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DOMINGO já perdi as palavras, é aquele dia de algazarras em que criam compromissos (sim, nunca os crio, criam por mim), encontram-se os rostos, algumas louváveis máscaras, ou no que dá é a face solitária, e o espelho, se entra na jogada, chega causa um arrepio que vem do seu dorso, frio, frio e incendiário como uma lâmina fria pode incendiar, frio como as faíscas da dor no ar, gnomos furiosamente tristes, de asas.

SEGUNDA-FEIRA também perco o que lhe digo. É o dia em que o relógio é clássico, os ponteiros são altivos e mesmo se o tempo é de dígitos modernos, ainda assim ponteiros, e todos precisam levar o filho no colégio ou estar atentos ao entrelaçar regular dos cadarços, sendo ou não sendo um solteiro, ou um velho bem velho, ou uma mulher de chinelos, periquito no campanário guarda-noturno voltando mendigo sub-reptício no adro sujo.

TERÇA também, o que lhe digo já não sei. É o dia de frutos. É preciso empacotá-los. Expô-los nos supermercados. E, dentro do possível, vamo-nos todos, todos, como uma seita nutritiva, respeitando as filas, às vezes de arroubo, de outras em bando lento, vamos atraídos como ímãs de alimentos, bolinhas de gude na mão de menino, alguém diz no caminho: zumbis saudáveis.

QUARTA-FEIRA constato: sim, perdi minhas vozes. E o rosto que lhe estendo só poderia ser este parvo, e chego a dar graças – um reconhecimento triste, triste reconhecimento – que o melhor é estarmos assim longe. Hoje é dia, por conseguinte, de plantar os frutos. Uma semana, menos... quem sabe será tempo de, renovados, colhermos. Supermercado. Expondo. Pacotes, bando. Cadê o meu dinheiro do táxi, hoje resolvi vir de táxi, sim, vim hoje, dê-me o troco, o que é que têm os legumes pequenos, botemo-los no banco. Detalhe.

QUINTA, a cada quinta, é o dia do comércio mais tecno, mais pulverizador de engates, mais de cheques a torto e a direito. Tanto, que, quando o padeiro foi assassinado – quinta – quiseram logo que a polícia dispersasse e se dispersasse, e não plantaram pregos no rabecão como da última vez, para que o redemoinho do crime ficasse alimentando a estagnação da curiosidade. E mal vi, mas vi, que era mais um dia em que minhas palavras ruíram, e eu mesmo uma ruína em direção – imóvel – a você.

SEXTA também pudera, é hora em que já é demais, viver passa a passar da conta, vira um desejo de cobrar, vir à própria campainha com uma multa, bata-se o martelo intimo-te sujeito vamos pôr a limpo este nosso crediário. Por outro lado há as raves, bate-estaca de subúrbios ou da boate chique de trinta dólares o caramelo, há o convite do irmão da namorada do conhecido e pode-se ainda jogar um bridge na casa da senhora anfitriã enquanto espera-se o resultado do turfe, isto se não houver outro tombo televisionado dos jogos de inverno. Mas meu riso, de repente esfacelado, lembra-me que perdi meus vocábulos numa lata de lixo monstruosa e incógnita (monstruosa e incógnita) e agora, sem passado, sem língua, onívoro e oco, perdi-me a você – a como me dirijo, despasso, ou depassado, mínguo.

SÁBADO tenha dó. Não é o dia dos lajedos? Quero dizer, não é o dia em que, mesmo nublado, há sol, dia dos desentupimentos teleguiados sob o comando de nenhuns exércitos, nenhuns? Mas, mesmo no núcleo do desenvolvimento disso... na beira da semente desse discurso... a relevância me dá um tiro, um língua-te-mostro, um sabugo-um-cascudo, um silêncio tinto de fel concentrado. Perco os vestígios de mim. Não sei mais o que digo, não estou mais lhe dizendo. Que espanto, eu mudo, eu sábado, este acesso sob um sol indicativo – mas a mão é de pedra e os talhos vêm de um escultor sisudo, escultor nascido num pântano da mais Maldade, imaginando assim, constatando, o mal num estado bem puro, pureza lá dele. E na pedra do meu silêncio há um piche. Piche... e já não sei mesmo.

Então, novamente, DOMINGO. O primeiro dia, desdobra-se. A esperança mais do que um conceito, é aquele termo belo com que lidamos de olhos de boca de poros de muitas posições e fôlegos, reencontrando (ressaindo), navio em canal ao mar alto. Era preciso desenvolver também isso. Mas estou seco. E seco passo o dedo naquela mesma lâmina de todo domingo, iminência possível, o bote das mandíbulas do espelho. Do corte cai um farelo. De dentro. Dos seres se revendo, e honestamente trocando afetos, confraternizando, sai uma leve aura verde, que poderia ser carmim, mas assim se traveste simpaticamente. O que quero dizer é que... não digo. E percebo – domingo – que na verdade é simples: minha língua, feltro embolorado, tornou-se isso que como quiser que eu diga, sim, digo. Favo desembelhado, fenos sem regurgitos, espinhos emaranhados, remanejamento de vazios erodidos. Sim, posso, mas tem que ser assim amordaçado – e o som do sentido mal chega a se dirigir a você (você e seus lábios vivos) como, apontando ao calendário, o dedo vibrátil na ânsia do braço reto de um amputado.
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mar.10
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