recordação encarnada

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.................... Minha mãe saiu para a passagem de fora
.................... Veio a bicicleta.

.................... Quando, na volta, meu pai e eu
.................... Já eram os acenos na porta
.................... Sôfregos: a volta mais rápida.

.................... Na chegada o susto em vermelho.

.................... Minha mãe aos prantos
.................... Prantos de sangue
.................... Panos, toalhas pingando
.................... Não venciam o esguichamento.
.................... Seria possível vencer o choque?
.................... Seria possível vencermos?
.................... Como se respirava daquele jeito?

.................... Do nariz (perdido em borro)
.................... Sobressaiu o arrebatador fio
.................... Saindo dela.

.................... Era um fio tão espesso de sangue
.................... Que parecia fio espesso de veia
.................... Se exaurindo pelas narinas
.................... Se expelindo pelo respiro
.................... Se exilando para fora da vida.

....................
.................... O fio, a morte.
.................... O vermelho da vida.

.................... Os olhos, tão vivos.
.................... Vivos porque a morte os consome.

.................... Saiu-se para o pronto-socorro
.................... (Minha mãe até hoje viva)
.................... (No nariz até hoje marcas)
.................... Mas do depois não lembro
.................... Nem do antes.

.................... Só o começo: a vinda
.................... Chamamento
.................... Perplexidade
.................... Correria.
....................
.................... E então vermelho
.................... Olhos.

.................... Vermelho, fio.

.................... Vermelho.

.................... Vermelho.
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jun.06
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