três compoteiras

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............. ............ Quero três compoteiras
............ ............  de três cores distintas
............ ............  que sob o sol acendam
............ ............  três fogueiras distintas.

............ ............  Não é para pôr doce
............ ............  em nenhuma das três.
............ ............  Passou a hora de doce,
............ ............  não a das compoteiras,
............ ............  e quero todas três.

............ ............  É para pôr o sol
............ ............  em igual tempo e ângulo
............ ............  nas cores diferentes.
............ ............  É para ver o sol
............ ............  lavrando no bisel
............ ............  reflexos diferentes.

............ ............  Mas onde as compoteiras?
............ ............  Acaso se quebraram?
............ ............  Não resta nem um caco
............ ............  de cada uma? Os cacos
............ ............  ainda me serviam
............ ............  se fossem três, das três.

............ ............  Outras quaisquer não servem
............ ............  a minha experiência.
............ ............  O sol é o sol de todos
............ ............  mas os cristais são únicos,
............ ............  os sons também são únicos
............ ............  se bato em cada cor
............ ............  uma pancada única.

............ ............  Essas três compoteiras,
............ ............  revejo-as alinhadas
............ ............  tinindo retinindo
............ ............  e varadas de sol
............ ............  mesmo apagado o sol,
............ ............  mesmo sem compoteiras,
............ ............  mesmo sem mim a vê-las,
............ ............  na hora toda sol
............ ............  em que me fascinaram.
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Carlos Drummond de Andrade
Menino Antigo, 1973
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