imágenese

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A visão aérea de um rio. Está reto à frente, sua direção desenha um triângulo que se afunila ao norte, sendo o bico de repente recortado pelo horizonte. Às margens duas florestas idênticas e não tão edênicas apesar de cheias de vida: as copas das árvores são coladas umas nas outras mas todas da mesma altura, e à beira d'água praticamente paradas, muito precisas pra ser natural, os dois conjuntos quase como dois caixotes baixos e verdes, sem fim a leste, sem fim a oeste. Dentro do rio um outro rio: como águas de densidades diferentes. O de dentro é sinuoso e em comparação ao outro, corre. Sua sinuosidade também é “reta”, precisa: as curvas vão iguais, à direita e à esquerda, em direção ao horizonte; quanto mais avançam, o seu corpo se afina conforme a perspectiva. A liquidez brilha (de todas as duas) mas principalmente a da correnteza interna; é de um cinza-chumbo (um cinza-mercúrio?) sendo o céu também prateado, uma prata opaca, já que das águas (principalmente de dentro) resplendem aqueles milhões de partículas, lascas de chispas, transmudando incessantes.
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28 outubro 98
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