o instante está em outro estar

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Indo na calçada reta, vem vindo em minha direção aquele cachorro baixo, atarracado nas próprias pernas, preto-e-branco manchado, as orelhas pretas em pé, levantadas não especialmente mas sempre. Quando nos cruzamos, nossos olhares desde o começo se olhando agora mexem nossas cabeças, mas nunca paramos, e então passam. Nesse desenlace foi que vi seu olho, o seu olho direito vazado, vermelho, estropiado por algum pontapé, resquício de briga ou embate. O esquerdo, fundo nos meus. Ou só no meu esquerdo não vazado; ou só no meu direito não vazado. Penso, agora sim mais do que nunca, dessa troca de olhar tão unida, qual a disparidade? Como me vê o cachorro, além de cão, caolho, será mesmo em preto-e-branco ou só um cinza monótono por ser só um olho? Em seguida, na linha da reta, vem uma cadela, maltratada, marrom, que se não fosse inverossímil eu juro que ri pra mim. Outro entrelaçamento. Só então compreendo: é um desfile, os cachorros desfilam, cada um surge de repente e a distância entre eles é sob medida. Agora um alto, também maltratado com um penacho no topo; agora um branco, também atarracado mas diferente; daí um cinza, como um porco canino, redondo e imponente. O desfile me atravessa, nos cruzamos. Paro e me viro; os cães em fila indiana param e viram as cabeças. Olhando o quê? Um homem os olhando, talvez preto e branco, talvez impreciso como uma presa dos seus instintos antigos, talvez sonoro com seu coração pulsando. Cléquit, era preciso um retrato disso, depois exposto, guardado, destrinchadamente. Mas cadê a máquina.
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mar.98
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