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....... Muito mais do que essa dor nos quartos, muito mais do que essa rua.
....... Muito mais do que essa lista, de compras, de compromissos, de nomes das capitais da Terra.
....... Muito mais do que esse capacho, para que a visita venha, quem sabe, algum dia.
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....... Muito mais do que o medo, o pânico de abrir esse minuto com a mão recolhida.
....... Muito mais do que a aresta na piscina, muito mais do que a espinha.
....... Muito mais do que as regras do batalhão de choque logo ali atrás da janela.
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....... Mais, muito mais do que o troco que esqueceste no balcão da lojinha de ferramentas.
....... Muito mais do que essa passagem telefônica, do que essa ligação rodoviária,
....... mais do que essa placa na retina, do que essa cratera, mansarda velha, aldeia, semáforo que despenca; bem mais.
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....... E no entanto é no costado deste grão de átomo que posso inscrever essas palavras;
....... e isso tanto angustia
....... e a angústia disso não deveria ser assim tanta.
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abr.10
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2 comentários:

bia reinach disse...

Há alguns poemas que fazem doer.
Este, doeu.
Não é lindo, é doído.

kaleidoskopein disse...

Folheei páginas anteriores, mas este ainda é o de que mais gosto. Não me meterei a considerações interpretativas, que já é deselegância demais meter assim a cara na janela de desconhecido e sair puxando conversa. Mas de algum modo me lembrou - também porque o estive lendo há dias - um poema de Sophia Breyner Andresen,e que termina assim:
"Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não."