imágenese

4
.
.

Uma mulher dentro de um carro estacionado. Ela, no banco de motorista, usa o cinto de segurança, tem cabelos castanho-escuros, quase pretos, lisos até os ombros, divididos ao meio. Na cara a expressão é extremamente serena, quase triste, quase apática, sem chegar a ser uma coisa ou outra. A mão direita espalmada, mas de dedos juntos, se apoia acima do seio esquerdo numa pose curiosamente patriótica – mas não canta hino ou pensa na pátria: relaxa. A cabeça inclinada faz com que a linha dos cabelos encubra as orelhas e chego a pensar que lê alguma coisa pousada no colo, mas não lê assim como não pensa na pátria: apenas pensa. Espera alguém a quem dará carona ou um filho saindo da escola ou da casa de um amigo. A janela está aberta, é de dia, um dia iluminado e quente, porém refrescante com brisa. O carro encaixa-se à perfeição na vaga entre muitos outros carros também estacionados à perfeição, só que vazios, ou perfeitamente paralelo em fila dupla – como se num tempo ocupasse a fila e noutro tempo a vaga, e ambos os tempos coexistissem. Espera, sem pressa, e pensa. Espera e pensa.
.
.

3 dezembro 98
.

Nenhum comentário: