ponto negro

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............ No escuro me sinto mais calmo.
............ O dia claro é falso como uma venda.
............ No escuro a gente não é as bordas girando a esmo
............ A gente é o eixo que, parado, roda.
............ No escuro eu me sacio – pois me encontro comigo
mesmo
............ No mundo extenso de polo a polo.
............ De polo a polo retenho o que é quente – e não me
resfrio.
............ No escuro profuso sem indícios.
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abr.99
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díptico lunar

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..... ME LUA, LUNÁTICA
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............. Quando eu ia me matar
............. Você veio e me vestiu de calma

............. Repôs o verdadeiro lugar
............. Luar no qual a alma é alma

............. Nada mais a dizer
............. Num poema assim curto e grosso

............. A não ser que eu não sei ser
............. Quando a tua ausência toca cada osso

............. Onde o lugar onde o osso não será meu nem seu
............. Mas o nosso?
............. Onde o luar me alaga
............. E o medo de que você parta
............. Será só a luz crua da lua, clara?

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maio.94.
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..... LUNÁTICA, ME LUA
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............. No dia em que eu me mantinha vivo
............. Você veio e me pregou de sustos.
............. Repôs de novo o meu verdadeiro lugar
............. Luar no qual eu sou eu mesmo.

............. E ser eu, nesses estados, nesses lugarejos enluarados,
............. É ser um núcleo cheio de teatros e arenas digladiando
............. Cheio de gladiadores interpretando os meus medos
............. Cheio de plateia sorrindo do espetáculo e vibrando em
silêncio.
............. Silêncio porque o mundo é triste como uma orquestra esperando o ato
............. E o maestro é um braço que se abraça ao imóvel
............. De olhos fechados não vê os músicos.
............. Silêncio porque a beleza também é, sobretudo, serena
............. Com uma intensidade vívida de espantos ao contrário
............. Com uma imensidade de jarro cósmico, vertendo,
............. Com uma força de Lua que é, nas palavras mais simples
e diretas,
............. Você chegando.
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jun.06
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recordação encarnada

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.................... Minha mãe saiu para a passagem de fora
.................... Veio a bicicleta.

.................... Quando, na volta, meu pai e eu
.................... Já eram os acenos na porta
.................... Sôfregos: a volta mais rápida.

.................... Na chegada o susto em vermelho.

.................... Minha mãe aos prantos
.................... Prantos de sangue
.................... Panos, toalhas pingando
.................... Não venciam o esguichamento.
.................... Seria possível vencer o choque?
.................... Seria possível vencermos?
.................... Como se respirava daquele jeito?

.................... Do nariz (perdido em borro)
.................... Sobressaiu o arrebatador fio
.................... Saindo dela.

.................... Era um fio tão espesso de sangue
.................... Que parecia fio espesso de veia
.................... Se exaurindo pelas narinas
.................... Se expelindo pelo respiro
.................... Se exilando para fora da vida.

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.................... O fio, a morte.
.................... O vermelho da vida.

.................... Os olhos, tão vivos.
.................... Vivos porque a morte os consome.

.................... Saiu-se para o pronto-socorro
.................... (Minha mãe até hoje viva)
.................... (No nariz até hoje marcas)
.................... Mas do depois não lembro
.................... Nem do antes.

.................... Só o começo: a vinda
.................... Chamamento
.................... Perplexidade
.................... Correria.
....................
.................... E então vermelho
.................... Olhos.

.................... Vermelho, fio.

.................... Vermelho.

.................... Vermelho.
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jun.06
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de atalaia

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Hoje em dia não são mais os cães que latem quando a gente passa; são as luzes de emergência. Em cada calçada pelo menos uma, assim que fareja algum movimento – qualquer corpo estranho, um gesto suspeito, ar deslocado –, detecta, se acende. Depois de um tempo, em que não sente mais seu cheiro ou seu corpo ou o corpo do seu cheiro em que você passa, se apaga. Os cães ficam embaixo, olhando atrás das grades, deitados, impassíveis, às vezes em silêncio com olhos de ódio às vezes em silêncio com olhos de coma, substituídos.
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jun.01
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"Escotilha", o cachorro-marujo de M. Wise Brown,
ilustrado por G. Williams
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extratos da surpresa


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Há para mim – houve – toda uma riqueza de significações em coisas tão ridículas como a chave duma porta, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim toda uma plenitude de sugestões espirituais numa galinha que atravessa a rua com os seus pintainhos. Há para mim todo um significado mais profundo do que os próprios receios humanos no cheiro de sândalo, em latas velhas num monte de lixo, numa caixa de fósforos deixada numa valeta, em dois papéis sujos que num dia de vento esvoaçam e se perseguem pela rua abaixo. Porque a poesia é espanto, admiração, como alguém que, ao tombar dos céus com plena consciência da sua queda, olhasse atônito para todas as coisas. Como alguém que conhecesse as coisas nas suas almas, tudo fazendo por recordar-se deste conhecimento, lembrando-se de que não foi assim que as conheceu, não foi sob estas formas e estas condições, mas de nada mais se lembrando.
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Fernando Pessoa
Páginas Íntimas e Introspectivas, 1910
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J'étais sur les six heures à la descente de Ménilmontant presque vis-à-vis du Galant Jardinier, quand, des personnes qui marchaient devant moi s'étant tout à coup brusquement écartées, je vis fondre sur moi un gros chien danois qui, s'élançant à toutes jambes devant un carrosse, n'eut pas même le temps de retenir sa course ou de se détourner quand il m'aperçut. Je jugeai que le seul moyen que j'avais d'éviter d'être jeté par terre était de faire un grand saut si juste que le chien passât sous moi tandis que je serais en l'air. Cette idée plus prompte que l'éclair et que je n'eus le temps ni de raisonner ni d'exécuter fut la dernière avant mon accident. Je ne sentis ni le coup ni la chute, ni rien de ce qui s'ensuivit jusqu'au moment où je revins à moi.
.....Il était presque nuit quand je repris connaissance. (…)
.....La nuit s'avançait. J'aperçus le ciel, quelques étoiles, et un peu de verdure. Cette première sensation fut un moment délicieux. Je ne me sentais encore que par là. Je naissais dans cet instant à la vie, et il me semblait que je remplissais de ma légère existence tous les objets que j'apercevais. Tout entier au moment présent je ne me souvenais de rien; je n'avais nulle notion distincte de mon individu, pas la moindre idée de ce qui venait de m'arriver; je ne savais ni qui j'étais ni où j'étais; je ne sentais ni mal, ni crainte, ni inquiétude. Je voyais couler mon sang comme j'aurais vu couler un ruisseau, sans songer seulement que ce sang m'appartînt en aucune sorte. Je sentais dans tout mon être un calme ravissant auquel, chaque fois que je me le rappelle, je ne trouve rien de comparable dans toute l'activité des plaisirs connus.

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Jean-Jacques Rousseau
Les Rêveries du Promeneur Solitaire, 1782
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Aí mês de maio, falei, com a estrela-d'alva. O orvalho pripingando, baceadas. E os grilos no chirilim. De repente, de certa distância, enchia espaço aquela massa forte, antes de poder ver eu já pressentia. Um estado de cavalos. Os cavaleiros. Nenhum não tinha desapeado. E deviam de ser perto duns cem. Respirei: a gente sorvia o bafejo – o cheiro de crinas e rabos sacudidos, o pêlo deles, de suor velho, semeado das poeiras do sertão. Adonde o movimento esbarrado que se sussurra duma tropa assim – feito de uma porção de barulhinhos pequenos, que nem o dum grande rio, do a-flor. A bem dizer, aquela gente estava toda calada. Mas uma sela range de seu, tine um arreaz, estribo, e estribeira, ou o coscós, quando o animal lambe o freio e mastiga. Couro raspa em couro, os cavalos dão de orelha ou batem com o pé. Daqui, dali, um sopro, um meio-arquejo. E um cavaleiro ou outro tocava manso sua montada, avançando naquele bolo, mudando de lugar, bridava. Eu não sentia os homens, sabia só dos cavalos. Mas os cavalos mantidos, montados. É diferente. Grandeúdo. E, aos poucos, divulgava os vultos muitos, feito árvores crescidas lado a lado. E os chapéus rebuçados, as pontas dos rifles subindo das costas. Porque eles não falavam – e restavam esperando assim – a gente tinha medo. Ali deviam de estar alguns dos homens mais terríveis sertanejos, em cima dos cavalos teúdos, parados contrapassantes. Soubesse sonhasse eu?
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João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas, 1956
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s.e. XIX

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.......... Que o fatalismo à desilusão seja fatalismo ao surpreendimento.
9nov09
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díptico da floresta

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...................Além do cercado, a floresta se erguia espectral sob o luar, e por entre a agitação confusa, por entre os sons tênues daquele pátio lastimável, o silêncio da terra penetrava no próprio coração da gente - seu mistério, sua grandeza, a espantosa realidade de sua vida oculta.
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Joseph Conrad, do relato de Charlie Marlow, O Coração das Trevas
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A floresta escura não perecerá, a floresta escura se mantém. Bombas e mais inconsequências não a afastarão do lugar. A floresta escura e o seu vão para a entrada, a floresta escura e suas copas altas e seus caules de várias espessuras, a floresta escura e seu musgo. Existe para que num determinado momento – infalível – cada um de nós a penetre, a atravesse. Não se sabe como, nem até qual ponto de saída, nem quando. Porém a floresta escura espera incólume e nos receberá. “Nos” receberá a cada um, de cada vez, só, absolutamente; na floresta escura só se entra sozinho. Não importa quanta conta de banco dividamos, não importam quantos filhos, não importam quantos conceitos entre todos; quantos conflitos quantos imigos quantos compartilhamentos; na hora dela somos únicos. Há grilos, e ar, uauás alguns, e mochos. Muitos verdes, terra e madeira. Mas a floresta é escura, de luz possíveis filetes nas ramas, mas é extremamente escura, escura e ineludível, isto não muda. A floresta escura e sua existência máxima, a floresta escura e seu cheiro, a floresta escura e seu requinte rústico.
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maio.98
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E se não se for à floresta escura mas já estamos? já que os afetos ou os meros contatos são irrisórios como um grânulo no Mar Morto em proporção ao Universo, como um dos deitados no deserto do Egito, como outro a roçar o litoral do Rio Negro – já que estar sozinho não é privilégio do defunto nem de um menor abandonado nem da imbecilidade do estúpido, é condição dada, pau mandado do mundo mandato com reincidências até que se cumpra e cumpri-lo é repeti-lo à raiz quadrada do dobro; e os olhos pingam, e as palmas secam, e os reflexos estão secos para dentro. E a estiva corta o arado que sementaria o terreno, e a ardência do aquecimento raspa o fundo do leito oceânico, e a afiação dos metais finos ri dos cumes dos picos nevados. E estronda o domicílio. E a veia cai no escuro. E a rima é ridícula. Mas nas areias encontra-se o Cosmos; – O quê?... de longe, longe, pergunto; – nas areias encontra-se o Cosmos; – diz uma outra lógica (como um eco num espelho côncavo) envolvendo os troncos e acendendo tochas nos galhos luminosos.
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.......... [Mas não tem litoral no Rio Negro. Tem sim. Toda água é margem, e mar.
.......... Aragem.]
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jun.00
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s.e. XVIII

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.......... No pó quero-te pó empertigando no viço o tendão do cão que espreguiça.
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4abr92
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