rotunda

.
.
.
....... O ator não quer saber se rei ou mendigo estará na plateia
....... Como o crítico molhará sua pena
....... Ou se o inimigo virá munido de pedras
....... O ator precisa de deixas, mas não se queixa
....... Todo tempo o Tempo todo as deixa palpáveis
....... O ator sabe que só do suco da sua solidão brotará a
dimensão das células
....... Holofótico, não reflete um grande sucesso
....... Um raro delírio de talento
....... Um bem dotado exclusivo a esnobar um momento
invejável na avalanche do povo
....... Holofótico, o ator reflete qualquer ser luzindo no seu próprio trilho
....... Independentemente do papel traçado – dele ator no palco,
 ................................................................... dele terráqueo no mundo
....... Leitor lê o livro ao lado do espelho:
....... Um olho na letra outro no reflexo e o entendimento
faz-se de conta, disperso, contas no caminho espalhado
....... O ator não é assim
....... Apenas lê, em voz alta, se lê, lendo-se, d
esconcentradamente
....... (e o advérbio não expressa o contrário da raiz do verbo
....... é apenas o concentrar-se, distendendo-se)
....... O ator é quem veste a roupa do avesso
....... A que revela o que reveste dentro, a que não encobre
....... Vestido, nu
....... Pela mágica simplicidade que o desabotoar imprime
....... Oblato livre como um ser nobre, se apresenta à vida,
conectado
....... A ela, com ela, a ela mesma se oferece
....... Constituição viva, sopesa a justiça e não se apequena
....... Inteiro, o ator impreterivelmente diz amo
....... E entra em cena
.
jan.99
.
.
.
.
.

Um comentário:

Flávia Ferraz disse...

Todo lindo. Mas o final...é muito especial.