s.e. XXV

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.......... O gosto da palavra louca no chão da sua pouca boca.
23nov98
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minha boca

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Cega minha boca, catatruz, tatraz, cega a minha boca a mais não poderdes, morto de Waterloo, de Jericó, tapete puído do mercado turco – quando eu disser Istambul é que estarei indo –, cega minha boca, jamais, para sempre, as cem velas sobre o bolo em glacê e cada chama e as cem a cegarem, ceguem-me, cega-me-na. Cega minha boca, canção, caduceu, voluntário da pátria, cega minha boca ditirambo que ecoa ainda numa masmorra, janota da praça pública, mochila da bibliotecária, marca da insígnia de... um extintor de incêndio, cega minha boca. Pás, puns, o couro cabeludo a ser retirado para virar o da jaqueta no dorso, a mantilha escondida no fundo do baú há 1 século, com uma carta, as pílulas de folha de lótus intra à caixa de pérola, o estanho do anel, o céu de veludo, a gargantilha, canteiro, partituras; cega minha boca. Se um sino fosse criado – e não se sabe quando – usariam-no como pêndulo e do seu centro com cavo abaixo um badalo do mesmo ferro tiniria reproduzindo sons, e foi assim justamente o que ocorreu. Cega minha boca. Agulhas, mordaça, tecido; os dentes crescem como gelos saindo de um mar dos polos e o bafo não é nítido já que está vivido por dentro. Chove macacos, aquele guindaste irá despencar depois de luxado, a moça alisa a meia-calça depois de tropeçar no buraco do caminho. Cega minha boca: é meia-noite, meia-noite e um quarto... o bicho na pradaria sem mais outro corpo vivo perto gira resfôlega raspa a pata (mira exatamente a lá) e é como se fosse se propagasse nas direções e sutilmente toca, toca-nos. (É inteligível? O bicho. O bicho está vivo na pradaria à noite.) Cega minha boca porque é do desejo é do disco cheio é do frio que o encobre, cobertor pelo avesso, isto é, não de cima pra baixo, cega minha boca porque não está chovendo muito – mas esses pingos que ouço me pergunto se não são gigantes, se não são as patas dos macacos, de elefantes (dançando, visitando o mundo). Cega minha boca. Porque da fralda do pico distante uma fresta de luz ridiculamente se insinua. Por que digo ridícula...? Digo-a, e vou embora. Estamos indo todos.
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maio.01
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alvorada

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.................. Nos papéis de seda azul sobre a mesa
.................. Lembro do dia em que olhamos o céu:
................................ por trás da essência doce de teus beijos
................................ as nuvens não cessavam o eterno
................................ levando
............................................ para velhos mares
............................................ o sangue de seus poemas brancos.
.................. Hoje
......................... teus cabelos de vento
.................. São puros de organdi.

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jan.87
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imágenese

8
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Da cama, a visão olha o teto do quarto: é uma superfície marítima, ondulando em leve brisa. O dono dos olhos não está afogado, como seria óbvio já que todo o quarto está sob a superfície. Uma parede invisível, impalpável, sai de uma das arestas de cima à sua oposta de baixo cortando o quarto em diagonal perfeita. O triângulo superior é líquido, o inferior é de ar respirável, que aliás entra ao lado da cama pela janela aberta na única parede completamente seca. O espectador não sente desespero e ainda se deita: alguma agulha, braço ou movimento brusco pode ser que rompesse a diagonal precisa mas impalpável, mudando assim violentamente a parte de baixo – mas a lufada sutil pela janela aberta (talvez parte da mesma que atinge a água por cima) traz calma e uma segurança inquestionável. Pela janela é dia, sobre a água, no mundo em que se abre, também. A luz do sol rasga tranquila o azul translúcido da água cristalina. E o toque impressionante: os olhos do espectador deitado contemplam um casco de pequeno barco que flutua na superfície (todo ele cabendo na área do teto do quarto). É de madeira, em ripas ao comprido, abaulado mas raso, sem quilha; a luz, provavelmente a que vem de baixo ou efeito das duas se encontrando no líquido, alaranjam o casco – um laranja amarronzado, variável, como de um quadro muito bonito. É a visão reconfortante de um não-afogado.
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23 março 99
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7
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Uma pequena malha, feita de um feixe de metais. Dez a vinte tiras entrelaçadas formando um xadrez em relevo já que não são finas como papel. Cada abaulamento de cima brilha como prata, lisos, límpidos. Os de baixo não se veem, é como se fossem feitos de escuro, os subentende-se através das reentrâncias escuras. Aliás o conjunto está solto num breu, sugere o espaço sideral – e talvez se mova lentamente, à deriva no vácuo – e só se constata a trama pelos abaulamentos não se afastarem de si, pois bem poderiam ser topos metálicos independentes. Formaria um quadrado se não fosse esse esboço de losango surgido da falta das suas pontas: uma faca ou bruto alicate o recortou apressado, deixando-o assim, meio um quadrilátero meio outro, com alguns extremos retorcidos.
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1 fevereiro 99
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6
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Um prédio, às vezes parecendo vários, em um só, com vários apartamentos, uns acesos outros apagados, as luzes formando pilhas, verticais, horizontais, diagonais, outras espalhadas. Luzes pequenas – janelas pequenas – dando a noção da grandeza do prédio; afinal se vistas de perto, seriam normais. Ora é íngreme reto, ora inclinado gerando patamares, um por andar ou em blocos maiores. Lembra essas construções em alguma riviera, às vezes parecendo moderna, até futurista, por outro lado, dependendo do olhar, de repente ultrapassada. Mas às margens dela, à frente dos edifícios unidos em um, existe alguma água – ora de mar, às vezes de lago vasto como o mar, ora de rio; às vezes não é visível, mas está debaixo de quem vê a construção, sob os olhos da visão que a constata.
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15 janeiro 99
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5
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Uma rua, aparentemente normal mas em miniatura (não tão pequena mas como se se reduzisse “uma escala” do normal) – e vazia, limpa, não se tem a sensação de seu norte, não se tem a sensação de seu sul, e não se sente o seu lado de cá: ela é apenas este trecho com uma das calçadas, na qual em meia-lua perfeita uma entrada para carros se delineia. Formando: dentro da lua um canteiro em que se encontra, além da pouca grama, uma árvore central, alta, reta, talvez (provavelmente) palmeira – não se vê direito mas sente-se, agora sim, a frondosidade da copa; para fora da lua, bem na margem, o espaldar de três portas. São idênticas, quase quadradas, retângulos gordos, estão fechadas. Apesar da higiene precavida ou da puritana assepsia, não se nota – não se cheira, não se pressente – artificialidade embutida, muito menos explícita. É antes a condição inerente – natural – do mundo que a abraça; mundo sui generis a fabricar e fabricado da paisagem. Lugar agradável e o que se descobre da meia-lua com árvore é o seguinte: não é canteiro nem mera rotatória ou desvão para os carros que não chegam; é a conclusão de uma praça. Praça em essência, concentrada, em que a palmeira supracitada, deduzida, define todas as outras, palmeiras ou não, e a grama, pouca, toda a amplidão que resta, que falta estar e está na sua presença.
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6 janeiro 99
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4
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Uma mulher dentro de um carro estacionado. Ela, no banco de motorista, usa o cinto de segurança, tem cabelos castanho-escuros, quase pretos, lisos até os ombros, divididos ao meio. Na cara a expressão é extremamente serena, quase triste, quase apática, sem chegar a ser uma coisa ou outra. A mão direita espalmada, mas de dedos juntos, se apoia acima do seio esquerdo numa pose curiosamente patriótica – mas não canta hino ou pensa na pátria: relaxa. A cabeça inclinada faz com que a linha dos cabelos encubra as orelhas e chego a pensar que lê alguma coisa pousada no colo, mas não lê assim como não pensa na pátria: apenas pensa. Espera alguém a quem dará carona ou um filho saindo da escola ou da casa de um amigo. A janela está aberta, é de dia, um dia iluminado e quente, porém refrescante com brisa. O carro encaixa-se à perfeição na vaga entre muitos outros carros também estacionados à perfeição, só que vazios, ou perfeitamente paralelo em fila dupla – como se num tempo ocupasse a fila e noutro tempo a vaga, e ambos os tempos coexistissem. Espera, sem pressa, e pensa. Espera e pensa.
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3 dezembro 98
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3
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Uma escada de grandes e retangulares pedras, pedras dos degraus, pedras da moldura da entrada, pedras das paredes à esquerda e direita – a esquerda muito grossa, tem-se a sensação de que se perde sem fim, a direita de 1 metro no máximo e na qual está a porta; a porta apenas moldura, a porta sem porta, guarnição, passagem livre. Atravessando-a os degraus se elevam à direita entre as paredes de pedra, corredor se suspendendo até uns 10-15 metros. Supõe-se o resto do corpo do castelo, talvez em ruínas, um imenso castelo, ameias, torres, salões e ante-salas... mas não se presencia, tampouco sente-se a extensão a princípio lógica. Lá em cima uma luz forte mas agradável, explodindo principalmente a noroeste de quem sobe (imaginando a diagonal reta da escada ao norte), resplende a coroa dos seus raios branco-azulados – grises, como parentes de pedras – movimentando-se em silêncio, um silêncio rotativo (quero dizer: os aros dos raios se trocando, ora em sentido horário ora ao contrário, ao redor do núcleo) e brandamente. Parece que chamam, convidam. A escada tem o ar de um único sentido: nunca desce; sobe.
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3 dezembro 98
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2
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A visão aérea de um rio. Está reto à frente, sua direção desenha um triângulo que se afunila ao norte, sendo o bico de repente recortado pelo horizonte. Às margens duas florestas idênticas e não tão edênicas apesar de cheias de vida: as copas das árvores são coladas umas nas outras mas todas da mesma altura, e à beira d'água praticamente paradas, muito precisas pra ser natural, os dois conjuntos quase como dois caixotes baixos e verdes, sem fim a leste, sem fim a oeste. Dentro do rio um outro rio: como águas de densidades diferentes. O de dentro é sinuoso e em comparação ao outro, corre. Sua sinuosidade também é “reta”, precisa: as curvas vão iguais, à direita e à esquerda, em direção ao horizonte; quanto mais avançam, o seu corpo se afina conforme a perspectiva. A liquidez brilha (de todas as duas) mas principalmente a da correnteza interna; é de um cinza-chumbo (um cinza-mercúrio?) sendo o céu também prateado, uma prata opaca, já que das águas (principalmente de dentro) resplendem aqueles milhões de partículas, lascas de chispas, transmudando incessantes.
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28 outubro 98
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imágenese

1
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Uma pirâmide mole, sem ponta, toda recoberta de grama (verde-intensamente), inclusive a área quadrangular a sua volta, chão recortado que se tornou parte dela, emendados pela grama e pela consistência mole. É movida por uma esteira sem esteira, apenas os vários rolos, dispostos um em seguida ao outro, paralelamente, sendo uns mais pra lá outros pra cá, ou seja, os segmentos não formam uma sucessão simétrica – mas estão numa vala rasa, de margens retas, encravada num grande terreno plano. Os movimentos conduzem-na a um abismo onde a vala de rolos e o terreno terminam. A massa da pirâmide (primeiro uma das pontas do seu chão) escorre, desmanchando-se em pedaços e gotas, caindo. Na minha visão escorre o bico do chão, boa parte dele e metade da pirâmide vai cedendo, mas toda a queda não se completa, repete-se do bico e da metade, e volta... não exatamente volta nem se repete, pois não há salto, ajuste, recolocação – a queda “toda” da pirâmide é esta: cai e mantém-se, vejo desmelinguir-se e se preserva e o próprio ato dúbio é sua existência. (Quando me refiro a verde-intensamente, quero dizer a grama exuberante, úmida, e como se a moleza de que vive fosse de uma argila fértil.)
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30 setembro 98
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caneta preta

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.................... Caneta preta
.................... te pego
.................... – desdouro –
.................... não há nada em mim pra te riscar
.................... Caneta preta
.................... você não pega de mim
.................... – me minera –
.................... não me faz risco aflorar
.................... porque você é morta
.................... não existe quase
.................... Mas em você em ti Caneta Preta
.................... há uma carga preta co'a tinta preta negra
.................... como a cor preta de noite e de dia
.................... – carga carregada de tudo
.................... e você sabe que esse tudo é muito
.................... Caneta Preta
.................... você existe
.................... mas é parada

.................... Caneta Preta você sorriu
.................... pra mim me avisando de ti
.................... e te descrevo com você isso que sou eu
...................................... me escrevendo ao saber em ti
...................................... o que tenho de negro em mim com carga
...................................... sorrindo ao riscar enfim
...................................... isso que só pode ser nós

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set.92
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s.e. XXIV

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.......... Quer uma coisa mais errônea, mais embrutecida, mais chata e vagabunda que a pressa?
11jun01
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(insular emoção)

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Não é que a emoção está ilhada?: às vezes, pluma, é intestina ou o puro instinto em pedra branca, às vezes chama, às vezes estrada (por exemplo ligando Marte à China, ou Manaus a São Paulo, ou a sua mão à daquela pessoa), às vezes feita de fósforo, às vezes de cálcio, de enjoo ou de vácuo, às vezes de um brilho, de um embrulho, de um elétron, às vezes de um pássaro, recolhido, de uma grade que se quer ser pelo avesso, de um sentido num antidesabrochamento como um botão no seu casulo, às vezes no meio do dia, às vezes feita de escuro, às vezes é em parte de sangue coagulado, e não sabia, às vezes é um ovo, um jarro, aquele pé de ipê transplantado à sombra da casa construída, às vezes de suor e cimento, de barro, de suspiro, de planejamentos de acaso de ódio de se sentir sensível enquanto vivo, às vezes e de qualquer maneira: rainha. Rainha, reinando, mas eis que logo a mais que mínimos centímetros de seu trono a nossa alteza está envolta em neblina - camadas e mais camadas dela, de uma neblina não de névoa, sobrepostas e costuradas, de renda, de seda, de resinas, de argamassa, de aço. De modo a ser mais enterrada que mais de dez mil Tutancâmons; crosta de diamante bruto. A picareta parece impossível; ponta não há que resista; nem cabo; muito menos punho. Mas - eis de novo - não é que uma lâmina (luz de arqueólogo?) feita de uma outra matéria simplesmente penetra? Que matéria: não sei, nunca pude dizer, nunca poderei ter dito. E o engraçado é que, muitas vezes, das raras em que cada vez menos acontece, surge aparentemente do nada ou de uma razão quase besta, ou delicada, frágil e fácil, sem aviso: uma gota irrisória de chuva, a luz de uma vela, a voz de um poema; a alegria úmida de uma festa, a reunião que se sabe efêmera, a conjunção das presenças que por isso mesmo se torna intensa. Uma menina travestida em princesa, uma volta sonhada a um sol saudável de Fortaleza, uma quebra de rua numa curva encantadora de Barcelona, um ovo pré-histórico que um menino com suas meras mãos choca, um desejo de ida à Finlândia, uma necessidade de grama e bem-aventurança que é uma maneira da alma se sentir londrina, uma mulher que seria rosa, uma mulher que é mulher mãe e avó, uma mulher que é Curitiba, um homem que não é nova-iorquino e nem seria: é Nova York, tem Manhattan no peito e se espanta – num pé sopesa a África no outro a Oceania, uma mão sustenta a Europa a outra a Ásia, o corpo é de três Américas, na cabeça a Amazônia –, muitas orquídeas, pêssegos, cores laranja azul amarelo vermelho, um touro, um coala, uma andorinha, uma beluga, uma Espanha de Lorca com muitas trajetórias distintas, as montanhas de Minas vindo à tona por fora e do lado de dentro da história da cidadezinha, a garota, do primo ganhando uma árvore natalina de folhas de revista e uma estrela dourada, o garoto, da prima ganhando o que não lembro mas com certeza ele abrindo o pacote curioso, os doces sobre a mesa, os olhos sonolentos, a despedida protegida pelo guarda-chuva, em Assis uma capela faz sombra sobre a rua de pedras e elas ainda exalam luzes sob a luz do crepúsculo. De um pico nevado, de um parque na selva, de uma praia brasileira eu precisaria para assimilar e recompor tudo isso com clareza; mas só tenho a madrugada, e uma cadeira, e mesa e caneta e papel e vai assim de uma sentada, desse jeito. Não, pensando bem: não, olhando bem: sentindo: o quarto, a sala, o corredor ou as dependências da casa, são, talvez, o que eu quiser que seja. Ali, por exemplo, vejo o dia em que caiu um blecaute, a noite ficou mais noite e raios queimaram eletrodomésticos; ali por exemplo vejo o dia seguinte, em que escandalosamente para um espanto benéfico não havia nuvens; ali é um outro almoço, ali é uma saída com pressa, é a vez em que um telefonema revelou uma surpresa de chofre, é a vez em que pela primeira vez apareceu um rato, é por exemplo a chegada do carro novo no escuro, é por exemplo o outro carro, cheio, no imenso movimento norte-sul do país enquanto desbravava a própria viagem, é por exemplo, ali, meus quatro avós que nunca conheci, estão sentados na mesma pose em quatro pontos, me olham, um sorriso em cada face, e silêncio; é também o Rio Negro, também com crepúsculo – eles são tão grandes, sol e rio, que ambos se mesclam, formam um vermelho vivo, de vinho, de açaí, que eu não sei se é fogo, que eu não sei se é líquido –, ou é por exemplo o sol saindo: da cidade grande entre a vasta mata e as vastas margens de água doce, ou da cidade grande com os prédios de concreto que sempre estiveram próximos de mim; é por exemplo a efêmera festa, ou qualquer outra festa, que de certa forma não passa ou talvez não passe nunca, como de certa forma nuvens, ou ruínas, ou mapas de cidade ou as cidades mesmas em si. Não, agora eu sei: neste momento mesmo estou na praia. Caminho descalço, nas mãos as sandálias balançam, posso não compor nada comigo e a História quando a costuro vira trapos e o que consigo é de chofre como aquele telefonema revelando; mas abaixar-se na areia e pegar um punhado, ou fazer um castelo, ou traçar um risco, é pelo menos – pelo menos pelo menos – assinalar um gesto. Caminho. A praia é longuíssima: não vejo começo, não tem um fim. Sinto o cheiro da fumaça dos carros; sinto o amálgama entre mata e rio cheirando. À minha direita está o mar do Tempo (não digo imenso, digamos incomensuravelmente inefável no seu descomunal volume líquido); à minha esquerda está a terra, melhor do que isso: a terra da Terra, toda, a princípio muito modesta, irrisória lado a lado ao mar-alto, mas eu digo: vejo: sinto: ela é imensa – imensa; digamos que tão incomensuravelmente quanto.
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25.dezembro.2000
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rotunda

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....... O ator não quer saber se rei ou mendigo estará na plateia
....... Como o crítico molhará sua pena
....... Ou se o inimigo virá munido de pedras
....... O ator precisa de deixas, mas não se queixa
....... Todo tempo o Tempo todo as deixa palpáveis
....... O ator sabe que só do suco da sua solidão brotará a
dimensão das células
....... Holofótico, não reflete um grande sucesso
....... Um raro delírio de talento
....... Um bem dotado exclusivo a esnobar um momento
invejável na avalanche do povo
....... Holofótico, o ator reflete qualquer ser luzindo no seu próprio trilho
....... Independentemente do papel traçado – dele ator no palco,
 ................................................................... dele terráqueo no mundo
....... Leitor lê o livro ao lado do espelho:
....... Um olho na letra outro no reflexo e o entendimento
faz-se de conta, disperso, contas no caminho espalhado
....... O ator não é assim
....... Apenas lê, em voz alta, se lê, lendo-se, d
esconcentradamente
....... (e o advérbio não expressa o contrário da raiz do verbo
....... é apenas o concentrar-se, distendendo-se)
....... O ator é quem veste a roupa do avesso
....... A que revela o que reveste dentro, a que não encobre
....... Vestido, nu
....... Pela mágica simplicidade que o desabotoar imprime
....... Oblato livre como um ser nobre, se apresenta à vida,
conectado
....... A ela, com ela, a ela mesma se oferece
....... Constituição viva, sopesa a justiça e não se apequena
....... Inteiro, o ator impreterivelmente diz amo
....... E entra em cena
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jan.99
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