los justos

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Un hombre que cultiva su jardin, como quería Voltaire.

............... El que agradece que en la tierra haya música.
............... El que descubre con placer una etimología.
............... Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
............... El ceramista que premedita un color y una forma.
............... El tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.
............... Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
............... El que acaricia a un animal dormido.
............... El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
............... El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
............... El que prefere que los otros tengan razón.
............... Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.
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Jorge Luis Borges
La Cifra, 1981
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solo do transporte

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O assoalho do trem urbano é de um material áspero e escuro com múltiplos pequenos brilhos feito de uma espécie de asfalto com piche misturado a grafite de inúmeros vidrilhos estilhaçados. Mas me parece mesmo é com o Espaço; estrelas e estrelas, miríades, nuvens de galáxias se encontrando, manchas que bem podem ser buracos negros, e no balanço do trem o movimento dos brilhos são quasares. Tudo isso se vê por entre os sapatos apertados dos passageiros – sapatos apertados dos passageiros apertados –, chão intergaláctico. No mínimo, por um olhar sociológico, poderia ser irônico, em tamanho aperto e para baixo a vastidão do Universo. Será que alguém pensa isso? São muitos os olhares médios, muitos para o teto, alguns para o passar da paisagem nos vidros embaçados, vários dormindo ou só fechados; mas são muitos também os direcionados para o assoalho. Pensamento impróprio. E nesse pensamento, supostamente aberto para baixo, a que outros universos se fecha sendo portanto restrito, restrito, restrito? Em cada passageiro pensamentos amplos? No vagão lotado o vagão lotado de universos. Fora, amanhecendo, o céu é limpo e a Lua no alto; limpo: mas o azul de fato encortina a visão do Universo – seu rosto – e no chão dos trens de subúrbio, do centro, dos bairros repletos, os astros pulsam e os buracos negros nos olham nos olhos.
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jun.06
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visita

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.............. No dia 22 de abril de 1994
.............. Às 8 e 45 de uma noite chuvosa com trovoadas
.............. A Vida me visitou com seu traje claro e indescritível
.............. E através de sua cara sem traços
.............. Ofereceu seu sorriso tão feminino
.............. E masculino
.............. Feito de uma fenda invisível, apesar disso palpável
.............. Incumbindo-me a missão de fazer um poema prosaico
.............. Onde eu dissesse o que me disse
.............. A respeito de constantemente ter me visitado
.............. A respeito da porta daqui ser às vezes de aço ou plástico
.............. Às vezes inconsciente tapume bravo
.............. A respeito do respeito tácito, necessário
.............. Do restabelecimento do nosso contrato
.............. Do segredo
.............. Pelo qual rio sozinho um riso igualmente abstrato
.............. Pelo qual não há tempo a perder
.............. Pelo qual nos entendemos
.............. Feitos nós três, nós dois e o segredo
.............. Dessa matéria sem trincos, sem traços
.............. Desse seu tecido indescritível, e claro
.............. Desses dizeres em que ela mesma me trouxe
.............. Um sentido básico no poema prosaico
.............. A respeito de ao menos uma letra legível no seu recado
.............. Dizendo que o dia seguinte é sempre raro
.............. Que no dia seguinte há sempre um entendimento grávido
.............. O dia seguinte é sempre a data de um grande
nascimento
.............. De um espetáculo
.............. E claro, ela me disse
.............. A véspera é hoje, não o contrário
.............. Não vou mais me embora daqui
.............. Também como ir de onde mal bem saí
.............. Nunca
.............. Sempre
.............. Vamos
.............. Diga isso
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abr.94
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interface

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....... Muito mais do que essa dor nos quartos, muito mais do que essa rua.
....... Muito mais do que essa lista, de compras, de compromissos, de nomes das capitais da Terra.
....... Muito mais do que esse capacho, para que a visita venha, quem sabe, algum dia.
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....... Muito mais do que o medo, o pânico de abrir esse minuto com a mão recolhida.
....... Muito mais do que a aresta na piscina, muito mais do que a espinha.
....... Muito mais do que as regras do batalhão de choque logo ali atrás da janela.
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....... Mais, muito mais do que o troco que esqueceste no balcão da lojinha de ferramentas.
....... Muito mais do que essa passagem telefônica, do que essa ligação rodoviária,
....... mais do que essa placa na retina, do que essa cratera, mansarda velha, aldeia, semáforo que despenca; bem mais.
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....... E no entanto é no costado deste grão de átomo que posso inscrever essas palavras;
....... e isso tanto angustia
....... e a angústia disso não deveria ser assim tanta.
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abr.10
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