espinha

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....... A vida
....... Não é que ela tenha me traído
....... Nem é que ela seja menos
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....... Trair não traiu
....... Pois por mim nunca responsabilizou-se
....... Nunca prometeu nada
....... Se há um contrato jamais assinou-o
....... Não tem a menor culpa, coitada
....... – Deixem-na em paz

....... E menos não é
....... Não será.
....... O que é é que pensamos enxergá-la demais
....... ......................E ela é pouco
....... ......................Ela é o bastante
....... ......................Seus ossos são de suficiência

....... E me meto a erguê-la como uma tenda de circo
....... Abarcando o futuro o passado o presente a cara do dia
....... Enquanto ela – fidelíssima, competente, tranquila,
profissional com prazer –
....... É só o palhaço, a acrobacia sob a tenda

....... E hoje, dia negro
....... Em que vi o olho gigantesco da vergonha
....... Em que vi a garganta engolindo a faca
....... Em que vi o choro encharcando sangue
....... Em que venceu o gladiador sem face
....... Preciso não arrasá-la

....... E digo o que disse
....... Que ela não me traiu, nem trairá, impossível
....... Apesar da dor
....... Apesar de me alcançarem os dentes do babuíno
....... Apesar do ódio
....... (não o ódio que me habita, mas o que me constrói, o
que hoje eu sou, completamente)

....... Porque é preciso, antes, arrancar uma verdade
....... Até minúscula
....... Mas que venha com raiz e tudo.
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fev.93
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2 comentários:

bia reinach disse...

Edu,
Comigo se deu o inverso. Coloquei a minha "vida" e agora, quando fui visitar o teu blog, lá estava a tua.
Sim, seu Edu, acho que estamos dialogando sim, e muito. Estou feliz!!!!
Tua vida é densa...
Adoro passear por aqui.
bisou,
biá

bia reinach disse...

Você é mesmo um poeta, seu Edu...
que lindo este seu poema!!!!
biá