assembleia em dez

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Dez homens reunidos, sentados em círculo. No início a câmera pega tudo, os dez à vista. Lentamente, tudo o que faz é ir fechando, fechando em frente, até que só o que se verá é o décimo homem.
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.......... 1 – Eu não acredito nisso...
.......... 5 – Mas é a verdade.
.......... 1 – Então você pensa em deixar que cada ala se resolva.
.......... 8 – A questão não é das alas.
.......... 4 – A questão é da capacidade de cada aliado.
.......... 3 – Mas se é depositado cada esquema na mão certa, eu não entendo qual é o problema.
.......... 2 – O problema justamente é o critério das mãos. Se na Zona Aberta a gente deposita um número decente de incentivos, tudo bem. Mas pelo que eu vejo, não é do que se trata aqui.
.......... 5 – E mais: se dois arruaceiros entram pela cancela, onde é que nós vamos parar?
.......... 6 – Eu insisto, é o que eu já dizia desde a 36a. Não se pode comparar a carroceria trazida do leste com a ampliação das ogivas.
.......... 3 – Mas se a ogiva é o que sustenta e é o que some a cada trimestre, é preciso que a gente compare!
.......... 2 – Comparar é uma coisa, cancelar preventivamente sem consulta, é outra bem diferente.
.......... 1 – Muito bem, então a solução é o controle das taxas. Mas se até os últimos talões viraram cinza, como é que se pensa em aplicar taxas?
.......... 7 – Eu acho que se devia conectar Cancun.
.......... 8 – Se vinte dispositivos – apenas vinte – forem lançados na hora certa no lugar certo, tudo se endireita. Eu resolvo isso num dia.
.......... 2 – E daí cabrum. Daí cabrum e quem paga a besta aqui somos nós, da Zona Restrita.
.......... 4 – Um momento, não se pode esquecer dos juros. Vocês falam em cancela, quando daqui a dois meses a coisa é um cofre!
.......... 3 – Se na barganha se alimenta essa expectativa, sim.
.......... 5 – E outra coisa: na rota sensitiva o preço muda – o preço muda!
.......... 8 – Só se a Demagoga der um pulo de novo e voltar à vida... (Risos.)
.......... 2 – Eu ainda acho o que digo: temos que saber qual é justamente o problema. Só o problema.
.......... 7 – Eu conectaria Cancun.
.......... 6 – Se nove entre dez aplicações de ogiva dessem pepino, vá lá. Mas não é o caso, nem de longe.
.......... 1 – Não é o caso porque compram-se
trezentos lotes e não se fia.
.......... 2 – Não se fia mas o que deve contar é a ameaça convertida em dilepsia. Dilepsia que nem três de nós dispensamos.
.......... 5 – Se a fatura fosse feita aqui, num cubículo, acho que tudo se resolvia.
.......... 3 – “Se” fosse feita aqui. “Se” isso fosse um cubículo.
.......... 4 – É só trazer as mesas amplas da diarista.
.......... 8 – As mesas e as toalhas, senão já viu.
.......... 7 – Cancun tem mesas.
.......... 6 – Eu ainda insisto no mais prático: as ogivas. Cada um de nós tira isso de letra.
.......... 4 – Mas você já pensou se cada um de nós, tirando isso de letra, arrebenta justamente a questão primeira: a pesquisa?
.......... 1 – Além do quê, infelizmente tem mais uma coisinha: o reboque.
.......... 8 – Meu Deus, se cada reboque aumenta e sustenta a cada investida... eu não quero nem pensar.
.......... 5 – Mas daí é só reagrupar.
.......... 7 – É.
.......... 5 – Cada qual se comunica e na 40a eu quero ver se um só pio vai escapar.
.......... 2 – E de certa forma... já se pode instalar a primeira ogiva.
.......... 6 – Todas, todas!
.......... 3 – Mais as mesas e as toalhas...
.......... 5 – E cada novo talão, dividido por um.
.......... 8 – E aproveita a Demagoga! (Risos. Tumulto. Falam ao mesmo tempo.)

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.......... Aos poucos os comentários vão sumindo, faz-se silêncio. A essa altura o foco já está fechado no décimo. Seu olhar denso permanece, como desde o começo, sem olhar para os outros.
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.......... 10 – Vocês se esqueceram de uma coisa. Nós não estamos sozinhos. (Pausa. Mais silêncio. Agora ele olha os outros.) Eu acho que a melhor coisa são as caixas. Nós distribuímos todas as caixas – para todos. Cada qual pega a sua cota, e espalha, o máximo que conseguir. Nos últimos andares faz-se uma média de 20.000 por 1; nos térreos nem se fala, vocês sabem. Essa é a única maneira. Essa é a solução. Nós já sabíamos disso, desde sempre. Mas agora é a hora.
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abr.98
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comunicação

a Bia Reinach
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....................... Fresta que da janela vaza
....................... platô de luz inclinada.
....................... Desamordaça.
....................... E deixa: silêncio
....................... livre de quaisquer falas
....................... que projetariam seu peso
....................... em tecido de saliva apertada.
....................... Livre: repete.
....................... É o platô que vem da fresta
....................... em leve inclinação iluminada
....................... planície aérea sólida.
....................... Mina alçada.
....................... E as gemas ao alcance
....................... da mão, da boca, das pestanas calmas,
....................... no nada.
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mar.10
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cara

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s.e. XXIII

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.......... Viver é limítrofe?
13nov00
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semana

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DOMINGO já perdi as palavras, é aquele dia de algazarras em que criam compromissos (sim, nunca os crio, criam por mim), encontram-se os rostos, algumas louváveis máscaras, ou no que dá é a face solitária, e o espelho, se entra na jogada, chega causa um arrepio que vem do seu dorso, frio, frio e incendiário como uma lâmina fria pode incendiar, frio como as faíscas da dor no ar, gnomos furiosamente tristes, de asas.

SEGUNDA-FEIRA também perco o que lhe digo. É o dia em que o relógio é clássico, os ponteiros são altivos e mesmo se o tempo é de dígitos modernos, ainda assim ponteiros, e todos precisam levar o filho no colégio ou estar atentos ao entrelaçar regular dos cadarços, sendo ou não sendo um solteiro, ou um velho bem velho, ou uma mulher de chinelos, periquito no campanário guarda-noturno voltando mendigo sub-reptício no adro sujo.

TERÇA também, o que lhe digo já não sei. É o dia de frutos. É preciso empacotá-los. Expô-los nos supermercados. E, dentro do possível, vamo-nos todos, todos, como uma seita nutritiva, respeitando as filas, às vezes de arroubo, de outras em bando lento, vamos atraídos como ímãs de alimentos, bolinhas de gude na mão de menino, alguém diz no caminho: zumbis saudáveis.

QUARTA-FEIRA constato: sim, perdi minhas vozes. E o rosto que lhe estendo só poderia ser este parvo, e chego a dar graças – um reconhecimento triste, triste reconhecimento – que o melhor é estarmos assim longe. Hoje é dia, por conseguinte, de plantar os frutos. Uma semana, menos... quem sabe será tempo de, renovados, colhermos. Supermercado. Expondo. Pacotes, bando. Cadê o meu dinheiro do táxi, hoje resolvi vir de táxi, sim, vim hoje, dê-me o troco, o que é que têm os legumes pequenos, botemo-los no banco. Detalhe.

QUINTA, a cada quinta, é o dia do comércio mais tecno, mais pulverizador de engates, mais de cheques a torto e a direito. Tanto, que, quando o padeiro foi assassinado – quinta – quiseram logo que a polícia dispersasse e se dispersasse, e não plantaram pregos no rabecão como da última vez, para que o redemoinho do crime ficasse alimentando a estagnação da curiosidade. E mal vi, mas vi, que era mais um dia em que minhas palavras ruíram, e eu mesmo uma ruína em direção – imóvel – a você.

SEXTA também pudera, é hora em que já é demais, viver passa a passar da conta, vira um desejo de cobrar, vir à própria campainha com uma multa, bata-se o martelo intimo-te sujeito vamos pôr a limpo este nosso crediário. Por outro lado há as raves, bate-estaca de subúrbios ou da boate chique de trinta dólares o caramelo, há o convite do irmão da namorada do conhecido e pode-se ainda jogar um bridge na casa da senhora anfitriã enquanto espera-se o resultado do turfe, isto se não houver outro tombo televisionado dos jogos de inverno. Mas meu riso, de repente esfacelado, lembra-me que perdi meus vocábulos numa lata de lixo monstruosa e incógnita (monstruosa e incógnita) e agora, sem passado, sem língua, onívoro e oco, perdi-me a você – a como me dirijo, despasso, ou depassado, mínguo.

SÁBADO tenha dó. Não é o dia dos lajedos? Quero dizer, não é o dia em que, mesmo nublado, há sol, dia dos desentupimentos teleguiados sob o comando de nenhuns exércitos, nenhuns? Mas, mesmo no núcleo do desenvolvimento disso... na beira da semente desse discurso... a relevância me dá um tiro, um língua-te-mostro, um sabugo-um-cascudo, um silêncio tinto de fel concentrado. Perco os vestígios de mim. Não sei mais o que digo, não estou mais lhe dizendo. Que espanto, eu mudo, eu sábado, este acesso sob um sol indicativo – mas a mão é de pedra e os talhos vêm de um escultor sisudo, escultor nascido num pântano da mais Maldade, imaginando assim, constatando, o mal num estado bem puro, pureza lá dele. E na pedra do meu silêncio há um piche. Piche... e já não sei mesmo.

Então, novamente, DOMINGO. O primeiro dia, desdobra-se. A esperança mais do que um conceito, é aquele termo belo com que lidamos de olhos de boca de poros de muitas posições e fôlegos, reencontrando (ressaindo), navio em canal ao mar alto. Era preciso desenvolver também isso. Mas estou seco. E seco passo o dedo naquela mesma lâmina de todo domingo, iminência possível, o bote das mandíbulas do espelho. Do corte cai um farelo. De dentro. Dos seres se revendo, e honestamente trocando afetos, confraternizando, sai uma leve aura verde, que poderia ser carmim, mas assim se traveste simpaticamente. O que quero dizer é que... não digo. E percebo – domingo – que na verdade é simples: minha língua, feltro embolorado, tornou-se isso que como quiser que eu diga, sim, digo. Favo desembelhado, fenos sem regurgitos, espinhos emaranhados, remanejamento de vazios erodidos. Sim, posso, mas tem que ser assim amordaçado – e o som do sentido mal chega a se dirigir a você (você e seus lábios vivos) como, apontando ao calendário, o dedo vibrátil na ânsia do braço reto de um amputado.
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mar.10
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o grande circo místico

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.......... O médico de câmara da imperatriz Teresa – Frederico Knieps
.......... resolveu que seu filho também fosse médico,
.......... mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes,
.......... com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
.......... de que tanto se tem ocupado a imprensa.
.......... Charlotte, filha de Frederico se casou com o clown,
.......... de que nasceram Marie e Oto.
.......... E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
.......... que tinha no ventre um santo tatuado.
.......... A filha de Lily Braun – a tatuada no ventre
.......... quis entrar para um convento,
.......... mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
.......... e Margarete continuou a dinastia do circo
.......... de que tanto se tem ocupado a imprensa.
.......... Então, Margarete tatuou o corpo
.......... sofrendo muito por amor de Deus,
.......... pois gravou em sua pele rósea
.......... a Via-Sacra do Senhor dos Passos.
.......... E nenhum tigre a ofendeu jamais;
.......... e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
.......... quando ela entrava nua pela jaula a dentro,
.......... chorava como um recém-nascido.
.......... Seu esposo – o trapezista Ludwig nunca mais a pôde
amar,
.......... pois as gravuras sagradas afastavam
.......... a pele dela e o desejo dele.
.......... Então, o boxeur Rudolf que era ateu
.......... e era homem fera derrubou Margarete e a violou.
.......... Quando acabou, o ateu se converteu, morreu.
.......... Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do
Grande Circo Knieps.
.......... Mas o maior milagre são as suas virgindades
.......... em que os banqueiros e os homens de monóculo têm
esbarrado;
.......... são as suas levitações que a plateia pensa ser truque;
.......... é a sua pureza em que ninguém acredita;
.......... são as suas mágicas que os simples dizem que há o
diabo;
.......... mas as crianças creem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos.
.......... Marie e Helene se apresentam nuas,
.......... dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
.......... que parece que os membros não são delas.
.......... A plateia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos.
.......... Marie e Helene se repartem todas,
.......... se distribuem pelos homens cínicos,
.......... mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
.......... E quando atiram os membros para a visão dos homens,
.......... atiram as almas para a visão de Deus.
.......... Com a verdadeira história do grande circo Knieps
.......... muito pouco se tem ocupado a imprensa.
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Jorge de Lima
A Túnica Inconsútil, 1938
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a fonte

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.............. .............. Ouve a fonte translúcida da quinta
.............. .............. Cercada de varandas onde a ausência
.............. .............. De alguém eterna mora e se debruça.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Coral, 1950
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outros homens

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