imágenese

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Da cama, a visão olha o teto do quarto: é uma superfície marítima, ondulando em leve brisa. O dono dos olhos não está afogado, como seria óbvio já que todo o quarto está sob a superfície. Uma parede invisível, impalpável, sai de uma das arestas de cima à sua oposta de baixo cortando o quarto em diagonal perfeita. O triângulo superior é líquido, o inferior é de ar respirável, que aliás entra ao lado da cama pela janela aberta na única parede completamente seca. O espectador não sente desespero e ainda se deita: alguma agulha, braço ou movimento brusco pode ser que rompesse a diagonal precisa mas impalpável, mudando assim violentamente a parte de baixo – mas a lufada sutil pela janela aberta (talvez parte da mesma que atinge a água por cima) traz calma e uma segurança inquestionável. Pela janela é dia, sobre a água, no mundo em que se abre, também. A luz do sol rasga tranquila o azul translúcido da água cristalina. E o toque impressionante: os olhos do espectador deitado contemplam um casco de pequeno barco que flutua na superfície (todo ele cabendo na área do teto do quarto). É de madeira, em ripas ao comprido, abaulado mas raso, sem quilha; a luz, provavelmente a que vem de baixo ou efeito das duas se encontrando no líquido, alaranjam o casco – um laranja amarronzado, variável, como de um quadro muito bonito. É a visão reconfortante de um não-afogado.
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23 março 99
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