[sem título]

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................................... Não é claro como sois bem claro
................................... Não é claro como sois bem claro

................................... Não é claro o que soas ser em ti
................................... O Bem claro do ser que em ti soas.
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jan.87
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pra mata

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.......... Viro pra mata: são dores, são marcos, sejam asas, pirilampo não é nunca uma palavra pirilampos são o verbo em forma de luz, viro pra mata. Na rajada noite a parede escurecida do verde a reter o dia e as tardes e exalará a aurora. Fendas. Negras profundas. Sombras levantadas. E o cheiro da aérea loção (aéreas loções). Viro pra mata. Do estalo desse galho dirá: privilégio – de ter um corpo, de ser num corpo em que todo corre vivo, de sendo sentir-se no Corpo o corpóreo completo em que estão até os vazios, viro. A mata é um berço que abarca todos os nascimentos. Paranabi, Ximbé, Garapás, Min, Sanci-lê, florestas de um Brasil. Brasa que vem na aragem: a felicidade é recuperar os momentos bons, ter consciência de que os houve e ter consciência deles ainda e sempre existindo em si mesmos em si (como minerais que nunca se foram). Viro pra mata: ah vire; a lua é sempre um espelho d'água e o sol é sempre uma poça nova e a terra é solo para o verde à mostra, para a gente. Prazeres: os prazeres hão de ser visíveis como roupas no varal para a quaragem, ah que gigante quaragem de trança de mil fios – viro pra mata – eu sei lá o que alegria é eu sei lá o que é angústia, mas sinto uma e uma, a primeira imensa a segunda monstruosa, a primeira monstruosa a segunda imensa, não tem a explicação mas tem-se-na concreta sem palavras: como o leigo na frente da usina, não sabe entender o mecanismo da engenhoca mas sentindoassistindo ouve tã! seu coração a todo o volume de-água. A correnteza caiu; ainda vai cair. Eu como minerais que nunca se foram. É como ler aquele período brilhante do Guimarães: “E quando Turíbio Todo riscou um arco, do Aruá ao Cedro, Cassiano Gomes vinha precisamente em reta acelerada, e tocou-lhe, amanhã e ontem, a trajetória, em tangente atrasada e em secante adiantada demais”. E não é só: lês e ao levantar as órbitas a vista ao sair da página se depara com aquela foto que te olha, é de Einstein com aquele olhar sofrido e de vincos de quem já viu muita paulada e não obstante inquire a resposta e te chama para a vida a Vida ainda, ainda. E não é só: é o período e a visão de Einstein com a vista que lhe dá vida a vendo e mais em toda a pele nas orelhas nos aquedutos a presença do roçagar da sensação do Tempo, que eu sinto, e todos qu'eu conheço, vivos e mortos, estão comigo neste agora enquanto – digo – assim pulso. Carnaúba. Serra de mil quilômetros. Hulha. O termômetro marca... quanto? Estrela cadente, temperaturas. O berço balança como as muitas passagens, as portas de entrada e as direções fronteiriças. Viço. Viro pra mata.
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.......... Eu vi roprá ma ta: a queixada da noite não tirita – tem-na a mata – a queixada da noite está disposta às feridas, para rir-lhas, para palatá-las, para acariciá-las com a boca e gengivas. Boca da mata. Arcada. Garra e sorrisos. A dinastia desta diáspora: os ossos da selva sempreviva, não vivíssima porque viva já é just'a medida-em-auge.
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.......... Viro pra mata: .... .
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jul.01
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iras

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...... IR AO IRADO
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................ Sou contra
................ Ao mal das pessoas de bem e à bem pior crosta
superficial das outras
................ Sou contra o sujeito que mal ou bem comenta o livro sem nunca ter ido até o fim
................ Sou contra
................ Sou contra a criação de espelhos e ao introspectivo da
praça que está pouco se lixando para as plantas
................ Sou contra a dicotomia matéria/espírito atormentando a vida toda
................ Sou contra os números primos
................ Sou contra a ampulheta úmida, isso quer dizer estas
pernas bestas descansando em férias
................ Como se fosse possível a ideia de férias – em pleno meio-dia
................ Em plena meia-noite
................ Sou contra tanta badalada vazia chamando para a missa
................ Sou contra a violência burra (a inteligente pode)
................ Sou contra qualquer arquétipo inflexível
................ Como a teimosia do bode ou a bronquice da bruxa
................ Ou a apoplexia bruta do judiciário sistema (ou politicário
.................................................................................. ou bancário
.................................................................................. ou sanitário
.................................................................................. ou carcerário
.................................................................................. ou diplomático
.................................................................................. ou diário)
................ Sou contra os astros que repelindo o vácuo se desprezam
................ (sou contra os números primos porque não se irmanam)
................ Peremptoriamente sou contra quem é contra os
grafiteiros
................ E contra quem não enxerga a vontade de vida por trás dos maníacos que picham
................ Sou contra o não ir à ira
................ Que ela venha e nos tome ou ao contrário
................ Depois se debruce no abismo da verdade e morra como
tudo
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...... IRA AOS PEDAÇOS
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................ Sou a favor deste sabonete específico
................ Cujo odor relevando o excessivo
................ Vivo me mantém

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jul.98
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três compoteiras

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............. ............ Quero três compoteiras
............ ............  de três cores distintas
............ ............  que sob o sol acendam
............ ............  três fogueiras distintas.

............ ............  Não é para pôr doce
............ ............  em nenhuma das três.
............ ............  Passou a hora de doce,
............ ............  não a das compoteiras,
............ ............  e quero todas três.

............ ............  É para pôr o sol
............ ............  em igual tempo e ângulo
............ ............  nas cores diferentes.
............ ............  É para ver o sol
............ ............  lavrando no bisel
............ ............  reflexos diferentes.

............ ............  Mas onde as compoteiras?
............ ............  Acaso se quebraram?
............ ............  Não resta nem um caco
............ ............  de cada uma? Os cacos
............ ............  ainda me serviam
............ ............  se fossem três, das três.

............ ............  Outras quaisquer não servem
............ ............  a minha experiência.
............ ............  O sol é o sol de todos
............ ............  mas os cristais são únicos,
............ ............  os sons também são únicos
............ ............  se bato em cada cor
............ ............  uma pancada única.

............ ............  Essas três compoteiras,
............ ............  revejo-as alinhadas
............ ............  tinindo retinindo
............ ............  e varadas de sol
............ ............  mesmo apagado o sol,
............ ............  mesmo sem compoteiras,
............ ............  mesmo sem mim a vê-las,
............ ............  na hora toda sol
............ ............  em que me fascinaram.
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Carlos Drummond de Andrade
Menino Antigo, 1973
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espinha

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....... A vida
....... Não é que ela tenha me traído
....... Nem é que ela seja menos
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....... Trair não traiu
....... Pois por mim nunca responsabilizou-se
....... Nunca prometeu nada
....... Se há um contrato jamais assinou-o
....... Não tem a menor culpa, coitada
....... – Deixem-na em paz

....... E menos não é
....... Não será.
....... O que é é que pensamos enxergá-la demais
....... ......................E ela é pouco
....... ......................Ela é o bastante
....... ......................Seus ossos são de suficiência

....... E me meto a erguê-la como uma tenda de circo
....... Abarcando o futuro o passado o presente a cara do dia
....... Enquanto ela – fidelíssima, competente, tranquila,
profissional com prazer –
....... É só o palhaço, a acrobacia sob a tenda

....... E hoje, dia negro
....... Em que vi o olho gigantesco da vergonha
....... Em que vi a garganta engolindo a faca
....... Em que vi o choro encharcando sangue
....... Em que venceu o gladiador sem face
....... Preciso não arrasá-la

....... E digo o que disse
....... Que ela não me traiu, nem trairá, impossível
....... Apesar da dor
....... Apesar de me alcançarem os dentes do babuíno
....... Apesar do ódio
....... (não o ódio que me habita, mas o que me constrói, o
que hoje eu sou, completamente)

....... Porque é preciso, antes, arrancar uma verdade
....... Até minúscula
....... Mas que venha com raiz e tudo.
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fev.93
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s.e. XXII

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........... Os carros de São Paulo, asengrenagensdosmotoresoscomponentesdosorganismos, o trânsito, os trastes, os trustes, tudo é um cortejo para onde? (José, para onde?)
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5abr98
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nacionalismo

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Um dia na praça eu vinha indo quando um anjo barroco, de cara tricolor, cabelos em cachos, me apareceu do ar e foi logo colocando: para ser direto, o seu país é um país de merreca, país de piada sem êxito; paiseco que se acha enorme, porque onde todo mundo pensa ter um território gigante mas só enxerga curto; país de talento que pensa que o talento usado o representa bastante mas não quer saber da verdade que é a de que uma parte desse talento que o multiplicaria por cem mil milhões de vezes está sendo diariamente virada em lixo; ‘país do futuro país do futuro’, país do futuro e é isso mesmo: em que o que acontece vai sempre acontecer num dia seguinte; país da gorjeta e da solidariedade do habitante – se a solidariedade ou a gorjeta não existem, a saída só é a morte ou ser assassino, só é o crime contra o outro ou si mesmo; país do progresso, país da ordem? ah tá, país da mata queimando; país da balbúrdia, país do excesso de fome com muita comida; país da miséria, interna, como aquela que é feita por dentro como um mau caráter; HA! – e como se eu fosse degelando, como se eu finalmente saísse do pasmo de ter aquela figura adiante, começou a se formar um retrucamento, o desabafo do ofendido antes inclusive de um tabefe, no qual eu diria, lhe lançaria de pronto, um ô olha aqui seu bobalhudo, em que terra você pensa que está voando, você vem lá do seu mundo que é eu sei lá de que infernos, você vem e me diz isso, você é um canalha, engole a fala, se vê no espelho, seja justo e não só voe vomitando, seu... mas não deu tempo; mal comecei a intencionar o protesto o anjo evolou-se, ouvi sua risada em eco, ouvi sua risada indo com o seu sumiço. Fiquei bobo. Outro dia, ia vindo, e como num presságio pareceu extremamente propício o seu ressurgimento; olhei e não tinha anjo, se é que devo chamar mesmo de anjo àquilo, e era o vazio, só céu, azul, e nuvem.
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jun.01
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l´étranger

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..... ..... Qui aimes-tu le mieux, homme énigmatique, dis? ton père, ta mère, ta sœur ou ton frère?
..... ..... – Je n'ai ni père, ni mère, ni sœur, ni frère.
..... ..... – Tes amis?
..... ..... – Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
..... ..... – Ta patrie?
..... ..... – J'ignore sous quelle latitude elle est située.
..... ..... – La beauté?
..... ..... – Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
..... ..... – L'or?
..... ..... – Je le hais comme vous haïssez Dieu.
..... ..... – Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger?
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..... – J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages!

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Charles Baudelaire
Le Spleen de Paris, 1869
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soneto das pernas cruzadas

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...................... Milla Jovovich, bel´elegante,
...................... Cruzou as pernas não sei em que filme;
...................... Os olhos de gata, clara, centáurea,
...................... Mas as pernas mais que humanas, hipnóticas.
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...................... Mais que centáurea, de aura labiríntica;
...................... Mais que labirinto humano e felino,
...................... Esfinge; "em si mesma aberta e fechada",
...................... Dada naquela beleza enlaçada.
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...................... Mas Milla assim tão linda e lindamente
...................... Fechada, só mesmo não em cinema
...................... Mas no filme do meu sonho que tive
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...................... Com ela; onde gata, clara, pernalta,
...................... Me imantava em silêncio no seu tempo
...................... De entrelaçadas pernas espontâneas.
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dez.03
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