extratos da surpresa


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Há para mim – houve – toda uma riqueza de significações em coisas tão ridículas como a chave duma porta, um prego na parede, os bigodes de um gato. Há para mim toda uma plenitude de sugestões espirituais numa galinha que atravessa a rua com os seus pintainhos. Há para mim todo um significado mais profundo do que os próprios receios humanos no cheiro de sândalo, em latas velhas num monte de lixo, numa caixa de fósforos deixada numa valeta, em dois papéis sujos que num dia de vento esvoaçam e se perseguem pela rua abaixo. Porque a poesia é espanto, admiração, como alguém que, ao tombar dos céus com plena consciência da sua queda, olhasse atônito para todas as coisas. Como alguém que conhecesse as coisas nas suas almas, tudo fazendo por recordar-se deste conhecimento, lembrando-se de que não foi assim que as conheceu, não foi sob estas formas e estas condições, mas de nada mais se lembrando.
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Fernando Pessoa
Páginas Íntimas e Introspectivas, 1910
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J'étais sur les six heures à la descente de Ménilmontant presque vis-à-vis du Galant Jardinier, quand, des personnes qui marchaient devant moi s'étant tout à coup brusquement écartées, je vis fondre sur moi un gros chien danois qui, s'élançant à toutes jambes devant un carrosse, n'eut pas même le temps de retenir sa course ou de se détourner quand il m'aperçut. Je jugeai que le seul moyen que j'avais d'éviter d'être jeté par terre était de faire un grand saut si juste que le chien passât sous moi tandis que je serais en l'air. Cette idée plus prompte que l'éclair et que je n'eus le temps ni de raisonner ni d'exécuter fut la dernière avant mon accident. Je ne sentis ni le coup ni la chute, ni rien de ce qui s'ensuivit jusqu'au moment où je revins à moi.
.....Il était presque nuit quand je repris connaissance. (…)
.....La nuit s'avançait. J'aperçus le ciel, quelques étoiles, et un peu de verdure. Cette première sensation fut un moment délicieux. Je ne me sentais encore que par là. Je naissais dans cet instant à la vie, et il me semblait que je remplissais de ma légère existence tous les objets que j'apercevais. Tout entier au moment présent je ne me souvenais de rien; je n'avais nulle notion distincte de mon individu, pas la moindre idée de ce qui venait de m'arriver; je ne savais ni qui j'étais ni où j'étais; je ne sentais ni mal, ni crainte, ni inquiétude. Je voyais couler mon sang comme j'aurais vu couler un ruisseau, sans songer seulement que ce sang m'appartînt en aucune sorte. Je sentais dans tout mon être un calme ravissant auquel, chaque fois que je me le rappelle, je ne trouve rien de comparable dans toute l'activité des plaisirs connus.

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Jean-Jacques Rousseau
Les Rêveries du Promeneur Solitaire, 1782
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Aí mês de maio, falei, com a estrela-d'alva. O orvalho pripingando, baceadas. E os grilos no chirilim. De repente, de certa distância, enchia espaço aquela massa forte, antes de poder ver eu já pressentia. Um estado de cavalos. Os cavaleiros. Nenhum não tinha desapeado. E deviam de ser perto duns cem. Respirei: a gente sorvia o bafejo – o cheiro de crinas e rabos sacudidos, o pêlo deles, de suor velho, semeado das poeiras do sertão. Adonde o movimento esbarrado que se sussurra duma tropa assim – feito de uma porção de barulhinhos pequenos, que nem o dum grande rio, do a-flor. A bem dizer, aquela gente estava toda calada. Mas uma sela range de seu, tine um arreaz, estribo, e estribeira, ou o coscós, quando o animal lambe o freio e mastiga. Couro raspa em couro, os cavalos dão de orelha ou batem com o pé. Daqui, dali, um sopro, um meio-arquejo. E um cavaleiro ou outro tocava manso sua montada, avançando naquele bolo, mudando de lugar, bridava. Eu não sentia os homens, sabia só dos cavalos. Mas os cavalos mantidos, montados. É diferente. Grandeúdo. E, aos poucos, divulgava os vultos muitos, feito árvores crescidas lado a lado. E os chapéus rebuçados, as pontas dos rifles subindo das costas. Porque eles não falavam – e restavam esperando assim – a gente tinha medo. Ali deviam de estar alguns dos homens mais terríveis sertanejos, em cima dos cavalos teúdos, parados contrapassantes. Soubesse sonhasse eu?
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João Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas, 1956
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Um comentário:

Heitor Amílcar disse...

supresa (boa pra demais) esses teus extratos, Du! brigado por tê-los juntados à leitura de outros.
HA