da origem do vento

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.......... Toda vez que visualizo me lançando à vida
.......... É tamanha a batida da pulsação cardíaca
.......... É tamanha a expansão da pressão sanguínea
.......... Que recuo
.......... Recuo porque tendo me elucidado tanta política
.......... Me vestido de tantos adjetivos mágicos
.......... Noto que em mim não há asa
.......... Que suporte esse voo
.......... Não há caixa torácica
.......... Que sustente esse sangue
.......... Então pra habitar os direitos, descobrir o exato
.......... Ser certo
.......... No tempo
.......... No espaço
.......... Reverto o fôlego invado oficinas
.......... E na pulsação do dia-a-dia
.......... Na pressão vertical do meio-dia
.......... Construo
.......... Acredito: construo
.......... Duas asas íntimas
.......... Arco de nudez puríssima
.......... Com o qual afinal repleto de claros enigmas
.......... Com o qual sideral, sem ignorar as terras invadidas
.......... Contendo o mesmo sangue
.......... Revitalizado
.......... Me enlaço ao voo me lanço à vida
.......... Me invento
.......... Me vento
.......... Ventania merecida que se expande
.......... Inadjetiva
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maio.94
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o instante está em outro estar

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Indo na calçada reta, vem vindo em minha direção aquele cachorro baixo, atarracado nas próprias pernas, preto-e-branco manchado, as orelhas pretas em pé, levantadas não especialmente mas sempre. Quando nos cruzamos, nossos olhares desde o começo se olhando agora mexem nossas cabeças, mas nunca paramos, e então passam. Nesse desenlace foi que vi seu olho, o seu olho direito vazado, vermelho, estropiado por algum pontapé, resquício de briga ou embate. O esquerdo, fundo nos meus. Ou só no meu esquerdo não vazado; ou só no meu direito não vazado. Penso, agora sim mais do que nunca, dessa troca de olhar tão unida, qual a disparidade? Como me vê o cachorro, além de cão, caolho, será mesmo em preto-e-branco ou só um cinza monótono por ser só um olho? Em seguida, na linha da reta, vem uma cadela, maltratada, marrom, que se não fosse inverossímil eu juro que ri pra mim. Outro entrelaçamento. Só então compreendo: é um desfile, os cachorros desfilam, cada um surge de repente e a distância entre eles é sob medida. Agora um alto, também maltratado com um penacho no topo; agora um branco, também atarracado mas diferente; daí um cinza, como um porco canino, redondo e imponente. O desfile me atravessa, nos cruzamos. Paro e me viro; os cães em fila indiana param e viram as cabeças. Olhando o quê? Um homem os olhando, talvez preto e branco, talvez impreciso como uma presa dos seus instintos antigos, talvez sonoro com seu coração pulsando. Cléquit, era preciso um retrato disso, depois exposto, guardado, destrinchadamente. Mas cadê a máquina.
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mar.98
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leste

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............................. Das trevas para a luz, o acendedor dos postes
............................. Das trevas para a luz, a rotação da Terra
............................. Das trevas para a luz, clama Van Gogh
............................. Das trevas para a luz, o filamento
............................. Das trevas para a luz, vela
............................. Das trevas para a luz, farol fogueira lanterna
............................. Das trevas para a luz, vaga-lume
............................. Das trevas para a luz, zero à esquerda
............................. Das trevas para a luz, escuro
............................. Das trevas para a luz, sendas na selva
............................. Das trevas para a luz, a cidade
............................. Das trevas para a luz, o íntimo do fruto
............................. Das trevas para a luz, chaga
............................. Das trevas para a luz, fundo dos poços
............................. Das trevas para a luz, fundo dos cantos
............................. Das trevas para a luz, galos
............................. Das trevas para a luz, sorumbático
............................. Das trevas para a luz, criptógrafos
............................. Das trevas para a luz, cadinhos
............................. Das trevas para a luz, tesouro escondido
............................. Das trevas para a luz, segredos e organismos
............................. Das trevas para a luz, lavador de pratos
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ago.98
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Le semeur au soleil couchant, Vincent van Gogh, 1888
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cangurando

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Cê já vomitou um ganso, um gafanhoto? Eu já vomitei um canguru. Saiu num susto e meio tonto depois me achou; de sob a gosma de plasma, de linfa de lágrimas, luzindo na placenta gástrica piscou os olhos, piscou a acidez e em muito silêncio - um silêncio de canguru - olhava-me comigo o questionando: pula?. E a contra-deixa, a resposta úmida, o retruco, só podia ser o que ele tinha e deveria de revelar levando-se em conta o seu estado inédito de embriaguez em ácido e alto índice biliar em sua canguritude - comigo o olhando me olhando me questionou a mim: pula?
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mar.02
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haicai

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.................................. voo interrompido
.................................. fio da pata do mosquito
.................................. que a mão esmagou
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jun.09
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