díptico da floresta

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...................Além do cercado, a floresta se erguia espectral sob o luar, e por entre a agitação confusa, por entre os sons tênues daquele pátio lastimável, o silêncio da terra penetrava no próprio coração da gente - seu mistério, sua grandeza, a espantosa realidade de sua vida oculta.
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Joseph Conrad, do relato de Charlie Marlow, O Coração das Trevas
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A floresta escura não perecerá, a floresta escura se mantém. Bombas e mais inconsequências não a afastarão do lugar. A floresta escura e o seu vão para a entrada, a floresta escura e suas copas altas e seus caules de várias espessuras, a floresta escura e seu musgo. Existe para que num determinado momento – infalível – cada um de nós a penetre, a atravesse. Não se sabe como, nem até qual ponto de saída, nem quando. Porém a floresta escura espera incólume e nos receberá. “Nos” receberá a cada um, de cada vez, só, absolutamente; na floresta escura só se entra sozinho. Não importa quanta conta de banco dividamos, não importam quantos filhos, não importam quantos conceitos entre todos; quantos conflitos quantos imigos quantos compartilhamentos; na hora dela somos únicos. Há grilos, e ar, uauás alguns, e mochos. Muitos verdes, terra e madeira. Mas a floresta é escura, de luz possíveis filetes nas ramas, mas é extremamente escura, escura e ineludível, isto não muda. A floresta escura e sua existência máxima, a floresta escura e seu cheiro, a floresta escura e seu requinte rústico.
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maio.98
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E se não se for à floresta escura mas já estamos? já que os afetos ou os meros contatos são irrisórios como um grânulo no Mar Morto em proporção ao Universo, como um dos deitados no deserto do Egito, como outro a roçar o litoral do Rio Negro – já que estar sozinho não é privilégio do defunto nem de um menor abandonado nem da imbecilidade do estúpido, é condição dada, pau mandado do mundo mandato com reincidências até que se cumpra e cumpri-lo é repeti-lo à raiz quadrada do dobro; e os olhos pingam, e as palmas secam, e os reflexos estão secos para dentro. E a estiva corta o arado que sementaria o terreno, e a ardência do aquecimento raspa o fundo do leito oceânico, e a afiação dos metais finos ri dos cumes dos picos nevados. E estronda o domicílio. E a veia cai no escuro. E a rima é ridícula. Mas nas areias encontra-se o Cosmos; – O quê?... de longe, longe, pergunto; – nas areias encontra-se o Cosmos; – diz uma outra lógica (como um eco num espelho côncavo) envolvendo os troncos e acendendo tochas nos galhos luminosos.
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.......... [Mas não tem litoral no Rio Negro. Tem sim. Toda água é margem, e mar.
.......... Aragem.]
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jun.00
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Um comentário:

bia reinach disse...

Edu,
gosto tanto de passear neste balaio de lego...e esta floresta...tá difícil transformar em palavras a emoção que me bateu ao lê-la.
obrigada,
bia