solo do transporte

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O assoalho do trem urbano é de um material áspero e escuro com múltiplos pequenos brilhos feito de uma espécie de asfalto com piche misturado a grafite de inúmeros vidrilhos estilhaçados. Mas me parece mesmo é com o Espaço; estrelas e estrelas, miríades, nuvens de galáxias se encontrando, manchas que bem podem ser buracos negros, e no balanço do trem o movimento dos brilhos são quasares. Tudo isso se vê por entre os sapatos apertados dos passageiros – sapatos apertados dos passageiros apertados –, chão intergaláctico. No mínimo, por um olhar sociológico, poderia ser irônico, em tamanho aperto e para baixo a vastidão do Universo. Será que alguém pensa isso? São muitos os olhares médios, muitos para o teto, alguns para o passar da paisagem nos vidros embaçados, vários dormindo ou só fechados; mas são muitos também os direcionados para o assoalho. Pensamento impróprio. E nesse pensamento, supostamente aberto para baixo, a que outros universos se fecha sendo portanto restrito, restrito, restrito? Em cada passageiro pensamentos amplos? No vagão lotado o vagão lotado de universos. Fora, amanhecendo, o céu é limpo e a Lua no alto; limpo: mas o azul de fato encortina a visão do Universo – seu rosto – e no chão dos trens de subúrbio, do centro, dos bairros repletos, os astros pulsam e os buracos negros nos olham nos olhos.
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jun.06
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2 comentários:

bia reinach disse...

Edu,
Esta imagem, o que é exatamente? É mesmo o assoalho do trem urbano ou uma televisão, das antigas, quando não pegava a imagem?
Será que existem outros seres que se restringem em seus universos de forma similar à tua ou minha ou do Cadafalso?
bia

óli disse...

cotidianamente poético.
lindo!