cantata para uma perda de sentido

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.......... Estamos nus na neblina funda.
.......... Aqui um caibro, ali uma caixinha colorida em que topo,
adiante uma moita de buxo que roçamos
.......... – não sei como sei das cores, do buxo na moita mesmo antes, e do caibro, para que uso.
.......... De repente passa um trem e o seu farol é vago, mas quanto barulho.
.......... (Ou seria um transatlântico?)
.......... Chovem batons destacados, dispersam-se buracos,
latidos esculpidos como gelos.
.......... Nus, na neblina funda, observamos os indícios.
.......... Mas é pouco.
.......... Nus, na neblina funda, esse tato, esses lábios, esses
músculos dos pelos... captam?
.......... A iridescente caixinha é de lâminas de arco-íris colados.
.......... O caibro sinaliza momentos: pesca, apoio para
estrados, haste de mastro.
.......... Os batons borram os buracos, a luz do tremsatlântico deixa rastros como madeixas em fuga agarradas em galhos, o sopro do vento, o sopro do vento, o sopro.
.......... Não poderíamos nos encolher um pouco ali no buxo?
.......... Pausa para descanso.
.......... Pausa não é condigna a condensamentos, é o que indica
o caibro (o desígnio de sua bandeira nula).
.......... Mesmo porque estamos nus.
.......... Nus na neblina, fundos; de repente enxergamos os
buracos, de repente passa farol, trem, transatlântico... o som é bojudo, astro, barril de amontillado, aeróstato rústico sem graus geográficos mas bem no alto.
.......... O teor da aridez dos passos.
.......... O gosto adiposo de um (sonho?) felino que se subjugou
no mato.
.......... A fúria dos batons impressos sobre o gelo dos latidos.
.......... Dentro da caixinha tem um cilindro, e julgo – julgamos –
se iniciar muito ao leve e ao longe uma daquelas musiquinhas.
.......... As cores têm voz.
.......... Não, não é pouco.
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dez.09
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2 comentários:

Heitor Amílcar disse...

não, definitivamente não tem pouco de belo tudo o quanto produzes.

bia reinach disse...

Estamos nus na neblina funda
Nus, na neblina funda
Nus na neblina, fundos...
As cores tem voz....
gosto adiposo de um (sonho?)
fúria dos batons impressos sobre o gelo dos latidos.

Nua e funda nas imagens deste poema...
ele, gosto adiposo de sonho,
fúria impressa sobre som...
é ruidoso...agita...grita...