(insular emoção)

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Não é que a emoção está ilhada?: às vezes, pluma, é intestina ou o puro instinto em pedra branca, às vezes chama, às vezes estrada (por exemplo ligando Marte à China, ou Manaus a São Paulo, ou a sua mão à daquela pessoa), às vezes feita de fósforo, às vezes de cálcio, de enjoo ou de vácuo, às vezes de um brilho, de um embrulho, de um elétron, às vezes de um pássaro, recolhido, de uma grade que se quer ser pelo avesso, de um sentido num antidesabrochamento como um botão no seu casulo, às vezes no meio do dia, às vezes feita de escuro, às vezes é em parte de sangue coagulado, e não sabia, às vezes é um ovo, um jarro, aquele pé de ipê transplantado à sombra da casa construída, às vezes de suor e cimento, de barro, de suspiro, de planejamentos de acaso de ódio de se sentir sensível enquanto vivo, às vezes e de qualquer maneira: rainha. Rainha, reinando, mas eis que logo a mais que mínimos centímetros de seu trono a nossa alteza está envolta em neblina - camadas e mais camadas dela, de uma neblina não de névoa, sobrepostas e costuradas, de renda, de seda, de resinas, de argamassa, de aço. De modo a ser mais enterrada que mais de dez mil Tutancâmons; crosta de diamante bruto. A picareta parece impossível; ponta não há que resista; nem cabo; muito menos punho. Mas - eis de novo - não é que uma lâmina (luz de arqueólogo?) feita de uma outra matéria simplesmente penetra? Que matéria: não sei, nunca pude dizer, nunca poderei ter dito. E o engraçado é que, muitas vezes, das raras em que cada vez menos acontece, surge aparentemente do nada ou de uma razão quase besta, ou delicada, frágil e fácil, sem aviso: uma gota irrisória de chuva, a luz de uma vela, a voz de um poema; a alegria úmida de uma festa, a reunião que se sabe efêmera, a conjunção das presenças que por isso mesmo se torna intensa. Uma menina travestida em princesa, uma volta sonhada a um sol saudável de Fortaleza, uma quebra de rua numa curva encantadora de Barcelona, um ovo pré-histórico que um menino com suas meras mãos choca, um desejo de ida à Finlândia, uma necessidade de grama e bem-aventurança que é uma maneira da alma se sentir londrina, uma mulher que seria rosa, uma mulher que é mulher mãe e avó, uma mulher que é Curitiba, um homem que não é nova-iorquino e nem seria: é Nova York, tem Manhattan no peito e se espanta – num pé sopesa a África no outro a Oceania, uma mão sustenta a Europa a outra a Ásia, o corpo é de três Américas, na cabeça a Amazônia –, muitas orquídeas, pêssegos, cores laranja azul amarelo vermelho, um touro, um coala, uma andorinha, uma beluga, uma Espanha de Lorca com muitas trajetórias distintas, as montanhas de Minas vindo à tona por fora e do lado de dentro da história da cidadezinha, a garota, do primo ganhando uma árvore natalina de folhas de revista e uma estrela dourada, o garoto, da prima ganhando o que não lembro mas com certeza ele abrindo o pacote curioso, os doces sobre a mesa, os olhos sonolentos, a despedida protegida pelo guarda-chuva, em Assis uma capela faz sombra sobre a rua de pedras e elas ainda exalam luzes sob a luz do crepúsculo. De um pico nevado, de um parque na selva, de uma praia brasileira eu precisaria para assimilar e recompor tudo isso com clareza; mas só tenho a madrugada, e uma cadeira, e mesa e caneta e papel e vai assim de uma sentada, desse jeito. Não, pensando bem: não, olhando bem: sentindo: o quarto, a sala, o corredor ou as dependências da casa, são, talvez, o que eu quiser que seja. Ali, por exemplo, vejo o dia em que caiu um blecaute, a noite ficou mais noite e raios queimaram eletrodomésticos; ali por exemplo vejo o dia seguinte, em que escandalosamente para um espanto benéfico não havia nuvens; ali é um outro almoço, ali é uma saída com pressa, é a vez em que um telefonema revelou uma surpresa de chofre, é a vez em que pela primeira vez apareceu um rato, é por exemplo a chegada do carro novo no escuro, é por exemplo o outro carro, cheio, no imenso movimento norte-sul do país enquanto desbravava a própria viagem, é por exemplo, ali, meus quatro avós que nunca conheci, estão sentados na mesma pose em quatro pontos, me olham, um sorriso em cada face, e silêncio; é também o Rio Negro, também com crepúsculo – eles são tão grandes, sol e rio, que ambos se mesclam, formam um vermelho vivo, de vinho, de açaí, que eu não sei se é fogo, que eu não sei se é líquido –, ou é por exemplo o sol saindo: da cidade grande entre a vasta mata e as vastas margens de água doce, ou da cidade grande com os prédios de concreto que sempre estiveram próximos de mim; é por exemplo a efêmera festa, ou qualquer outra festa, que de certa forma não passa ou talvez não passe nunca, como de certa forma nuvens, ou ruínas, ou mapas de cidade ou as cidades mesmas em si. Não, agora eu sei: neste momento mesmo estou na praia. Caminho descalço, nas mãos as sandálias balançam, posso não compor nada comigo e a História quando a costuro vira trapos e o que consigo é de chofre como aquele telefonema revelando; mas abaixar-se na areia e pegar um punhado, ou fazer um castelo, ou traçar um risco, é pelo menos – pelo menos pelo menos – assinalar um gesto. Caminho. A praia é longuíssima: não vejo começo, não tem um fim. Sinto o cheiro da fumaça dos carros; sinto o amálgama entre mata e rio cheirando. À minha direita está o mar do Tempo (não digo imenso, digamos incomensuravelmente inefável no seu descomunal volume líquido); à minha esquerda está a terra, melhor do que isso: a terra da Terra, toda, a princípio muito modesta, irrisória lado a lado ao mar-alto, mas eu digo: vejo: sinto: ela é imensa – imensa; digamos que tão incomensuravelmente quanto.
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25.dezembro.2000
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2 comentários:

óli de castro disse...

emoção. natalina emoção.

bia reinach disse...

Edu, edu...
este teu poema me emocionou, fui sentindo cada uma das emoções e somando outras a estas...e a possibilidade de a imaginação povoar o quarto, a sala, a dureza da vida... que delícia!
Que delícia de poema...me fez sonhar!
obrigada, hoje, agora e sempre!
bia