...] auto-análises de tipo psicanalítico, os autodiagnósticos nos rascunhos das cartas (mandadas ou não?) aos psiquiatras da época, as provocatórias entrevistas de Campos, as discussões entre os heterônimos, os seus recíprocos elogios e censuras, os horóscopos de Caeiro e Campos [...] o cartão de visita de Raphael Baldaya, as tentativas caligráficas de um Robert Anon que ainda não aprendera a escrever como Anon, a assinatura peremptória, enérgica e inequívoca de Campos, a serena ortografia de Mestre Caeiro [...] os abismos esotéricos, as visões astrais e o diário limpidíssimo, de uma objectividade incrível e impiedosa de ficha clínica.” (TABUCCHI, p.21) – É uma “fome de dizerem-se de milhares de vidas” (PESSOA, 2003, p.50). Ou, para fazer eco ao Pai de Seis Personagens: “O drama para mim está todo nisto: na convicção que tenho de que cada um de nós julga ser ´um´, o que não é verdade, porque é ´muitos´; tantos quantas as possibilidades de ser que existem em nós: ´um´ com este; ´um´ com aquele – diversíssimos!” (PIRANDELLO, 1977, p.69)
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.....Aliás, além de, ou mesmo mais do que, dramaturgos, poderíamos pensá-los no papel de atores, principalmente Fernando Pessoa com sua rede intrincada e inesgotável de vozes. “O encanto todo vem de seu talento de ator, da impressão de que nunca o conhecemos totalmente, que nunca se pode dizer é isto, é sempre isto, é apenas isto.” (PERRONE-MOISÉS, p.43)
.....Em artigo publicado na revista Piauí, a atriz Fernanda Torres, ao discorrer sobre sua participação no brilhante (e pirandéllico) filme de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena, trata da expressão stagefright, indicadora de um tormento peculiar a que os atores de todo o mundo estão sujeitos.
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......Não existe uma boa tradução de stagefright para o português. “Pânico de palco” deixa a desejar. “Pânico da plateia”, idem. Talvez a melhor tradução seja “pânico de cena”, ou “medo da cena”. Afinal, não é propriamente do palco que o ator tem pavor, nem da plateia. É do todo: pavor de perder o próprio sentido da profissão. Qualquer ator se pergunta antes de entrar em cena: “Mas, afinal, por que fui inventar isso pra mim? Por que não sou engenheiro ou médico? Que sentido há em fingir que sou outro?”.
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Pessoa e Pirandello são coparticipantes de uma perda de sentido assim, a do começo do século XX: stagefright da consciência característica desse século, consciência “da falsidade e do caráter inacabado da identidade, da relatividade de tudo” (BRADBURY, p.192), stagefright do “homem-ilha” (6), stagefright advindo de uma condição de deslocamento em que “a lâmpada de Deus se apagara, e a lâmpada da identidade tremeluzia debilmente” (BRADBURY, p.182), stagefright de um mundo em que uma “dilatação, que se acreditava progressiva, desfaz-se” e no qual “um sentimento surge que se enraíza como uma força determinante na consciência do homem: a náusea” (GALHOZ, p.XXXIII). Náusea existencial, de dissolução dos reconhecimentos, como nas personagens do conto “No hotel morreu um fulano”, de Pirandello: “[...] se observa uma impaciência frenética, uma expressão perturbada ou uma consternação carrancuda. Não estão ausentes apenas de seu país, de sua casa; estão ausentes também de si mesmos.” (PIRANDELLO, 1988, p.139) “Somos e não somos, meu caro doutor”, diz o Dr. Fileno, de outro conto, “A tragédia de uma personagem” (PIRANDELLO, 1988, p.137) – e por trás desse somos de duplo sentido, bem poderia estar um nós dos dois escritores modernos.
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(6) “[Pirandello] lançaria ao mundo a expressão paroxística do homem-ilha, da consciência murada e incapaz de agarrar a verdade dos outros e de si mesma [...].” (BOSI, p.287)
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.....Primeiro “stagefrighters” pelo padecimento de tais sintomas – “Mas onde estamos, afinal de contas?”, desabafa o Primeiro Ator de Seis Personagens (PIRANDELLO, 1977, p.92) –, mas, a seguir, conscientes e lucidamente diagnosticando esse pânico do abismo da cena mundial, justamente valendo-se dele para voltar ao palco conturbado de sua época. Desmascaram o stagefright e o reconduzem ao ao-vivo do jogo cênico; põem-no em cena; abrem-lhe as cortinas.
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[...] A profissão
de ator não tem nada a ver com fama.
......Quando se está em cena, seja no teatro, no cinema ou na televisão, você quer dominar os sentimentos, é um esforço mental gigantesco. Minha mãe diz sempre que só se deve falar depois de criar uma imagem na cabeça. Você fabrica uma alucinação e a projeta para o público. É um trabalho que acontece invisivelmente. É muito tênue, frágil, requer concentração. O pânico vem da autoconsciência, do julgamento de si mesmo, da expectativa, da censura interna e de qualquer ruído que lembre o quão inútil é a profissão.

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E, ilustrando com várias ocorrências esse “pavor de perder o próprio sentido”, Fernanda Torres chega jocosamente a um dos atores clássicos do teatro brasileiro:
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[...] Ao terminar de se maquiar, ainda no camarim, nervoso, pronto para entrar em cena, Sérgio Cardoso chama a produção. Diz que não haverá espetáculo e pede que devolvam o dinheiro dos ingressos. Explica que não sabe fazer o papel, não sabe, não sabe... Sérgio Britto, como o fiel Horácio, toma a frente e diz que, nesse caso, será obrigado a ligar para o pai do Sérgio Cardoso, seu Francisco — seu Francisco era muito rígido —, e contar o fricote do filho. Funcionou. Hamlet baixou rapidinho..

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.....Pessoa e Pirandello também “funcionaram”, a cada pressentido pavor do limiar da cena – mas, na verdade, depois da ligação de um pai que era eles mesmos, ou, para uma comparação mais nobre, fiquemos ainda com o que nos relata a atriz brasileira no final de seu texto – “No dorso instável de um tigre” – ao explicar a que se refere o título:
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......Na antiga cidade grega de Pela, existe um mosaico com a imagem de Dionísio cavalgando as costas de um tigre. Para o deus do teatro, o palco, assim como o chão que pisamos em vida, é o dorso instável de uma fera. O medo é um sentimento inseparável do comediante. Se um ator, numa fração de segundo, se der conta de que quem está ali é ele, o mortal, e não o outro, o personagem imaterial, terá a alma exposta e correrá o risco de a qualquer momento ser abocanhado e cuspido pela besta imaginária. A peça em que Renata Sorrah mais tremeu, de bater os queixos antes de entrar em cena, foi um texto de Pirandello com o sugestivo título de Encontrar-se. No fundo, está tudo contido na primeira fala do primeiro ato de Hamlet.

..... “Quem está aí?”
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.....Bem poderia simplesmente valer-me do final preciso desse texto para arrematar este que escrevo, quem sabe como ator de commedia dell'arte retomando os gestos de um de seus personagens consagrados. Ainda mais porque a abertura interrogativa de Hamlet é como se estivesse por trás (dentro) das duas obras em apreço, mais apegada a elas que uma máscara à cara de um ator ou as frases em sua boca quando as põe em cena. Mas concluo simplesmente ao juntar Fernando Pessoa e Luigi Pirandello à categoria de Dionísio: cavalgadores de tigre.
.....Com a diferença básica, não necessariamente qualitativa, mas de concretização: Pirandello, não mangas-de-alpaca, teve sua companhia teatral, o Teatro d'Arte, escreveu peças, as dirigiu, viajou com os espetáculos até para o exterior, popularizou-os e se popularizou; Pessoa, o anônimo, a não ser no meio intelectual de Lisboa, o anônimo e anonimando-se através de mitos (os “nadas que são tudo”), conseguindo, como diz Tabucchi, “viver sincronicamente a sua diacronia”, compôs elencos e cenas e discursos e, podemos dizer, companhias teatrais inteiras, por exemplo denominadas de Paulismo, Orfismo, Interseccionismo. E foi o contra-regra, o ponto, os painéis sobe-e-descendo dos urdimentos (os urdimentos mesmos se questionando e por vezes se contradizendo) com múltiplos cenários.
.....Tudo sobre a intensa presença do vazio do palco.
.....O palco. Como diz a “atroz e inevitável fixidez da forma” da Enteada em Seis Personagens: “Que é um palco?... Pois – está vendo? – é um lugar onde se brinca a sério, onde se fazem peças. E nós vamos fazer, agora, uma peça. A sério, sabe?” (PIRANDELLO, 1977, pp.134-5).

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referências bibliográficas
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BOSI, Alfredo. “Verga Vivo”, in Céu, Inferno – ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Duas Cidades / Ed. 34, Coleção Espírito Crítico, 2ª ed., 2003.

BRADBURY, Malcolm. O Mundo Moderno – dez grandes escritores. Tradução Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

GALHOZ, Maria Aliete Dores. “O Momento Poético do Orpheu”, in Orpheu, volume I. Lisboa: Ática, 3ª reedição, s/d.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Aquém do Eu, além do Outro. São Paulo: Martins Fontes, nova edição revista e ampliada, 2001.

PESSOA, Fernando. Obras de Fernando Pessoa, volume I. Introduções, organização, biobibliografia e notas António Quadros e Dalila Pereira da Costa. Porto: Lello & Irmão, 1986.

_______. Livro do Desassossego. Organização Richard Zenith. Companhia das Letras, 2ª ed. 2ª reimpr., 2003.

PIRANDELLO, Luigi. Seis Personagens à Procura de um Autor. Prefácio do autor. Traduções Brutus Pereira e Elvira Rina Malerbi Ricci. São Paulo: Abril Cultural, 1977.

_______. “A tragédia de uma personagem” e “No hotel morreu um fulano”, in Mar de Histórias, volume 9. Organização e traduções Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2ª ed. revista e aumentada, 1988.

RÓNAI, Paulo e HOLANDA, Aurélio Buarque de (Organização e traduções). Mar de Histórias, volume 9. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2ª ed. revista e aumentada, 1988.

SEABRA, José Augusto. Fernando Pessoa ou o Poetodrama. São Paulo: Perspectiva, Coleção Estudos 24, 1974.

TABUCCHI, Antonio. Pessoana Mínima – escritos sobre Fernando Pessoa. Traduções do autor, Maria Emília Marques Mano e António Mateus Vilhena. Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1984.

TORRES, Fernanda. “No dorso instável de um tigre”, in Revista Piauí, dezembro 2006.
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Um comentário:

óli de castro disse...

nossa, Du! que beleza de texto. impressionante os paralelos entre Pessoa e Pirandello. achei interessantíssimo mesmo.
e esse artigo da Fernanda é ótimo, né? cada vez que eu releio, novos pontos me chamam a atenção.
vou agora procurar um livro do Pirandello pra colocar na minha pilha de próximas leituras! haha
beijão!