nacionalismo

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Um dia na praça eu vinha indo quando um anjo barroco, de cara tricolor, cabelos em cachos, me apareceu do ar e foi logo colocando: para ser direto, o seu país é um país de merreca, país de piada sem êxito; paiseco que se acha enorme, porque onde todo mundo pensa ter um território gigante mas só enxerga curto; país de talento que pensa que o talento usado o representa bastante mas não quer saber da verdade que é a de que uma parte desse talento que o multiplicaria por cem mil milhões de vezes está sendo diariamente virada em lixo; ‘país do futuro país do futuro’, país do futuro e é isso mesmo: em que o que acontece vai sempre acontecer num dia seguinte; país da gorjeta e da solidariedade do habitante – se a solidariedade ou a gorjeta não existem, a saída só é a morte ou ser assassino, só é o crime contra o outro ou si mesmo; país do progresso, país da ordem? ah tá, país da mata queimando; país da balbúrdia, país do excesso de fome com muita comida; país da miséria, interna, como aquela que é feita por dentro como um mau caráter; HA! – e como se eu fosse degelando, como se eu finalmente saísse do pasmo de ter aquela figura adiante, começou a se formar um retrucamento, o desabafo do ofendido antes inclusive de um tabefe, no qual eu diria, lhe lançaria de pronto, um ô olha aqui seu bobalhudo, em que terra você pensa que está voando, você vem lá do seu mundo que é eu sei lá de que infernos, você vem e me diz isso, você é um canalha, engole a fala, se vê no espelho, seja justo e não só voe vomitando, seu... mas não deu tempo; mal comecei a intencionar o protesto o anjo evolou-se, ouvi sua risada em eco, ouvi sua risada indo com o seu sumiço. Fiquei bobo. Outro dia, ia vindo, e como num presságio pareceu extremamente propício o seu ressurgimento; olhei e não tinha anjo, se é que devo chamar mesmo de anjo àquilo, e era o vazio, só céu, azul, e nuvem.
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jun.01
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