s.e. XXXIII

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.......... E as clepsidras escachoam.
8set98
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grato

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Obrigado as luzes, obrigado chão, obrigado carpinteiro, concha, de noz, desvão. Obrigado as enchentes se não matam, se lavam, obrigado o fogo que queima com sofreguidão, no e-qui-lí-brio, obrigado bichos, arara por exemplo, jacu, quatar. Matrinxão. Obrigado o mundo com a mata, folha, verde – ar. Obrigado esta revolta hemorrágica, esta injustiça medonha que dá ganas a ser justiçada, obrigado esta abundante tristeza que gera... (gera mesmo alguma coisa?), obrigado esta podridão impoluta, humana por excelência, obrigado à raiva, sua irmã carmelita ou antecâmara, ambas de uma mesma crença beatas ou arcadas de uma igual arquitetura. Obrigado dias, e sua sempre giganta beleza em disposições no céu, em pores-do-sol, nasceres, manutenções... noturnas e claras. Obrigado a quem, a uma certa direção? Não se sabe bem, não calha que se diga, calha o ser grato e obrigado não é de “obrigação”, obrigado ou agradecido melhor seria? Obrigado e muitos agradecimentos ainda. Agradecer a graça, e ter graça ao agradecê-la. Obrigado a fenda, a fenda da chave de fenda e obrigado o tempo – re e multipliquexcessivamente o tempo – que não passa, ou melhor, só passa – só passa – e não dá chance à gente de reter uma matéria nova ou melhor transformá-la numa nova coisa, dócil, enigmática mas afável, pelo menos não agora na contemplação da nossa vista ou na disposição do terreno em que a nossa vista alcança. Obrigado, não obstante e assim mesmo, por gentileza.
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mar.02
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s.e. XXXII

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.......... Todo ser ser
.......... O que crê que é
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.......... Profundamente
12abr95
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o homem inusitado

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.............................. .......... O homem inusitado foi usar o fio dental e as gengivas de repente de manteiga cederam-lhe caminho, fio subindo até o cérebro adentro, cérebro não também enmanteigado mas já por si de manteiga idem. Feriu-se – mas feriu mais a moral, os bons costumes, e a tia-avó em decadência no espanto da cena pôs a opulenta manzorra sobre o buraco da boca, como um quadro.
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................................ ........ O homem inusitado espera a deixa, enrama as queixas, vê e se contamina – mas se precipita. Por isso é o que é; olha o homem inusitado, por isso inusita.
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............................. ........... O homem inusitado recebe um tiro no ovário, recolhem-lhe as vaginas, desbordam-lhe as saias e tranças que costurara há anos a fio, jogam-no no chão, matam-lhe a barata, tud'OK e cal'a boca. E não é senão, que das névoas – nas situações há sempre uma névoa –, que da polvilhança do breu, sua frágil luminescência, sai uma mancha (que sai de uma clareira (que sai de uma clareza que sai de uma gota noturna)) que sem maiores deixas nem maciez excessiva desenha uma nova aura ou nova gruta mas aberta, pedestal a vapor, coluna aérea, para ei-la, compô-la, consubstanciá-la, vem e chega, se nitidifica: a mulher inusitada. – Inusita, venha cá minha filha.
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mar.02
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faro

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Andar no escuro de olhos abertos. Já que as palavras não dizem tudo, é necessário escrever, além de me ser impossível fixar a fala, impor a voz materialmente na página, além de me ser igualmente impossível fazer quadro ou foto ou holograma em todas as dimensões que reproduza a tal coisa, e além de eu ser nulo-incompetente em telepatia e incapaz em cartografia e da máquina-do-tempo ignoto para levar outro alguém ao fato; resta a palavra, esta pessoa, ocupação de espaço que mal diz mas diz, um pouco, um pedaço ao menos, de giz, de grafite grosso, de pena forçada, diz, é preciso acreditar nisso. A primeira impressão básica vem daqueles degraus, um conjunto extenso do qual jamais enxerguei o início, por onde passo e passo a passo caminho, subindo, no rodízio uníssono de um pé incerto e em cada plano outro, e assim como jamais vi o início jamais deixei de ver o teor nítido de cada degrau transcorrido: cor negra, um negro tinto, e automaticamente por instinto os defino como de ardósia ou quartzo ou xisto, mas imediatamente em seguida já fico sabendo que isso aparece pelo som que dos nomes nos minérios vem, não da aparência real que têm, daí diga-se objetivo que são degraus de um mármore preto, escuríssimo, com brilho, e polido, e denso, e conciso – nanquim sólido. Uso um hábito cinza, com capelo e sem cinto, de tecido bem vagabundo; só há isso sobre o corpo, sinto ser um escuro, uma posta de ar onde duas órbitas abrigam olhos que por sua vez são outras duas postas de um ar diferente. O par de paredes da escada é uma dupla de pedras espessas, de cada lado um bloco compacto, com certeza da mesma origem e rocha, e certamente, por mais que isso eu também não veja, as pedras como já disse são espessas (1 metro, mais, talvez), só com uma única janela pequena no alto à minha esquerda tendo a delicada forma de fechadura, para não fechar nem abrir, fechadura sem chave que lhe faça par, sem porta por trás, fechadura dura e eternamente aberta; a coloração da rocha é também cinza, digo também pois é igual à roupa, mas o que nessa há de leve (e é muito leve, quase imperceptivelmente levíssima) naquela há de diametralmente pesadíssima, apesar de que sobre esse peso (e por mais que não o suporte eu o sinto – assim feito o meu corpo escavado que me ocupa por mais que seja vazio) sobre esse peso não existe teto, ou antes, ao subir a visão pela pressão cinzenta, não vejo o fim, assim como para trás dos degraus não vejo o começo. Talvez não devesse enxergar nem esse pouco que enxergo: pois é noite. No entanto por dentro dessa, sai certa luminescência – no breu cai como que uma neve, onde os grãos se acendem, onde os grãos se acendem pelo luar que bate, mas não há lua, e esse não-luar me apresenta uma porta, lugar em que terminam os degraus sem início, onde eu venha talvez a ter verdadeiro início, ou fim. Abro-a. A madeira grossa de 1 metro como as pedras só que talhada e embutida de cubos de outras madeiras e emoldurada a ferro e orquídeas de alumínio imitando seda, cede ao imponderável peso de minha mão impalpável: quase não sou eu quem a abre, a porta se abre a si mesma. No interior (ou tudo, escada, cinzas, xistos, sem-começos, já seria interior, de um castelo, ou a sobra em ruína desse mesmo castelo (não o conheço mas existe, ou não existe mas o conheço), mas afinal tudo, cinzas-xistos-sem-começos, interior de qual estrutura?). No interior, porta aberta, o que tem é uma pequena biblioteca de cem mil livros; circular, circulando-me o caminho de repente parado no seu ainda moto-perpétuo, aparente confusão física harmoniosa, como um corpo dentro de outro andando calmo na direção contrária em que o que o abarca anda. O lustre das lombadas, a incisão das letras, carrossel de páginas de páginas de páginas – há mesmo uma abóboda ou é o que quer minha cabeça de duro pescoço que não se flexiona e apenas deduz o percurso em que cai a luz em farelos? Por outro lado, enxugando ous e apesares e mas, e es e ques e parênteses, poderia dizer: É um quarto em que entro. Meu quarto. O reconhecimento acostumado não evita um novo momento. Minha carne diz, não é seu, somos. Vultoso túnel de sopro varando o compartimento em linha certa, quererão alguns seta reta, mas trata-se de uma suficiente linha certa, extasiando-nos (túnel) com a pompa silenciosa de sê-lo: espaço dentro do movimento. Seria como se houvesse vento, mas o ar não é oxigênio, são, de luz, as pequenas partículas, luz pulmonar polvilhando de si o que existe. Polvilhando de si o que nos existe: corpos no acesso livre, nós quarto, mar de poros, estar aí. Andar no escuro de olhos abertos é tudo. Andar no escuro de olhos abertos é sinônimo. De quê? Sinônimo, um sinônimo absoluto.
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dez.98
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condenado à vida

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1
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Era um magazine grande, de muitos departamentos, desde brinquedos à pré-fabricação de casa, com três andares para o alto mais cinco para baixo. Buscava o presente ideal e lhe conveio entrar ali, já que estava no Centro e já era tarde. Andou tudo, uma ou outra coisa atraiu mas alarmes falsos; saiu a passos lentos entre todos que se apressavam. Já no outro lado do quarteirão foi que o magazine explodiu, uma boa parte pelos ares, atingindo a rua, os pedestres, o trânsito. Lá de onde estava chegou a sentir um bafo, mas mal suspeitou da ligação entre uma coisa e outra. Seguindo seu caminho sem perceber contornara o quarteirão, agora dobrando a esquina aqueles bombeiros, caminhões, sirenes e bloqueios. Presenciou por um momento, à visão dos destroços não quis ver muito, deu meia-volta e seguiu, reconcentrando-se no presente, reconcentrando-se talvez, como desde quando saíra da loja, em lembrar-se de quem devia ser o presenteado.
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01maio98
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rezas preces afins

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Rezo no Ibirapuera. É mais de meia-noite, são quinze para as três e no claro do escuro eu rezo no centro da Paz direcionado ao lago. Rezo para o mundo, petulantemente dirão os cisnes, os cisnes que nem me olham mas é ao mundo que apresso a minha prece. A praça é um marco de nave espacial que queimou o campo. Rezo, e os macacos e os monstros e os maus gnomos em forma de ostracismos às minhas costas aproximam-se (o marco está entre eles e o lago) aproximam-se sorrateiros como a floresta de Macbeth – mas à espreita param, à margem do campo marcado. Não estou no parque, e é dia, não é noite, mas para lá me transporto: assim como aonde andam os olhos correndo sobre o que já escrevo, assim como é igual a Lua vista dos Andes e vista dos vales embora os luares não sejam os mesmos, assim como agora mesmo pode estar chovendo a cântaros no parque. Rezo na chuva. E minha reza seca, simples, sobe pelas gotas.
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7/10/99
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Ouço um sinal do Sinai, é para que eu vá a lá. O roçagar da areia atravessa todos os mares, cobre e recobre e recobre e recobre os continentes e as marés. (Não: sou eu que me espraiando em tudo encontro a areia a se espraiar.) Queres que eu vá, Sinai? O seu sinal é nítido como um beija-flor. O seu sinal é o do feixe dos faróis – é noite no mundo todo e os fachos acompanham a curvatura terrestre se encontrando cedo ou tarde, sem hora. O seu sinal é o do som dos mamíferos de água, é o do pensamento das formigas, é o da pele daquela pessoa que no ônibus de repente para e pensa na vida ao ver o caminho. É de um desses aparelhos elétricos que transmitem intermitente uma onda luminosa em direção a quem eventualmente a recebe – mas não há mais energia elétrica na Terra. Vaga-lume. Vago, se não fosse tanto. Ouço o sinal, é para que eu vá Alá, Oxóssi, Osíris, Ártemis, Jeová, Pachacamac, Buda, Thor, Jesus, Brama, Tupã.
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17/04/00
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Aquela esquina em Mallorca, aquele canto de lugar em que o turista pôs o pé ao passar o pinguelo nas Filipinas, aquela avezinha (tanto grita) quando na ponta do manacá e quando o faz balançar quando salta, aquela voz do bebê na linha telefônica, aquela voz do bebê (distante) na linha do telefone tão próxima, aquela voz do bebê tão próxima na distância do telefone, aquela mosca rara achada no sul da Bulgária, aquele monte Fuji de repente visto de uma ótica tão nova, aquela savana, aquela cordilheira dos Andes, aquela vereda na savana, a renovando aquela vereda nela, aquela parede cheia de pranchas na reforma do centro parisiense, aquela rama que no Havaí vem ao pé da praia, e a onda, e aquela de Ubatuba que refrescou não as canelas mas as suas almas e acima até as outras, aquela gaivota, em Antártida, aquela encenação de rua, em Lisboa, aquela filipeta de compra na Geórgia antiga União Soviética, aquele aroma dos cafés em Ancara, aquele, aqui da cafeteria na esquina, aquele aroma da música Meu Amigo Radamés ao deparar-se naquelas curvas da riviera, aquela escultura em pleno cemitério e não é mórbida, e a vemos com a luz contra, e detectamos os traços lisos, e aquele gesto de mão posta, sensível, e aquela placa que se forma mas de um ímpeto se evola e não existe: MESMO A MORTE PODE NÃO SER MÓRBIDA, aquele escudo no museu de Roma, aquele Van Gogh na sala de janta, do magnata tão pródigo que de tanta mesa farta não levanta a vista e o olha, aquela esfinge sem nariz, de azeviche, longe do Cairo aquela poluição em ondas ocupando a planície do Saara, aquela jaqueta reluzindo do motoqueiro que desapeou e entrou no boteco da estrada, onde isso, em Cingapura, ou também no Deserto dos Cactos que eu não sei onde fica, onde a mulher tropeçando da mesma forma, onde a moça se deitando no jardim verde, onde uma mensagem chega passando pelo ponto estratégico da Sibéria, aquela sopa à espera, aquela medida drástica, aquele canto na Andaluzia jamais escutado em Mallorca, o vento não deixa – e esta ocorrência de redescobrir a cada dia que a cidade é mais vasta, milhas quadradas não quer dizer nada, quer dizer é esta capacidade de tantos quartos, salas, em uma curva, empilhados, o piso de um cômodo diz mais que uma visão de helicóptero. Então até quando não sentir ao vivo, na veia viva, a dimensão real da relação dos espaços? E ter a superfície da Terra devidamente giganta como lhe é própria, ainda que a tecnologia a apequene ou pense apequená-la, e ter na medida da alma (deixe que diga: alma) a noção de uma grandeza mais mais grande, e daí sim se possa dizer: o mundo é pequeno, não porque o seja de fato mas pela abrangência da alma ser mais imensa, imensa não, na medida exata da grandeza da Terra então as duas condizentes, ambas modicamente imensas, ou ambas pequenas de todo já que se vai exclamar com deleite de espanto é pequena a Terra. ...como chegar a isso, talvez com muito esforço, talvez com uma sucessão ligeira e quase infinda de viagens, talvez com bom gosto, de ser calmo a todo custo, talvez com muita fúria interna, e acionar um fuso ou chegar a um circuito sedimentado, útil um ou outro um ou outro por natureza, talvez com uma mera reza. (O Verão com seu bojudo corpo tem bolhas entre os oxigênios, bolsões de ar ressequido, que matracam os átomos rangendo as arcadas uns dos outros; fora o ar de fora que são como mil minipinos e pontiagudos se chocando.) Rezo na seca. E minha reza simples, úmida, sobe pelas bolhas.
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7/12/00
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Outra forma: Filipinas Mallorca Máli, Botsuana Ancara savana, vereda praia Olinda, Sibéria Alaska Veneza; Bariloche Paris Cingapura, Brasil Panamá Curitiba, Belém Marajó Telaviv, Terra Havaí aromas. Não importa aonde se vá, não importa onde se fique, não importa nem mesmo o lugar que se deseja tanto e se sabe ser compatível, se a alma (este estojo, campo que sai do seu centro e se põe a abarcar, sem curvas, com muitas retas, num globo) não estiver em paz consigo mesma – com alguma satisfação de ser –, o que é ser chavônico piegudo e repetente ao dizer sempre o mais de mil vezes redito o que não impede de ser possível e ainda necessário assim mesmo. Até chegar ao ponto de: não importar o lugar a que se vá – porque você está importante (vivo), porque a importância de todos estará explícita.
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8/12/00
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Terra, te rezo, não sinto os teus torrões pois sou sendo-os, quando me ajoelho assim (por sobre e sendo-te) não deveria rir, nem cogitar nas estupefatas bobagens do grupo ignaro, deveria apenas pedir o que desde já te oferto, o meu pedido, Terra, conceda-nos, paz, piso, teu corpo palpável de tantos músculos, reza-nos pois quando rezamos-te – e sabes ser isso sério e não rachas ao eco das risadas da comitiva de imbecis. (Mas eu gargalho: mas por ser sério e pela alegria de me dirigir a ti.)
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3/01/01
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É preciso ser religioso? Eu não sei. É possível eliminar essa palavra? Eu não sei. Quer saber? Rezo por Lhasa, rezo por Jerusalém, rezo por Manhattan ou pela cidade natal sua. Sua de quem, sua de você, sua minha, sua de todos os mortos idos e que estão por vir, sua de todos todos os bebês.
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16/09/01
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Na sinagoga do pensamento a atalaia do firmamento ora luze ora inclina, ora se precipita para cima vendo-se ser igual ir e vir. Na mesquita do pensamento a contingência infalível ora cresta ora musica, ora fabrica estalidos que são estrelas a rir. Na catedral do pensamento a capela do silêncio ora pinga ora se fecha, ora goteiras de um repuxo nas canaletas de giz. Na sinagoga do pensamento, na mesquita do pensamento, na catedral do pensamento... acontece? Ora?
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28/11/01
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É não sei que horas nesta luz amorfa que toma a concha acústica mais ou menos de baixo e a sustenta, a sustentaria se não fosse a sua base sólida. Um papel de bombocado voa co'a brisa, são duzentas ou duzentas mil cadeiras vazias?, as da orquestra também, no palco, mas o vento silva de leve e irregularmente nos instrumentos repousados que não estão. Desafina-os? Seria não obstante a hora dos músicos se prepararem; um acorde, um arpejo; uma cravelha é apertada, uma voluta denota um trinco logo agora para um espanto. Um dos que chegam esbarrou na sua cadeira no auditório, outro para sentir-se mais cômodo fechou sobre o colo o saco de pipoca já fria e murcha. A luz agora é de um vinho tinto no lusco; e ressaibos de âmbar como de uma aurora que estica-se. O concerto será para as coincidências se encontrando nesta suntuosidade doce de arranjo melancólico. Um cachorro acorda pois dormira no fosso; um outro papel é vela na brisa; aquele varredor apronta o último canto dispersando o pó imaginário que só ele nota, julga-o quem vê do fundo. Os fios de um arco numa corda, o último lustro de um sapato; na estante a batuta é tocada. Algum dos presentes talvez sussurre uma reza e, maestro, por favor, sem revira-faltas; a saudade é uma praga revestida do grande aspecto de uma palavra bonita.
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(E agora, é certo, não são exatamente 22 horas e 22 minutos de um dia 22 de 2002; é quase – 23, 24 minutos mais ou menos... andando.)
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22/03/02
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condenado à vida

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2
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Naquela semana batera o recorde, fizera cinco entregas num só dia, além de outras quinze nos outros. A mania já não era nova; desde há vinte meses. Ao conhecer um livro, um filme, um disco de que gostava, comprava uma cópia e deixava largada num canto como uma bomba. Um banco de ônibus, um vaso sanitário, um chão de cinema, uma grama no parque... Qualquer espaço, aleatório, conforme o seu agora e a chance oportuna. Assim foi a reprodução do Van Dzeid, o Livro das Despedidas, o CD do Lenine. Chegava a comprar dúzia de cópias; através dos dias, dos meses, as depositava nas escalas da andança. O fato é que de dinheiro não era lá essas coisas, mas do que conseguia tirava uma gorda quota, pela qual espalhava as obras no desejo de serem gotas impulsionárias – acreditava.
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01julho98
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alpercatas

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Uma manada de alpercatas circunda a clareira e não querem a dança: são contra; e raspam, rangem, rosnam na verdade, mais e mais fecham o círculo – só não agridem pela clareira ser clara (isto é, sem entes) e saberem que ao fecharem fecham-se, perigam perder a própria roda. .... (enquanto isso rangem: raspam: rosnam na verdade. Manada de alpercatas contra-dança)
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fev.02
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condenado à vida

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3
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Um deserto, sem quaisquer elevações em qualquer coordenada em que a vista se deita. No centro um gradil alto, 2 por 2, quadrado. Dentro, um cachorro. Aos poucos, a N.E., N.O., S.E. e S.O., levanta-se um espasmo de poeira simétrico e crescente indicando a aproximação de alguma coisa. Quando a visão a delineia, são quatro rolos compressores, idênticos e inexoráveis, avançando a um mesmo ponto – o canil unitário. Passam-se... 100 horas? 4 eras de minutos? E agora os motores roncam muito próximos, nenhum vento desequilibrando a divisão dos roncos. O cachorro quase vê todos simultâneos; vêm ultrapassando a areia já reta. Mas suas metas de esmagar a grade não chegam a realizar-se no fim, a centímetros dos vértices os quatro rolos chocam-se – quina a quina, exatamente – e se impedem de prosseguir. Daí a menos de cinco segundos o centro do deserto é um miolo entre quatro torres de fumaça evoluindo num cone de volutas até não se ver. Os motoristas, decepcionados, descem dos carros e retornam passo a passo pelo marco das vindas. O cachorro, quase de volta ao antigo estado, agora cavuca um redondo túnel – mesmo porque já não se podia ver a paisagem antiga.
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06julho98
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hai-kai daqui

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......          ...... Rezo na chuva
......          ...... Mas nas unhas roídas
.....          ....... Água machuca

jul.98
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condenado à vida

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4
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Súbito na passagem pelo parque deparou-se com aquela espécie de preleção da segurança: os guardas perfilados em três filas, todas as mãos para trás e pernas estendidas, com o comandante à frente falando instruções. Além de um tanto à distância, passara às costas de todos, e o comandante, com o grupo lhe encobrindo a visão, certamente também não o via. E de repente aquele único carro civil nas cercanias. No chão, quase ao lado, um pedaço de concreto armado isolado logo lhe pareceu uma marreta, uma marreta chamando – se a levasse até o alto e descesse no para-brisa estilhaçando o carro, repetindo o ato até que a guarda reagisse convincente? Após uma terceira ou quarta batida, desvencilhando-se do impasse entre a ordem tartamuda do comandante e o instinto da condição profissional, os guardas sairiam patinando à cata dele, que, jogando de lado a clava descartável, já estaria correndo na direção oposta entre os troncos. Os guardas se espalhando tentavam cobrir o maior campo mas sem perdê-lo de vista; ele corria, corria muito, muito mais que os soldados da repentina guerrilha arrancados de chofre da estabilidade fixa. Trançando os caminhos, sem deixar pistas, conseguia desnortear os tiras que entre safanões e tropeços se atrasavam na confusa ambição burlesca de si mesmos. Uma grossa haste serviu de abrigo e se fosse necessário a usaria de ninho até alta noite, mas nem foi preciso: dia claro sem notícia dos impávidos, descia sorrindo do esconderijo e reatava a corrida até avistar as grades do parque e varar o seu perímetro. Já pisava a seta dos seus dias, sob a qual uma estrada indicava a placa: FUTURO. Ainda teve tempo de sentir alegria ao ver os cata-ventos coloridos do vendedor fincados na terra, girando muito.
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24julho98
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laputa

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Vou dizer que sou de Laputa, não para efeitos de consequências mas pela verdade ser o mais gostoso a ser dito – a verdade é gostosa quando dita –, estou a dizer que sou de Laputa. Uma vez, ao menos uma vez estive sobrevoando e sobre uma terra, uma terra sobre uma base levitativa de diamante; Laputa que me pariu, sou um filho de Laputa. Dizer esse lugar não é ficcionice, não é auto-imposição de mim me ficcionando, é invenção das muito realistas, natural, do senhor Jonathan Swift e Lemuel (Gulliver) no transcorrer de suas Viagens, país, habitação, continente ou planeta em continência cuja existência é de uma ilha, ilha volante, ilha que voa, ilha voadora, sim. Ela vem, sobrevoa, se estaciona ou às vezes passa em diagonal; ergue-se, perde altitude; segue, viaja – é autolocomotora segundo um mecanismo magnético, nucleal. Ela vai, sobrevoa; para-baixo-para-cima, cruza; segue, viaja. Está a passar, em algum lugar agora – aqui? aí. Pas(ssssssssssssssssssss)sa. Laputa se pega, pegará-te talvez (pegará-te quem dera?), nela se sobe e voa ou se é voado por ela, isso, com concomitância: se é voado por ela.
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set.01
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condenado à vida

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5
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Outro deserto. Primeiro as paredes transparentes formando o corredor de 1000 metros, aproximadamente 10 metros de largura e 10 metros de altura; depois o trabalho dos caminhões-plaina, nivelando impecáveis a areia de dentro, desde a largada até a encosta abrupta do rochedo. (A transparência das paredes é para que nós, espectadores, vejamos de longe.) O carro, no início da linha situado com precisão na vastidão do deserto, fumega e está a ponto de bala após as horas de aquecimento e preparativos; as equipes técnicas e de eventual socorro a postos, os OKs trocados pelos transmissores; nós, a plateia, também a postos, imparciais em nossa assistência. Sai o carro. Grau a grau acentua-se a aceleração, acompanhamos a evolução certeira. (Da ressonância dos tapumes sem cor, nos chega à distância o som rouco dos motores.) Mantém-se implacável na linha até que se espatifa ante o escolho. Dizer espatifar-se não é dizer tudo – o carro, é claro, despetala-se, as pranchas de trás sendo as primeiras por algum efeito reflexivo, em seguida as do centro e frente pela força contrária; o dispositivo Não Queima para zerar a inflamação do combustível funciona no preciso momento e o eixo central, após um segundo imóvel, pulveriza-se como o conjunto de pneus. O piloto – quase não resisto ao exagero de relatar o discernimento daqui de seu olhar saltado e ainda na reta direção através do capacete – sobrou incólume sentado no chão do deserto segurando o volante. As equipes, após mais um momento imóvel, olharam-se e saem correndo.
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15setembro98
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s.e. XXXI

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.......... A tristeza se devora,
.......... o bem prevalecerá,
.......... até que despenque uma
.......... pata: férrea esmaga e ó:
.......... não sobrará nada, nada,
.......... só o qu'haverá de ficar para além de você.
.......... A tristeza se devora.

1jan01
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condenado à vida

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6
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Como todos que o antecederam, ele sabia que a chance seria apenas uma, única, uma não em um milhão, uma em um trilhão de trilhões; passada a iniciativa, o fim. Como precisar onde e quando estaria o Feixe das Algas? Qualquer um, desde que a história era história, pôde tentar. Houvera épocas entusiastas em que ondas de otimistas se aventuraram, plateias incentivaram, familiares desesperaram-se e por fim erigiram com orgulho a memória de seus mártires – porque todos sucumbiram. Propaladíssimos foram os dogmas, mas relembro, já que foi há tanto: o indivíduo que se metesse às cobiçadas honras deveria mergulhar no tanque condutor (único com acesso confiável) e emergiria do outro lado no mar paradisíaco; lá deveria raptar – encontrar, caçar, agarrar, como queira – o Feixe fundamental das Algas; conquistaria assim a salvação total de todos. Agarrá-lo em uma só tentativa, sem abrir os olhos; fracassando, o cadáver, como o de tantos, boiaria do lado de cá no pequeno tanque. Lá, do outro lado, não haveria ilha nem margem, nenhum tipo de terra, nem fundo, apenas o mar paradisíaco e o paradisíaco céu, fulminantes à vista. Nada fora ilusão; sabia-se pelo exame dos corpos – os olhos congestionados; a carne transitoriamente registrada, a tempo analisada. (Os caminhões-tumba sempre à espera.) O tanque, sim, fora o único louvável; nos outros voltavam apenas destroços, e com indícios de outros lugares, ou não reapareciam. Agora, com ele a pular, era notório que o prazo final se daria dali a duas semanas – a pulsação regressiva dos dias o indicava; desde a história ser história até a dali as duas últimas semanas, era este o período. Teria o tempo que quisesse, mas sem apoio, o quanto, cego, conseguisse nadar – muitos tentaram recursos, boias e apetrechos, que ficaram todos na ida mesmo, atados à água do tanque, abomináveis abandonos, o que ia só era o corpo nu. Tomou fôlego, mergulhou e conseguiu – ao emergir submergira em seguida e seguindo sua meta esticara a mão como dando um bote e colhera: a sudoeste de sua perna o feixe passava e apenas naquele exato quântico instante adquiriria o alcance e o adquiriu. Reapareceu no tanque de cá, vivo, inacreditavelmente – apesar das esperanças dos espectadores sempre nunca morrerem. As celebrações foram incríveis, em lugares remotos duram até hoje. Ele guardou para si (mesmo porque seria intransferível) o céu paradisíaco que chegara a reter por um milionésimo de segundo através do ousado olhar que se abrira apesar do peso universal da ameaça, sem falar da sensação do mar.
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15setembro98
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condenado à vida

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7
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Quando o homem começa a fazer coisas sem finalidade,
acaba por perecer (pelo menos interiormente)
ou produz coisas condenadas à morte.
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W. Kandinsky, Do espiritual na arte
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Casa do artista. Logo à entrada uma azenha difícil de lenho inteiriço de piranheira – mecanismo disposto para mover a porta. A passagem desemboca no acesso a dez corredores, uns subterrâneos outros superiores, de escadas móveis de bambus e cordas às quais se sobe conforme aparecem regularmente – com regularidade mas não regulares, já que de diferentes tamanhos. Todos convergem para um espaço arredondado, centro-sala mais claro mas cheio de entulhos, dos quais já se teve sinais por qualquer dos dez caminhos. Imensas latas de tinta azulada, as bordas todas manchadas e vazando até o piso, uma estante destroçada apoiada em uma coluna suja como esteio, a impressão que se tem é que com um sopro desaba (a estante, não a coluna). Tocos soltos apresentam buracos, desavisos em que se pode tropeçar ou no mínimo destroncar o tarso, sem falar nas escorregadelas pois a única torneira entorna gota a gota finos córregos nos lugares mais imprevistos – às vezes uma golfada traz a água de roldão. Seguindo o rodapé do canto uma gaiola baixa contém meia dúzia de pássaros; tem-se a impressão de que uma ou outra asa se debate e chega-se a ouvir um canto, mas o olhar mais atento revela que estão empalhados e na quina mais afastada a portinhola aberta e enferrujada por imexida há muito tempo. Sobre o bolor das paredes um dos retratos é de um parente próximo, pintado suavemente mas engordurado, aparece sentado assistindo a algo interessante mas os olhos estão esgaçados, cansados de si mesmos, pesados de sono. O artista não está presente mas sente-se sua presença. Num esconso último, onde ainda uma luz mantém-se, destaca-se uma grande tela em branco, embaixo da qual lê-se o trecho de Kandinsky: “Tela vazia. Na aparência: vazia mesmo, guardando silêncio, indiferente. Quase imbecil. Na realidade: cheia de tensões, com mil vozes baixas, plenas de expectativa. Um tanto assustada, pois que se quer algo dela, ela só pede graça. Pode sustentar tudo, mas não pode suportar tudo. Fortalece o verdadeiro, mas também o falso. Devora sem piedade o rosto do falso. Amplifica a voz do falso até ao urro agudo – impossível de suportar.
.......... Maravilhosa é a tela vazia – mais bela que certos quadros.”
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10novembro98
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condenado à vida

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8
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“Centro de gravidade absoluta” – copiara a frase e como um raio sentia o pensamento: o que é preciso mais? poderia acabar aqui, aí está tudo, o que me cabia, a mim... fazer mais nada. Como da outra vez, já soubera do que precisava para que a morte o colhesse: concluir os seus deveres, pronto. Fez a lista mais contundente possível e ia riscando a tinta vermelha e régua: criou seu filho, deu o número suficiente de palestras em todos os países, quitou os boletos e cada item de financiamentos, esclareceu-se com seus íntimos, exauriu suas ânsias, as ânsias de alma ligadas a sua consciência de humano. Sentiu-se limpo. Sentiu-se resolvido. E no entanto (o coração ainda o escandalizando – a in da vi vo-a in da vi vo-a in da vi vo-a...) viu-se no centro do seu estabelecimento, todo amplo, paredes devassáveis ao extremo dos campos circulares de que seu dia-a-dia imperativamente era feito. Ainda vivo. Copiara a frase e, amanuense, continuaria a transcrever ainda muitas mais.
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16dezembro98
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poemetos, quarenta e dois

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.......... a dor
.......... a dor como uma laranja, plena
.......... dolorosamente a dor. Isto
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relógio
.......... mais que o tempo
.......... parado. Nunca mais. Aqui
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.......... .......... ·
..........
..........
túnel envolve-me
.......... vivo
.......... vida a calcinar
..........
.......... .......... ·
..........
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.......... calma. O pavor
.......... morte
.......... naufrágio e Lágrima
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.......... .......... ·
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..........
por quê?
.......... não é fácil
.......... o som. Escuta
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.......... .......... ·
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te quero, tudo
.......... o medo
.......... e olhos nublados
..........
.......... .......... ·
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passos
.......... uma expressão, olá
.......... a marca espalmada do dia
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.......... .......... ·

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na gaveta
.......... a poeira acumulada
.......... o passaporte para Boston
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.......... .......... ·
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silhueta no telhado
.......... pôr-do-sol laranja
.......... aberta ao meio. A gente
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.......... .......... ·
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parto
.......... no outro mundo do espelho
.......... espelho o espelho
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.......... .......... ·
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onda explode mar
.......... um sorriso flor relâmpago pássaros
.......... agora

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ruínas no armário
.......... a estação do trilho sem margens
.......... foto da unha roída
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.......... .......... ·
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olhos dentes cegos
.......... o contato das veias mortas
.......... balões soltos como vácuos
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.......... .......... ·
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a janela abre-se
.......... repentinamente deixa-se
.......... ser entrada por um vento
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.......... .......... ·
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transístores de choque
.......... a vida vê-se
.......... ossos que estalam
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.......... .......... ·
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entre o estio chove
.......... algumas palavras
.......... esse esconder-se
..........
.......... .......... ·
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.......... a pulga pula
.......... no pulo
.......... principia o absurdo
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.......... .......... ·
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de novo
.......... crosta de sono que nos embota
.......... um nada consistente
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.......... .......... ·
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amor e a luz
.......... buraco negro branco
.......... imediatamente
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.......... .......... ·
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escalo submerjo percorro
.......... 100 mil léguas
.......... o alívio no riscar um traço
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.......... .......... ·
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encontro
.......... a palavra feminino é masculina
.......... o contrário
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.......... .......... ·
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parada à abertura
.......... o quadro acontece
.......... cheiro de pedra
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.......... .......... ·
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e a certeza
.......... no instante
.......... existe um fundo de mar
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.......... .......... ·
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.......... rua saindo pela casa
.......... massa corrida que fica, a vida
.......... um poço
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.......... .......... ·
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paredes habitam dentro
.......... do frágil
.......... saio para entrar à vida
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.......... .......... ·
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o telefone faz trim
.......... absorto no lado interno de um quarto
.......... não toca
..........
.......... .......... ·
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chama
.......... um calor de incêndio e bolha d'água
.......... a necessidade brutal de te chamar
..........
.......... .......... ·

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disso
.......... só um pouco uma lâmina um naco
.......... não esse bolor de imortalidade
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.......... .......... ·
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caminho longamente infinito
.......... em que teu alô ecoa
.......... ecoaecoaecoalizadoramente
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.......... .......... ·
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morro de tão alto
.......... beleza na nossa vista
.......... não vista
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.......... .......... ·
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nossos quarteirões abertos
.......... sobre o espaço
.......... desta luva aberta sobre a mesa
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.......... .......... ·
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de podridão é certo que o céu da boca se abrirá
.......... mas um casal de namorados
.......... do enterro interessa-me a vida
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.......... .......... ·
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lágrimas de raiva quebram o chão
.......... o acesso ao acesso, onde
.......... sinto e tantas cascas mal aproveitadas
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.......... .......... ·
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súbito sopro celeste
.......... foi para o inferno?
.......... o que era outrora isso envolto pela camisa?
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.......... .......... ·
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duas dúzias de badaladas mudas
.......... uma porta semiescancarada
.......... e o hálito seco da despedida
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.......... .......... ·
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enxugamos gelos
.......... e sorrimos correndo
.......... incrédulos da imbecilidade
..........
.......... .......... ·
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..........
solitário
.......... de rosas estreitas
.......... a suportar tuas amargas multidões
..........
.......... .......... ·
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..........
o bafo penetra o vidro
.......... a vítrea impressão estala-se
.......... arrastados os anos e o azar
..........
.......... .......... ·
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..........
regamos plástico
.......... e saímos à rua de escola de samba
.......... de papel machê à chuva
..........
.......... .......... ·
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um fruto deste cemitério de ideias
.......... mordo e morro
.......... rindo a barriga ao vento tristemente
..........
.......... .......... ·
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..........
o diamante unindo
.......... passa
.......... Para quando iremos?
..........
.......... .......... ·
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há um couro potente, intenso
.......... entre teu dedo e o mundo
.......... há uma fina pele

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14-15.07.91
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condenado à vida

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9
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Com o rastro seco da brecada ele parou a bicicleta à beira de onde se iniciava a abismal rampa. Que medida se aprofundava? Para simplificar diríamos quilômetros. Mas muito visível, o fundo, apenas dali do início ele avistava. Ao lado, a um nível mais elevado que o dele numa espécie de arquibancada, a plateia, entre a qual os conhecidos, os mais próximos presenciando o programado (incrivelmente, já que passeava de bicicleta e bem poderia não parar ali no momento). A plateia não via o fundo. Não que o ângulo não desse, mas não se focalizava dali – às vezes a um ou outro como mero resquício de miragem – o que nitidamente se revelava a ele. Mas em conjunto sim, conscientes do seu conteúdo – o ponto chave, o último encontro, o grande estrondo que lhe sumiria; para forasteiros conceitos tão macabros, porém aos que sabem, o momento tão tacitamente desejado. Plateia olha em muda aflição respeitosa: ele foca o fundo, ela a fundo não tem certeza se vai, ele olha todos, sorri – para sermos mutuamente compreensivos – e sabe e sabem que vai. Não caberia a cogitação do futuro, não caberia revelar a explosão rude, não caberia antever dores, sensação da passagem, se morte, sangue, atrito prolongado. Iria. Não mais saberíamos. Sabíamos. Todos no fatalismo. A primeira roda inclusa no lábio da íngreme lâmina, giganta, ele, irreversível, efusivo a imputar seu impulso.
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28dezembro98
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s.e. XXX

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.......... Um coração que para. Uma corda que estala. Uma arrogância chocada consigo mesma. (Um rei pensando enquanto seu reino em polvorosa lá fora.) Uma viola da gamba ao fundo do mar da Malásia. Um ímã se cansa. Uma cascata injetada de câmera lenta. (Um rei e seu reino em polvorosa lá fora.) O rio que de vez se solidifica. O passarinho cai seco em som surdo como reação ao gás. O interruptor futuro não sabe o que ilumina. (O rei está ridiculamente sozinho no mundo, e balem os canhões.)
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25ago98
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condenado à vida

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10
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Avistava-se, como de costume, o elevado à loja do doutor rabino, a praça com as três árvores despencadas formando um gigante asterisco, a faixa de pano branco e letras azuis onde se lê DEUS É FIEL suspensa no muro de dentro da casa do desconhecido, a sequência dos três postos um de gasolina outro de álcool outro de diesel, a fachada nem um pouco sutil do empalhador de cadeiras e taxidermista omisso, e a farmácia em sua reforma de sempre; mas naquele dia o caminho da repartição parecia carregar a gota-d'água de uma impaciência. Claro que sentia: aquela frase não fazia sentido, as árvores queriam ser resgatadas, aquelas localidades o incomodavam, ora menos, ora mais, ora subjacentemente como o traçado decorado, ora deixando-se pra lá, como a ida ao trabalho, e a luz do sol da manhã, em paz, se imputava. 7, 6, 5, 4, agora era um mecanismo bomba-relógio, um tempo de pólvora acionado no seu encalço, dentro do seu peito, no seu peito sem ioga – por que não respirara como lhe indicaram fortalecendo a calma? 3, 2, 1. A que ponto explodiríamos, é o que perguntava uma mosca lhe zunindo os pensamentos. 0, 0, 0! Já era zero... algum dia, esse gesto azedo, as placas tronchas, vou dar um jeito no meu terno, deus é sempre puído, as borras do cigarro desviam o trajeto do óleo escoando, por que a mulher do bloco de baixo está sempre varrendo as folhas quando eu passo, por que o olho do gato é de vidro, por que o cachorro não late e foge quando eu não me anuncio. Voltou todo o caminho. Tará tari tatá: encarou a ferrugem do portão erigido por ele mesmo, encarou a reta do percurso transcorrido; reencarou a ferrugem, reencarou o caminho; iria traçá-lo renovando, transformado, iria transcorrê-lo de cima ao alto, transferido – ele ser humano novo, ele ser destino. Içou as árvores, fotografou as localidades (para futuras discussões de reformas) e com uma escada magiro, rápido ultrapassou o muro e pôs um crepe branco cobrindo a palavra FIEL da faixa do desconhecido. Prosseguiu satisfeito, quase saltitante, chutando as latas e seguindo, seguindo, no velho costume antigo.
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4fevereiro99
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chão de giletes

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Neste chão de giletes, ando, quando menos espero me ponho em movimento como, meu coração me movimenta, meus órgãos em trabalho, de parto, meu olho; parto. Neste chão de giletes parto, intermitentemente sem fim............ ... ..Quando me vejo estou rindo, divertido de prazer, de lembranças em vagalhões claros, daquela música de dança no salão de festas que eu não curti, na enseada aberta com aquela brisa que eu sabia: vai ser única pelos 2 bilhões de anos além, para o passado e para futuro, rio por aquela sarjeta sobre a qual passei na noite de inverno do fim do ano e a luz do poste tão nítida, nítido levitador, no fundo, pela porta aberta para a ventania que só eu vi, pela alma perdida na curva estreita a se reencontrar e não fui só eu a ver porque éramos eu e ela também, a sorrir, os três (eu ela e a curva), pelas bodas de Canã, pela ideia solta de um platônico solitário do séc. I, pela sensação das balas a escorrerem da mão por aquele maternal tropeço ao sair do pré, e o dia de sol e o dia claro da calçada e o portão e isso nunca aconteceu e agora eu invento e é como se eu o revivesse todo ao ser agora inventado, pela sensação, da música, do perfume dos oleandros (embora nesse momento eu não saiba exato o que oleandros sejam nem bem seus perfumes com precisão), pelo nosso sorriso largo; e mais importante que tudo: francos, justos de relaxamento naquele ponto infimíssimo no meio do corpo Eternal. – Mas olham-me de cenho turvo; os olhos são muitos e é como se uma viseira os cobrisse mas não tem viseira são eles mesmos; a alegria não pode, pega mal, o que qu'é isso ó os tempos difíceis, não seja feliz. (como se nem sempre fossem difíceis... – melhor não discutir) A frase escondida porém, escondida que seja: o prazer reverbera, reverbera, está aí... pelas peladas eras... é a liga que ata. Diz-se: “neste chão de giletes” – mas não quer dizer os pés talhando cortes, partindo postas, e mais sangue, e rasga, e o osso, isso depende; são as suas imaginações, leitora, as suas imaginações, leitor, quando se põem a conceber o chão e pulam as lâminas ou pulem as superfícies.
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jul.01
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